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Brasil: passado incerto, presente amargo e futuro que não chega

Prever o futuro deveria ser atividade exclusiva de oráculos. Futuros têm a mania de, um dia, virar presente. Essa metamorfose constante é fato inegável, indiscutível, inevitável, da vida. E o presente, quase nunca, se parece com as previsões.

 

Cá na terra, cabe a nós, simples mortais, somente a combinação de sonho, planejamento e trabalho. Em tese, quando harmônicos e sincronizados, estes fatores aproximam expectativa de realidade. Em tese. Na prática, tudo depende do que se quer, ou se tem interesse em acreditar, e, sobretudo, da disposição de deixar o sonho degenerar em trabalho metódico, planejado, realizado.

Não dá para dizer que sejamos maus produtores de sonhos. A gente já sonhou muito, acreditou bastante, e se decepcionou ainda mais. Já acreditou que a terra do futebol seria potencia global no ano 2.000. Chegou o milênio, a gente caminha para o fim da segunda década e o futebol (pelo menos antes de encontrar a Alemanha na ultima Copa), ainda é o grande orgulho nacional.

 

Precisamos deixar de ser o lugar do passado incerto
Do presente amargo
Da prosperidade prometida, nunca entregue, e sempre futura

A gente já viveu hiperinflação. E acreditou que bastava uma canetada congelando os preços para que tudo se ajeitasse. Mas nem pegando boi a laço (literal ou figurativamente) foi possível evitar o pior. E, como pior, veio outra previsão de que tudo se resolveria com apenas uma bala figurativa. Alguns golpes de caneta bastariam para domar o monstro. Fracassamos.

Em raro momento de lucidez, descobriu-se que progresso dá trabalho. Com custo, suor, planejamento e esforço atacaram-se as causas e se construiu um país melhor. Inflação controlada. Pelo menos temporariamente. E, finalmente, os ventos ficaram a favor.

Nosso forte, entretanto, é sonhar. Planejar e trabalhar para as realizações, nem tanto. Nos momentos em que tudo conspirava a favor, veio a incapacidade de trabalhar para tempos menos favoráveis.
Foi assim que, com a autodesculpa de construir um mundo mais justo, lá se foi o bebê junto com a água suja. Permitimos passivamente a deterioração sem reagir ao perigo iminente. E, com a coragem zelosamente anestesiada pela falta de informação, nada fizemos.

Quando chamados a escolher, decidimos por paradoxos. Optamos pela mistificação sem ancora na realidade, no trabalho, na informação, no planejamento. Criamos um mundo bizarro. Onde se pede mudança, mas se escolhe mais do mesmo. Onde a contabilidade se perde em questões semânticas. Onde crimes em série não são fatos estarrecedores. A esta altura, a gente já deveria ter aprendido mais com as experiências recentes.

Faltaram, nos últimos anos, planejamento, competência, inteligência e trabalho. Sobraram ilusões, mistificações e falsidades. Resta agora mastigar o presente e, com sorte, construir o futuro. Da maneira tradicional, através de planejamento, seriedade e trabalho. E sempre conciliando consciência e realidade.

Precisamos deixar de ser o lugar do passado incerto. Do presente amargo. Da prosperidade prometida, nunca entregue, e sempre futura. A gente agradeceria se este futuro próspero chegasse. Rapidamente, de preferencia.

Elton Simões
Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV);
MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria)