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Cidadania eclesial de leigos e leigas: uma urgência irrenunciável na caminhada da igreja


 

 

A Igreja comemora no domingo, 23 de novembro, na solenidade de Cristo Rei, o Dia Nacional dos Cristãos Leigos e Leigas

 

O estimado Pe. João Batista Libanio indicava, como ponto de partida, para quem deseja provocar a reflexão em relação a um tema ou palavra, o caminho da etimologia. O vocábulo “leigo”, por exemplo, deriva do latim “laicus”, cuja origem vem do grego “laikós”, e designa, a pessoa que não detém conhecimento aprofundado sobre determinada área. Em contexto religioso, tradicionalmente, refere-se à pessoa que não possui conhecimentos necessários para assumir determinadas funções dentro da organização religiosa ou, no contexto cristão, que não recebeu o sacramento da ordem, em um de seus graus: diaconato, presbiterato ou episcopado. Leigo é, portanto, aquele que não faz parte da hierarquia eclesiástica. Quando alguém se reconhece enquanto leigo, geralmente o faz pela falta, pelo que não possui. Este horizonte compreensivo ainda predomina no imaginário contemporâneo.

Há, porém, outra compreensão bem mais positiva desse termo na tradição latina. Deriva-se do vocábulo latino “laós” que significa o conjunto das pessoas, o povo. O Concílio Vaticano II acolhe, destaca e assume tal horizonte hermenêutico em sua Constituição Dogmática Lumen Gentium. Ao expressar a autocompreensão da Igreja, desautoriza, em relação aos leigos e leigas, qualquer mentalidade negativa, excludente ou desprezível.1  Antes de tecer qualquer distinção entre membros da hierarquia e do laicato, nesse documento, o Concílio enfatiza a centralidade do Povo de Deus, formado por todos os batizados.2  O Concílio Vaticano II explicitou a igual dignidade eclesial de todos oriunda do batismo. Nesse sentido, ensina que todos os batizados são chamados a participar e cuidar, de modo corresponsável, da vida interna da Igreja, sacramento do Reino de Deus, e participar, do mesmo modo, da construção da sociedade justa, misericordiosa, solidária e fraterna.

Desde o espírito do Concílio, nos últimos 50 anos a ação evangelizadora da Igreja Católica promove intenso esforço para incutir acepção positiva e atribuir cidadania eclesial aos leigos e leigas no seio das comunidades cristãs. Fala-se da centralidade do batismo e da dignidade de todo batizado enquanto membro do Povo de Deus.3  Chega-se inclusive a enfatizar a laicidade do próprio Jesus de Nazaré. Ele próprio não fazia parte da hierarquia religiosa judaica, não era sacerdote, levita, fariseu ou doutor da lei. A Igreja da América Latina, sobretudo nos anos 70 e 80, no esforço de recepção do Concílio, promoveu, de muitos modos, a formação de nova consciência no laicato. Na caminhada das comunidades cristãs multiplicaram-se os ministérios leigos e a promoção de diversificadas maneiras de engajamento eclesial.

 Acontece que o empenho de renovação eclesial, diante das profundas transformações culturais, mostra-se insuficiente para provocar e/ou sustentar mudanças significativas na mentalidade religiosa predominante. A cultura da corresponsabilidade eclesial revela-se uma construção ainda incipiente. Entre os cristãos católicos contemporâneos, infelizmente de modo quase generalizado, continua imperante a presença arraigada de compreensão negativa do termo leigo. Como se não bastasse, no seio da Igreja e na cabeça de muitos membros do Povo de Deus, revela-se hegemônica a mentalidade “clericalista”. Esta considera o “clero” como herdeiro e o único, legítima e constitutivamente, responsável pela vida da Igreja. Por clero, entende-se aqueles que participam da hierarquia da Igreja. A forma como promoveu-se o engajamento eclesial dos leigos e leigas não superou a mentalidade predominante da superioridade do sacramento da ordem em relação ao do batismo. Não consolidou a passagem real na mentalidade religiosa do leigo do “ir a igreja” para o “ser Igreja”.

Na Arquidiocese de Belo Horizonte, a partir do Projeto Pastoral Construir a Esperança 4 , a Assembleia do Povo de Deus (APD)5  tornou-se paulatinamente a instância de maior mobilização, envolvimento e participação dos fieis. Na última, estabeleceu-se prioridades muito significativas.

Em torno do eixo espiritualidade encarnada, a partir da centralidade da pessoa de Jesus, definiu-se como urgência na ação evangelizadora: 1. A promoção do primado da Palavra de Deus; 2. O cuidado para que a liturgia favoreça o encontro com o Senhor Ressuscitado; 3. O desenvolvimento de sólida espiritualidade trinitária de comunhão e de serviço.

Em torno do eixo da vida comunitária, a partir da consciência da comunidade de fé como lugar da experiência de Jesus, estabeleceu-se como compromisso primordial: 1. A promoção da autocompreensão e a concretização da Igreja como rede de comunidades, irmanadas pela dinâmica do Reino de Deus. Para tal, urge concretizar uma organização eclesial participativa e investir na formação bíblica e teológica continuada para todos; 2. Colocou-se, como urgência evangélica, a valorização e criação de novos ministérios leigos, com ênfase na participação da mulher; 3. Assumiu-se duas grandes prioridades: a acolhida da complexa realidade familiar e a opção preferencial pelos jovens. Em torno do eixo da inserção social, a partir do sinal profético da opção pelos pobres e excluídos e da perspectiva ecumênica e do diálogo inter-religioso, assumiu-se o compromisso de: 1. Promover a participação cidadã dos fieis em prol construção da sociedade justa e fraterna; 2. Elaborar e acompanhar projetos sociopolíticos que concretizem o bem comum; 3. Procurar qualificar a presença e atuação da igreja nos diversos meios de comunicação em vista da evangelização da cultura.  

Atualmente, enfatiza-se, na Igreja do Brasil, a necessidade de investir na conversão e renovação da estrutura paroquial.  Transformar a antiga paróquia em autêntica “Rede de comunidades” com estrutura, de fato, participativa e com crescente corresponsabilidade de todos na missão de evangelizar. Para isso importa consolidar a formação de conselhos, consultivos e deliberativos, em todos os níveis: comunitário, paroquial, forâneo, regional e arquidiocesano. Investir na formação e capacitação dos/as conselheiros/as. Reconhecer, incentivar e ampliar os ministérios leigos.

Reconhecer e valorizar a conquista da cidadania eclesial dos leigos e das leigas significa, concretamente, repensar e transformar de forma profunda a realidade atual. O Cristianismo do futuro, ou o futuro do Cristianismo, passa, necessariamente, pela construção de outra concepção do papel dos leigos e das leigas na igreja.

Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães
Professor de Cultura Religiosa do Departamento de Ciências da Religião
Secretário Executivo do Observatório da Evangelização – PUC Minas