Você está em:

Construímos os imaginários sociais com os símbolos, gestos, linguagem, expressões, quadros e infinitas outras realidades que nos cercam. E, a partir dele, interpretamos os novos fatos, símbolos, gestos etc. Estabelece-se verdadeiro círculo do qual dificilmente saímos, se não nos detivermos em reflexão clara e consciente.
 
Quando falamos de “santo”, vêm-nos à mente as imagens, os “santinhos” que nos povoaram a infância. Ao entrarmos em qualquer igreja, lá estão as estátuas de homens e mulheres com trajes especiais, rostos pacificados, semblantes edificantes. Circulam também histórias e estórias de santos com fatos miraculosos. As novenas preparam os devotos para as festas. 
 
A leveza da graça age tanto mais quanto nos aliviamos da maldade. Que o exemplo dos santos sirva para estimular-nos a caminhar com o mesmo entusiasmo que eles
No Brasil, alguns santos ganharam especial devoção e em torno deles se tecem cada dia notícias de “graças alcançadas”. As canonizações recentes e a promessa das próximas como as dos Papas João XXIII e João Paulo II ocupam a imprensa.
 
Todo esse conjunto tece-nos o imaginário religioso do santo. E com isso talvez percamos algum ponto muito profundo sobre o qual desde o Concílio Vaticano II se vem insistindo. Na Constituição Lumen gentium sobre a Igreja há um capítulo sobre a Vocação universal à santidade na Igreja. Lá lemos que todos, “quer pertençam à hierarquia, quer sejam por ela apascentados, são chamados à santidade” (LG n. 39). Como, em outro momento, o Concílio diz que a Igreja é santa e pecadora. Concluímos, ao olhar tanto para nós como para todo irmão/a, que nos habita a dupla realidade da graça e do pecado, da santidade e do desamor. 
 
A festa de todos os santos celebra o que há de santidade em nós. Evidentemente, ela não existe em todos na mesma medida. No entanto, a celebração dos santos estimula-nos ao mover os braços da balança em duplo movimento. Ao mesmo tempo, esvaziar pela conversão, reconciliação, arrependimento e mudança de vida o braço do pecado, de modo que o braço da santidade se encha de frutos de bondade, de justiça e de amor. 
 
A leveza da graça age tanto mais quanto nos aliviamos da maldade. Que o exemplo dos santos canonizados não nos paralise, como se a santidade fosse privilégio deles. Pelo contrário, sirva para estimular-nos a caminhar com o mesmo entusiasmo que eles o fizeram.
 
O termômetro da santidade capta o calor da atenção, cuidado e amor ao próximo. Quanto mais graus apontar, tanto mais sadia está a alma
O Dia de Todos os Santos torna-se, assim, a nossa festa para agradecermos a Deus o trabalho da graça que ele desde o batismo nos desenvolve no coração. Nele celebramos o nosso lado luz. E estimula-nos a lançar sobre a parte escura da alma a claridade do amor de Deus e ao irmão.
 
Santidade identifica-se com amor. Amar implica saída de si em direção ao outro, especialmente ao mais carente e necessitado. O termômetro da santidade capta o calor da atenção, cuidado e amor ao próximo. Inverte a lei da medicina. Quanto mais graus apontar, tanto mais sadia está a alma.  Paremos um momento nesse dia tão bonito de todos os santos. Ponhamo-nos o termômetro do amor e leiamos o número. Alegremo-nos por cada grau que ele suba e peçamos a todos os santos no céu e na terra que nos ajudem a manter a temperatura mais alta possível. 
 
Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)