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Corpus Christi: celebração da presença de Jesus na Eucaristia


    
 

Eucaristia e Páscoa

A Igreja sempre realçou a estreita ligação entre a eEucaristia e a Páscoa do Senhor, um mistério de morte, ressurreição e presença no mundo. Sempre houve a convicção de que o Sacramento da Eucaristia é pascal, porque se refere à morte e à ressurreição de Jesus. É inegável o contexto pascal da instituição da Eucaristia, como atestam muitos textos do Novo Testamento (cf. Lc 22,15-18; Jo 6,4.51.54.58; 1Cor 10,21; 11,20.23.27). A Eucaristia jamais poderá ser dissociada da lembrança da “noite em que foi entregue” (1Cor 11,23). Para sempre será marcada pela palavra constitutiva e interpretativa: “isso é o meu corpo, que é para vós” (1Cor 11,24). Ela é uma instituição nova, “em meu sangue” (cf. 1Cor 11,25), que é o Reino escatológico nascido da imolação de Jesus. Proclama a morte do Senhor (cf. 1Cor 11,26). “É o sacramento do Cristo em sua morte, em sua ressurreição, em sua vinda atual e futura, o sacramento do Cristo no mistério pascal”, afirma um grande teólogo da Eucaristia. Ela é memorial do único e definitivo sacrifício de Cristo. 

Eucaristia: memorial da Páscoa

 

 

Jesus surpreendeu os seus discípulos, no contexto da ceia judaica, transformando
o pão e o vinho em
seu corpo e sangue,
ou seja, sua vida
que seria entregue
na cruz para a salvação da humanidade

 

Na cruz temos o sacrifício único e perpétuo para o perdão dos pecados. E, neste caso, sacrifício não significa – como na linguagem coloquial – um esforço excessivo que alguém faz para realizar uma tarefa (“Fiz muito sacrifício para passar no concurso”, dizem alguns). O sacrifício de Jesus não é o esforço que ele fez para nos salvar. O sacrifício de Jesus foi sua entrega a Deus por nós. A entrega do Filho ao Pai para nos reconciliar com Deus. Sacrifício vem do latim “sacrum facere” (tornar sagrado, consagrar). Jesus, o Filho de Deus, na nossa condição humana marcada pelo pecado – sendo que ele mesmo não pecou –, se entregou ao Pai no Espírito Santo. E o Pai acolheu a oferta do Filho, ressuscitando-o no poder do Espírito Santo e nos salvando neste sacrifício.

 

Jesus se consagra por nós e somos salvos na sua consagração. O mistério pascal – morte e ressurreição – resume toda a vida de Jesus e se constitui ápice da história da revelação de Deus à humanidade. Jesus, morto e ressuscitado por nós, é a salvação da humanidade. Esse sacrifício na cruz foi realizado uma vez por todas. Um ato histórico e definitivo. Tudo o que Ele buscou realizar em sua vida terrena, através da pregação do Reino, o realizou com sua morte na cruz , na sua entrega ao Pai por nós. O sacrifício de Jesus na cruz substitui os sacrifícios antigos, ele é “o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Ele é Sacerdote, altar e cordeiro.

Jesus, na última ceia, no contexto daquela celebração judaica, memorial da libertação do povo de Israel do Egito, nos deixou o memorial do seu sacrifício, para que a Igreja de todos os tempos viva de modo incessante o dom de sua Páscoa. Ele antecipou profeticamente, na quinta-feira, o seu sacrifício na cruz, dando a sua morte significado salvífico. Surpreendeu os seus discípulos, no contexto da ceia judaica, transformando o pão e o vinho em seu corpo e sangue, ou seja, sua vida que seria entregue na cruz para a salvação da humanidade.

 

 Pela Eucaristia, nos tornamos contemporâneos do evento de nossa salvação, a nova páscoa: Jesus, o Filho, entregue ao Pai por
nós no seu sacrifício
 

Jesus deixa aos discípulos a ordem de celebrar para sempre a memória de sua morte salvadora, de seu sacrifício na cruz, e os educa para viver o único acontecimento determinante da história: seu mistério pascal, sua morte e ressurreição para a salvação de todos. A Eucaristia que celebramos se configura, pois, como memorial do sacrifício de Cristo.

 

Na sua Encíclica “Ecclesia de Eucharistia”, o Papa João Paulo II afirma sobre a Eucaristia: “Este sacrifício é tão decisivo para a salvação do gênero humano que Jesus Cristo realizou-o e só voltou ao Pai depois de ter deixado o meio de dele participarmos como se tivéssemos estado presentes. Assim cada fiel pode tomar parte nele, alimentando-se dos seus frutos inexauríveis. Esta é a fé que as gerações cristãs viveram ao longo dos séculos, e que o magistério da Igreja tem continuamente reafirmado com jubilo e gratidão por dom tão inestimável”.

Memorial não significa simplesmente lembrança. Na ceia judaica, os judeus se tornavam contemporâneos do evento de sua libertação do Egito. Pela Eucaristia, nos tornamos contemporâneos do evento de nossa salvação, a nova páscoa: Jesus, o Filho, entregue ao Pai por nós no seu sacrifício. E como podemos participar daquele evento? Porque o próprio Cristo pascal e glorioso se faz presente na Eucaristia, na plenitude de sua oferta ao Pai por nós. Ele é sempre o que se entregou por nós. Não há um Jesus pós-pascal, há somente o Jesus pascal, que foi glorificado pelo Pai no momento sua morte, do seu sacrifício.

 

A Eucaristia se revela uma forma de aparição do Ressuscitado. “O Pai, no poder do Espírito Santo, ressuscita o Filho nas espécies do pão e vinho”.  Por isto, a Eucaristia é “um pedacinho da eternidade”, o Filho, glorificado na nossa condição humana, vem a nós como plenitude da história da humanidade e da nossa história pessoal. Jesus está realmente presente na Eucaristia. Ela não é só símbolo, mas símbolo-realidade, ou seja, um símbolo que contém o que é simbolizado. O pão e o vinho se tornam a realidade do corpo ressuscitado de Jesus – ela é Corpus Christi. O corpo presente na Eucaristia é o mesmo que nasceu da Virgem Maria, morreu na cruz e ressuscitou por nós. Realidade grandiosa, só compreensível à luz da fé. Depois das palavras da instituição, o padre diz: “Eis o mistério da fé”. De fato, é grande o mistério da fé. Mas como compreender esta presença real?
   
Eucaristia: Presença real

Segundo o Concílio de Trento (1545), depois da consagração não ficam mais o pão e o vinho, mas só as aparências do pão e do vinho. O Concílio declara que Cristo oferece aos discípulos o seu corpo, na aparência de pão e de vinho. Produz-se uma mudança de “substância”, o que a Igreja chama “transubstanciação”. A “substância” do pão e do vinho é transformada em corpo e sangue de Cristo.  “Substância” é o que faz com que uma coisa seja aquilo que ela é. Algo que a ciência não capta, mas que a razão diz que existe em cada coisa criada, como fundamento desta. Pois então, esta substância é que muda na Eucaristia, tornando-se Corpus Christi. A substância muda, mas ficam os “acidentes” do pão e do vinho. Estas explicações podem parecer difíceis. Para nós, basta saber que a Igreja, desde sempre, defendeu a presença real de Jesus na Eucaristia. A presença não é simbólica, mas ontológica, ou seja, diz respeito à realidade de Cristo ressuscitado.
   
Eucaristia: sacramento do Reino

 

 Comungar Jesus na Eucaristia
desencadeia o sério compromisso de comungá-lo no irmão,  pois o outro é também sacramento da presença
de Jesus
  

A Eucaristia é, ainda, sacramento do Reino escatológico. Ela nos transporta para este Reino e nos faz descobrir o verdadeiro sentido da nossa existência cristã. João substitui o relato da Eucaristia pelo do lava-pés, gesto profético de Jesus que explica o sentido do seu sacrifício na cruz: ele é serviço, serviço de amor, serviço de escravo, pois cabia aos escravos aquele serviço (cf. Jo 13, 1-15). Depois de lavar os pés dos discípulos, diz Jesus: “Vós me chamais de mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. Se, portanto eu, que sou o Senhor e mestre, vos lavei os pés, vós também deveis lavar-vos os pés um dos outros”.

 

O sacrifício de Jesus na cruz é serviço de quem se entrega pelos irmãos, pela humanidade. Na Eucaristia, a Igreja recebe o corpo do seu Senhor e se transforma nele. E cada membro da Igreja, ao comungar, poderia dizer como São Paulo “Cristo vive em mim”. Se Cristo vive na Igreja e no fiel, a vida da Igreja e de cada discípulo deve ser expressão da presença de Cristo.

E só há uma forma de expressar Cristo: o amor. Não o amor abstrato, mas o amor que nos leva à solidariedade ilimitada que caracterizou a própria vida de Cristo e o que o levou a se entregar por nós. Amor que emerge, sobretudo, na solidariedade com os pobres e abandonados, os preferidos de Jesus. Comungar Jesus na Eucaristia desencadeia o sério compromisso de comungá-lo no irmão. O outro é também sacramento da presença de Jesus. Ele mesmo afirmou que estaria nos marginalizados (presos, famintos, sedentos, nus) e que seria servido neles (cf. Mt 25, 31-46). Quem verdadeiramente encontra Jesus na Eucaristia, o encontra no irmão, sobretudo naquele que mais carece de nossa atenção e cuidado: o pobre e indefeso. A festa de Corpus Christi nos recorda a presença real de Jesus, por amor a nós, neste sacramento. É “invenção de amor”, diz Santo Afonso. Ele está na Eucaristia para ser o amor da nossa vida nossa vida e para transformá-la em dom para outros, para que o reino escatológico comece a se tornar uma realidade histórica que culminará na eternidade.

 

Pe. Paulo Sérgio Carrara, CSSR
Professor na FAJE e no ISTA, em Belo Horizonte

 

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