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Bispos da Arquidiocese de BH concedem entrevistas durante Assembleia da CNBB: Dom Joaquim Mol fala sobre o momento atual do Brasil

O bispo auxiliar da Arquidiocese Belo Horizonte (MG) e reitor da PUC Minas, dom Joaquim Mol Guimarães, falou sobre o momento atual do Brasil, nessa segunda-feira,  em entrevista concedida no Centro de Eventos Padre Vítor Coelho de Almeida do Santuário Nacional de Aparecida-SP, durante a Assembleia Geral da Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB).

Desde o início do evento, também concederam entrevistas  dom João Justino e dom Geovane.

Dom João Justino de Medeiros Silva, bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, eleito arcebispo coadjutor de Montes Claros (MG), participou de coletiva de imprensa sobre os temas “Iniciação à vida cristã – Aparecida” e “10 anos depois e Projeto Pensando o Brasil: Educação” ( leia mais aqui).

Na entrevista para a TV Canção Nova e a TV Aparecida,  dom Geovane Luís da Silva falou sobre a 55ª Assembleia Geral, que reúne aproximadamente 300 bispos dos regionais da CNBB ( leia mais aqui).

A Igreja diz ao povo:”erga a cabeça!”

Dom Mol explicou que os bispos estão realizando uma reflexão sobre a realidade atual do Brasil e que as ideias serão organizadas em um texto para que cheguem a todos, desde as pequenas comunidades aos responsáveis pela condução do País, seja em funções públicas, seja na iniciativa privada. Observou que o momento é de perplexidade e que faltam perspectivas  à população, em decorrência da situação da corrupção e desprezo da ética por parte de agentes públicos e da iniciativa privada. “Essa perplexidade tem causado um mal muito grande à nossa sociedade, que leva a população brasileira a desacreditar, a se desencantar com os poderes no Brasil: Legislativo, Executivo e Judiciário. E isso é não só muito ruim, mas grave, porque se trata de instituições que têm que ter perenidade, elas garantem o desenvolvimento da sociedade, a organização da sociedade”.

Segundo o bispo, especialmente neste momento,  a Igreja age  diz ao ao povo:”erga a cabeça!”, pois o descrédito por parte da população em nada contribui para a solução dos problemas. “Precisamos compreender o que está acontecendo há vários anos para tomarmos parte de tudo isso: viver, praticar uma democracia verdadeiramente participativa”. Segundo ele,  é uma obrigação o engajamento nesse processo, acompanhando, questionando, zelando e rezando pelo próximo.

Dom Joaquim Mol ressaltou a necessidade de se encontrar as soluções dos graves problemas vivenciados pela  sociedade brasileira e chamou a atenção para a violência na cidade  e no campo, que tem resultado em mortes; a que se traduz no desrespeito aos direitos das comunidades tradicionais, a criminalização dos movimentos sociais,  e a violência gerada pela falta do trabalho. “É uma violência para a família”- disse, referindo-se ao desemprego.

“É violência também esse esforço que tantas pessoas fazem de incutir ideias, privações e legitimações nas nossas cabeças de forma escravizante. A isso a gente dá o nome de ideologias escravizantes, totalitárias, que vão nos fazendo mover dentro da sociedade, não na perspectiva de transformar a sociedade, mas de mantê-la assim, como satisfaz apenas a um pequeno grupo”, disse.

O bispo lembrou ainda a violência da falta de perspectiva para os jovens que, sem direcionar o olhar para o futuro, procuram seu caminho de maneira fantasiosa por meio de recursos que ele pensa ser favoráveis,  mas que criam um terreno fértil para a entrada das drogas e de outros males. E  sublinhou a preocupação dos bispos  com a degradação e exploração irracional do meio ambiente.

A primazia do capital

Dom Mol observou que o contexto econômico é de verdadeiro suplício,  inspirando-se na afirmação do Papa Francisco de que “uma economia que não coloca a pessoa humana à frente, como primazia, mata as pessoas, porque, no lugar das pessoas, coloca o mercado, o capital”. Lembrou  que a Doutrina da Igreja evidencia a primazia da pessoa humana sobre o mercado  de trabalho e sobre o capital- o contrário do que propõe a economia de mercado – e que satisfaz a condição humana de viver com dignidade sobre a face da terra.

“Quando a economia inverte esses valores, ela se torna um suplício para boa parte da população” – disse o bispo .  Mas,  para uma pequena parte da população – observou – “a economia é escandalosamente benéfica, por conta do acúmulo de riquezas”. Desse modo, lembrou a responsabilidade do Estado de regular o mercado.

Dom Joaquim Mol  chamou a atenção  para a importância  do poder judiciário que tem um papel relevante, mas ressaltou a necessidade de que sua atuação seja imparcial, autônoma e fundamentada na lei, isonômica, igual para todos. Por fim,  o bispo disse que a atuação da mídia é importantíssima para o País e para a democracia, cabendo a ela informar e colocar-se a serviço da verdade sendo livre, plural e independente.

Diante de todas as situações vividas pelo povo brasileiro, para o bispo,  o caminho do diálogo –  um diálogo à exaustão que  busque soluções até as últimas consequências-   é fundamental para que o País possa se compreender e criar condições para as várias formas desenvolvimentos  de que necessita. Dom Joaquim Mol  concluiu afirmando: “A reconstrução do País precisa salvaguardar a dignidade a liberdade, a paz e a justiça. Temos a esperança de que o povo brasileiro alcançará dignidade, paz, e justiça porque a nossa esperança está fundada em Jesus cristo, nosso senhor”.

Participaram da entrevista o bispo de Livramento de Nossa Senhora (BA), dom Armando Bucciol, que falou sobre “Ministério da Palavra”; o bispo de Barra do Piraí – Volta Redonda (RJ), dom Francesco Biasin, presidente da Comissão Episcopal para o Ecumenismo e o Diálogo Religioso, que desenvolveu o tema sobre os 500 anos da Reforma Protestante.