Você está em:

Nunca saberemos sofrer com a dignidade necessária. Haverá sempre momentos difíceis em que sentiremos o grito da nossa humanidade que se rebela. É nesses momentos que o nosso olhar deve fixar-se em Jesus, modelo e mestre do sofrimento libertador. Os santos, de uma forma ou outra, beberam do cálice do sofrimento e nele encontraram a coragem para não desanimar na vida.

Gostaria de oferecer algumas pistas que são úteis na minha vida quando me deparo com os pequenos sofrimentos. O Senhor me ama a tal ponto que, vendo a minha fragilidade, não me envia dores maiores porque sabe que não seria capaz de sustentá-las sem cair no chão e ficar lá até que um bom Cireneu me ajudasse a levantar-me.

Quando vejo o sofrimento aproximar-se de mim, tomo a atitude que tomaram Jesus e Santa Teresinha. Peço ao Pai que me liberte. Mas sempre acrescento duas pequenas orações que me parecem as mais belas em todos os momentos da vida: “Seja feita a vossa vontade assim no céu como na terra” e “se for possível que se afaste de mim este cálice! Mas que direi, eu vim para fazer a vossa vontade”.

Tento descobrir qual é a causa do sofrimento. Se for por minha negligência, falta de amor ou imprudência humana, tento me converter. Se vier de Deus e sinto-me totalmente inocente, vejo nisto uma “noite escura, uma purificação” que devo saber acolher com alegria, porque serve para minha santidade. Na escola de São João da Cruz tenho aprendido muito sobre o sofrimento.
 

Tento descobrir qual é a causa do sofrimento. Se vier de Deus e sinto-me totalmente inocente, vejo nisto uma “noite escura, uma purificação” que devo saber acolher com alegria

“Ó almas desejosas de andar seguras e consoladas nas coisas do espírito! Se soubésseis quanto vos convém padecer sofrendo para alcançar esta segurança e consolo! E como, sem isto, é impossível chegar ao que a alma deseja, antes, ao contrário, é voltar atrás, jamais buscaríeis consolo de modo algum, nem em Deus, nem nas criaturas. Carregaríeis, de preferência, a cruz, e, nela pregadas, desejaríeis beber fel e vinagre puro e o teríeis por grande ventura, vendo como pela vossa morte ao mundo e a vós mesmas viveríeis para Deus, em deleites espirituais.”(São João da Cruz – Ch 2,28).

João da Cruz pediu sofrimento a Deus para que pudesse ser encontrado digno de ser mais amado. Não se pode ser amigo da glória de Cristo e inimigo da cruz de Cristo.

Vejo nos sofrimentos uma participação mais direta na paixão do Senhor Jesus. É preciso ver o nosso corpo como um prolongamento do mistério da encarnação e realizar em nossa carne o que falta à paixão do Senhor. O sofrimento como intimidade com a humanidade de Jesus e como solidariedade com milhões de irmãos que a cada dia carregam cruzes pesadas e sofrem o drama da solidão.

Procuro não me apavorar diante dos sofrimentos, mas saber ‘esperar’ o momento oportuno. A Bíblia nos diz “quem se colocar a serviço de Deus prepare-se para a prova”. É na paciência que tudo se alcança. Devemos conservar no nosso coração a certeza de que Deus nunca nos enviará um sofrimento maior que as nossas possibilidades. Toda cruz é feita sob medida, é pessoal, ninguém pode carregá-la a não ser nós mesmos. Os outros, como bons cireneus, poderão ajudar-nos. Mas a cruz nos pertence e é nela que devemos ser crucificados.

A dor, quando é único caminho de fidelidade ao nosso Deus, torna-se amor e martírio, e devemos olhá-la nos olhos, sem medo, porque ela, assumida e amada, é caminho para se entrar no mistério da ressurreição. Não há páscoa sem se passar através da encarnação-paixão-morte. E é só depois da morte que podemos gozar a plenitude do reino, onde o sofrimento, dor, morte, lágrimas, não têm mais cidadania.

Frei Patrício Sciadini, ocd
Teólogo e escritor