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A prática cristã genuína, nas pegadas de Jesus, acentua a igualdade de todos. 

 

Jesus Cristo, Cristianismo e Igreja Católica mantêm profunda relação histórica e doutrinal. Jesus Cristo na pessoa, mensagem e prática desencadeou o movimento histórico que se denominou cristianismo. Como dizem os Atos dos Apóstolos, “em Antioquia, os discípulos foram, pela primeira vez, chamados com o nome de ‘cristãos’. (At 11,26). Daí vem o termo de Cristianismo.

 

O sufixo “ismo” em português pode carregar nítida intenção de criticar o exagero, o excesso” (Cl. Moreno), como por  exemplo, consumismo, estatismo e tantos termos. Será que cabe dizer que o Cristianismo, ao configurar historicamente a Cristo, radicalizou alguns aspectos e com isso deformou a figura de Cristo? E quando ele assume a forma de determinadas Igrejas, o limite aumentou? Sim, em todos os casos o Cristianismo como as Igrejas carecem continuamente de voltar ao Jesus histórico para deixar-se questionar por ele e assim se reformar. Nesse sentido, cabe o clássico dito “Ecclesia semper reformanda” – a Igreja deve sempre estar a reformar-se. 
        
 

A liberdade da pessoa fundamenta-se por  ter sido ela criada por Deus trino e chamada por ele à comunhão de amor

Retomando tal reflexão para o tema da democracia, as Igrejas não raro se opuseram a sua instalação, mostrando no seu interior formas pouco democráticas. O Cristianismo histórico chegou a assumir aspectos de intransigência com relação à democracia.

Se avançarmos, porém, na percepção dos  germes culturais do Cristianismo nas primeiras expressões e sobretudo se nos detivermos na pessoa de Jesus Cristo, constatamos que os elementos positivos da democracia sintonizam altamente com ambos. 

O Cristianismo trouxe a concepção do valor incomensurável da pessoa humana por força do mistério da Encarnação pelo qual todos são iguais. Paulo defendeu a liberdade em face do literalismo judaico (2Cor 3,17; Gl 2,4; 5,1). A solidariedade com os necessitados soa como tônica central da mensagem, pessoa e prática de Jesus. Basta recordar o sermão das bem-aventuranças (Mt 5, 1-12) e da escatologia em que Jesus se identifica com os carentes da sociedade (Mt 25, 31-46). Portanto temos os três lemas centrais da revolução francesa de onde nasceu a democracia: igualdade, liberdade e fraternidade (solidariedade).

 

O Cristianismo trouxe a concepção do valor incomensurável da pessoa humana por força do mistério da Encarnação pelo qual todos são iguais

A prática cristã genuína, nas pegadas de Jesus, acentua não só a igualdade de todos. Se se privilegia alguém, então estão os pobres, marginalizados a pedir a solidariedade, a fraternidade, a defesa dos seus direitos. A liberdade da pessoa fundamenta-se por  ter sido ela criada por Deus trino e chamada por ele a comunhão de amor. Nenhuma sociedade humana, que merece tal nome, se entende sem a verdade evangélica básica do valor infinito de cada pessoa, do seu direito inalienável à vida digna, ao respeito de sua dignidade e de sua capacidade de participação.

 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)