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Chamados à conversão pastoral

Num primeiro momento da Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco situou-nos em face dos desafios da Nova Evangelização. Então: como evangelizar? Caminha na direção da resposta às perguntas que a realidade social, cultural e eclesial levanta.

Retoma ideia querida de Paulo VI: Toda Igreja evangeliza (Evangelii nuntiandi). O Papa desloca o sujeito da evangelização para “todo um povo que peregrina para Deus”, em contra ponto à prática, que infelizmente se firmou, de que a evangelização é missão do clero ou da “instituição orgânica e hierárquica”. Tal direito e obrigação nascem do batismo. Até mesmo as crianças, na medida que sejam capazes, cabe a missão de evangelizar. Implica a compreensão da Igreja como “um povo para todos” com muitos rostos para além da expressão institucional. Retoma uma das belas expressões de Igreja do Concílio Vaticano II que mereceu um capítulo da Lumen gentium: O Povo de Deus, antes que falasse da hierarquia e dos outros membros da Igreja enquanto instituição. Afirma com clareza que todos somos “discípulos missionários”, reforçando o ensinamento da Conferência de Aparecida.

O Papa indica “caminho de preparação da homilia” que implica estudo, oração, reflexão e criatividade
pastoral

O Papa mostra enorme sensibilidade para com a religiosidade e piedade popular. Vê nela verdadeira força evangelizadora. Revela a maneira como a fé se encarnou numa cultura por obra do Espírito Santo. Não imaginemos que a tarefa evangelizadora se identifica com as sagas dos missionários que deixaram heroicamente os países e peregrinaram por terras de infiéis. Não: cada um realiza a vocação missionária onde mora e com as pessoas que convive. Há um “cara a cara” evangelizador que todos têm condição de praticar, pondo a serviço dos irmãos as próprias qualidades, dons e carismas.

Além do mundo popular, a evangelização se estende ao campo das culturas profissionais, científicas e acadêmicas. Aí se trava o encontro e o debate, às vezes difícil, entre fé e razão. Precisa-se descobrir novo discurso de credibilidade.

Avançando a reflexão sobre o anúncio do Evangelho, a Exortação Apostólica detém-se na importância de uma boa homilia, que merece amplas observações estimulantes e críticas. A homilia se faz “ponto de comparação” para medir “a proximidade e capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo” e visa a que a comunidade dos fieis entre em comunhão e diálogo com o Senhor, cujo mistério se celebra. O Papa indica “caminho de preparação da homilia” que implica estudo, oração, reflexão e criatividade pastoral. Texto que merece lenta e reflexiva leitura por parte dos pregadores.

A Exortação apostólica dedica todo um capítulo à dimensão social da evangelização. Tema crucial, especialmente no momento atual e em nossas regiões de tanta injustiça social. O anúncio do Evangelho traz repercussões necessárias sobre a vida comunitária e social. Exigências do Reino de Deus. Fazem parte do ensinamento social da Igreja, já rica e sistematicamente elaborado desde Leão XIII até Bento XVI. Três temas ocupam essa parte do documento: a inclusão social dos pobres, o bem comum e a paz, e o diálogo social como contribuição para a paz.

As reflexões do último capítulo provocam os evangelizadores para que se abram sem temor à ação do Espírito Santo. E também saiam de si mesmos, impulsionados pela consciência de terem sido salvos pelo Senhor que os move a amá-lo sempre mais. O último olhar se volta para a Virgem Maria, tão belamente chamada “mãe e estrela da Nova Evangelização”. Temos nessa Exortação rico material que pede de todos verdadeira “conversão pastoral” dentro de uma Igreja que quer aproximar-se de todos, especialmente dos pobres e afastados.

 

Pe. João Batista Libanio, SJ
Professor da Faculdade Jesuíta de
Teologia e Filosofia (FAJE)