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Entre os dias 17 e 21 de outubro, realizou-se em São Paulo a 30ª Semana Nacional de Liturgia. Membros da Pastoral Litúrgica de todo o país estudaram o tema “O rosto da misericórdia de Deus na Liturgia”. Com base nessa experiência riquíssima, queremos compartilhar algumas intuições sobre a relação liturgia e misericórdia, no marco do Ano da Misericórdia.

Na Liturgia temos a continuidade da História da Salvação, cujo cume se deu na pessoa de Jesus de Nazaré, a quem o Papa Francisco chama de “Rosto da Misericórdia”. Falar em história é dizer dos processos pelos quais a humanidade passa em contato com o mundo, integrado à criação inteira. Todos sabemos que o ser humano, homem e mulher, participa da ordem da criação, cuja bondade foi anunciada pelo próprio Deus. Na verdade, a tradição cristã católica reconhece no ser humano a obra prima de Deus, a ponto de nele reconhecermos a imagem e semelhança divinas. Nesse prosseguir da vida, em seu contato com o mundo e com as outras pessoas e criaturas, Deus assistiu-nos, nos acompanhando de perto, nos amando, dialogando conosco. Nesse caminhar com a humanidade,  pouco a pouco foi se mostrando, dando-se a conhecer e revelando sua face.

 

A história da gente é o entremeio entre o Paraíso e a Parusia

Nessa jornada, que vai das origens à finalização do mundo, Deus nos busca

Os cristãos cremos que essa procura pela humanidade, sua interlocutora, custou-lhe o Filho

Deus assumiu nosso ritmo de modo que pode insinuar-se por trás das mais variadas experiências. Desde a mais excruciante dor ao mais vultuoso prazer a humanidade pôde  e pode ainda encontrar a Deus. Esse encontro não é, no entanto, fruto de nossas buscas, mas deduz-se, da iniciativa divina. Deus nos quer encontrar, faz-se disponível. Antes, até, nos busca. A tradição rabínica interpreta que Deus criou o mundo como um lugar para o encontro com Ele. Essa mesma tradição reconhece que o ser humano foi concebido como uma criatura que estivesse em posição de dialogar com o seu criador. A Sagrada Escritura toda, do início ao fim, é a narrativa dessa busca de Deus pela humanidade para com ela dividir sua presença e sua palavra.

A história da gente é o entremeio entre o Paraíso e a Parusia. Nessa jornada, que vai das origens à finalização do mundo, Deus nos busca. Os cristãos cremos que essa procura pela humanidade, sua interlocutora, custou-lhe o Filho. A Escritura diz: “não poupou seu Filho único”. Essa é uma maneira de falar do estremado empenho de Deus em nos ter ao seu lado, porque foi para isso exatamente que fomos criados. A Salvação consiste em Deus não permitir que nos percamos entre uma estação e outra. Seu desejo é que, assim, cheguemos ilesos ao destino que para nós forjou: sua companhia. Desse modo, Jesus, seu Filho, Verbo encarnado, tornou-se Pontífice entre as Origens e a Parusia. Isto é, o responsável por construir as pontes necessárias para que atravessássemos incólumes o mar bravio da existência, fiéis à nossa fonte que é Deus mesmo, como nosso criador, e também ao nosso destino, que é a comunhão plena com Ele.

O Mistério de sua morte e ressurreição é o corolário de sua existência entregue ao mundo, revelando o rosto misericordioso de Deus. Esta visita divina realizada na carne humana, acontecimento pelo qual o Verbo da Vida pode ser visto e apalpado, conforme nos lembra São João em sua carta, equivale à própria misericórdia de Deus em ação. E este envolvimento na história de Jesus narrada em nossas liturgias, de modo consciente e ativo mediante os ritos, símbolos e preces faz com que os desígnios de Deus cheguem ao seu cumprimento em cada fiel. Desse modo, as celebrações da Igreja integram o próprio propósito de Deus para a humanidade, constituindo-se um momento misericordioso dessa mesma História.

Pe. Márcio Pimentel
Liturgista