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Como a ritualidade nos faz assumir a humanidade filial de Jesus

Em nossos artigos mais recentes, estamos refletindo sobre as imagens de Jesus que a Liturgia veicula. A primeira delas, o Filho, foi abordada sob o ponto de vista bíblico e também eucológico. É importante, ainda, nos debruçar sobre o modo pelo qual as celebrações transmitem ou comunicam essa experiência filial de Jesus à comunidade celebrante. Tomaremos como referência para a nossa reflexão uma afirmação do teólogo espanhol José María Castillo sobre a cristologia que os apóstolos aprenderam com Jesus. Castillo, provocativamente, defende uma aproximação da figura de Jesus que respeite sua humanidade, pela qual Deus é anunciado e se faz presente. Para o teólogo, esta discussão é importante porque se desdobra numa ética questionável:
 

Na Igreja houve mais dificuldade para aceitar a humanidade de Jesus do que a divindade de Jesus. O que quer dizer que se entendemos por divino tudo aquilo que se encarna no sagrado, na Igreja, o sagrado manda mais do que o profano (…). Deparamo-nos com a dificuldade que estamos experimentando com tanta frequência e em assuntos enormemente importantes. Por exemplo, como em nome do direito divino se limitam ou simplesmente se eliminam os direitos humanos.”1   

 

Ao dizermos juntos “Pai-Nosso”, não só obedecemos ao mandato de Jesus (“quando fordes conversar com Deus, dizei assim…”), mas por tal escuta permitimos que se cumpra sua missão, que ela se realize em nós

Primeiramente, é importante reiterar que não nos seria possível o culto sem reconhecermos a humanidade de Jesus como reveladora de Deus e salvadora do gênero humano. Ela é paradigmática para todo o edifício celebrativo dos cristãos. O Verbo se fez carne, Deus se humanou. Como já dito antes, a palavra e a gestualidade de Jesus fundamentam a prática litúrgica. Enquanto noutras religiões o culto se estabelece pela dimensão cósmica ou pelas narrações míticas, a liturgia cristã se orienta a partir da história de um ser humano real e concreto, situável seguramente no tempo e no espaço: Jesus de Nazaré. Isso não significa negar os elementos cósmicos e míticos, mas estes recebem uma abordagem diferente porque são tomados a partir da existência histórica de Jesus.

Um dos elementos rituais que melhor traduzem esta condição filial de Jesus é a convivialidade eucarística que se exprime em alguns momentos-chave da Missa. Citaremos aqui dois deles. Em primeiro lugar, a postura filial de nos reunir ao redor da Mesa do Senhor. É verdade que essa orientação da assembleia em referência clara ao altar nem sempre é conseguida. Arquitetonicamente e também pelas limitações de uma teologia ainda pré-conciliar, não nos demos conta da importância de resgatar este elemento original e originante da Eucarisita. Duas das 14 orações que fazem o sacramento, a prece eucarística ou anáfora como dizem os orientais, a primeira e a quarta, afirmam que a assembleia está circunstante ao altar. Isso significa: de pé e ao redor, como uma família. Estamos à mesa com Jesus. Ele a preside, assumindo entre nós o lugar que seria do Pai, como revelador nato de sua presença. Olhamos para Ele e reconhecemos a ternura paterna e materna de Deus, que se despe de sua divindade, temporariamente, para revestir-nos com ela. O Mistério da Encarnação é um acontecimento no qual Deus – em Jesus – se despoja e torna a ser revestido. Cruz, morte, ressurreição, ascensão e pentecostes referem-se a esse Mistério chamado Pascal. Não somos divinos por origem. Tornamo-nos divinos porque somos assimilados por Deus como membros de sua família.

Abre-se, então, o segundo elemento: chamarmos a Deus de Pai. Foi muitíssimo acertado a tradição litúrgica ocidental haver inserido o Pai Nosso na intersecção da Prece Eucarística com o Rito da Comunhão. Postarmo-nos ao redor da mesa exige que entremos em relação com  Deus, que Jesus revela assumindo o lugar de filho. Desta maneira, a oração dominical revela e faz reverberar essa transmutação dada no Batismo-Crisma e que deve nos orienta religiosa e eticamente. Ao dizermos juntos “Pai-Nosso”, não só obedecemos ao mandato de Jesus (“quando fordes conversar com Deus, dizei assim…”), mas por tal escuta permitimos que se cumpra sua missão, que ela se realize em nós.
 

Padre Márcio Pimentel
Liturgista

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1 “Jesus vivia com as pessoas. Essa é a cristologia que os apóstolos aprenderam”.
José Maria Castillo. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/555445-jesus-vivia-com-as-pessoas-essa-e-a-cristologia-que-os-apostolos-aprenderam-entrevista-com-jose-maria-castillo.
Acesso: 1º de Junho de 2016