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[Artigo] Bíblia: a vida e a missão de algumas mulheres – Neuza Silveira, Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte

Na Bíblia, vimos através do texto sobre a vida José (na edição anterior do Opinião e Notícias), como o povo de Israel, de origem Abraâmica, foi parar no Egito e como foram escravizados.  Da vida do povo escravo podemos citar a importante missão da mãe de Moisés e de sua irmã Miriã, que muito contribuíram para a libertação do povo. A mãe, pela coragem de tomar a decisão de enviar seu filho para o Palácio do Faraó, escondendo-o da violência do mesmo em relação às crianças nascidas naquele tempo. Miriã, irmã de Moisés, foi considerada a primeira mulher na bíblia a ser chamada de profetiza. Quando pequena, na sua esperteza, acompanhou o cesto onde foi colocado o seu irmão até o momento do mesmo ser encontrado pela princesa que, acolhendo-o, ajudou-o na vida e fez dele um grande homem. Também foi Miriã que, indo até o palácio, disse à princesa que conhecia alguém que poderia amamentar o bebê, e é claro, era sua própria mãe.

Mais tarde, expulso do palácio e retornando às terras de sua parentela, Moisés passa a ter uma vida tranquila, casa-se com Séfora, torna-se pastor de ovelhas, até que um dia, no seu encontro com Deus, na sarça ardente, ele retorna ao Egito em busca de seu povo. Podemos aqui sugerir uma boa leitura do livro do Êxodo que conta toda a história da libertação do povo até chegar às terras de Canaã.

O povo nas terras de Israel

Já constituídos uma nação, nas terras de Israel, podemos apontar algumas mulheres incríveis: a Juíza Débora (Jz 4,4-16), única mulher das Escrituras Sagradas a ocupar um cargo público. Era uma dona de casa comum, mas escolhida para ser Juíza, fazia tudo para o bem da nação. Uma boa líder, não se intimidou por ser mulher e ganhou o respeito dos líderes de Israel. A sua forma de combater os inimigos era sempre buscando inspiração junto ao Senhor e por isso tinha bons êxitos.

Outra mulher corajosa, segundo as escrituras, foi a Ester. Ela foi a rainha mais importante que Israel já teve. Judia e órfã, ela foi criada por um parente. Quando se casou com um rei, ela fez de tudo pelo povo judeu. Há um livro da Bíblia só dela.

Falando de Rute, sua história é também muito bonita, trazendo uma experiência de boa convivência com a sogra. Casada com o hebreu Malom, se dava muito bem com a sogra, Noemi. Quando ficou viúva, apegou-se muito à sogra, a ponto de acompanhá-la até Belém. Lá, casou-se com Boaz e reconstruiu a própria vida. Jesus é um dos descendentes de Rute.

Para além dos bons exemplos de mulheres, a bíblia relata também histórias de mulheres que não foram bom exemplo. Uma delas é a Jezabel. Quem era ela? Esposa de Acabe, que foi rei de Israel. Ela não era israelita e não adorava a Javé. Seu deus era “Baal”, um deus cananeu. Ela foi uma rainha autoritária, cruel e violenta. Ela promovia a adoração de Baal e, ao mesmo tempo, ela tentava acabar com a adoração do Deus verdadeiro, Javé. (1Rs 18,4-13; 19, 1-3).

Para conseguir o que queria, Jezabel mentia e até matava as pessoas (1Rs 21,8-16). Foi um grande mau exemplo. Era uma mulher sem princípios.

Acabe, seu esposo, por tê-la introduzido no convívio com o povo de Israel, acabou introduzindo o culto a Baal, em Israel. O casamento deles cumpriu uma agenda política e interesseira, mas não a vontade de Deus. Biblicamente, aquela união foi uma traição a Deus. Sob a influência deles, aconteceu um sincretismo religioso e a apostasia da nação. Ao mesmo tempo que o povo professava servir a Javé, também servia a Baal (1 Rs 18, 21).

Foi Elias, o grande e verdadeiro profeta de Deus que, na época, com sua presença e atuação conteve a maré da apostasia em Israel. A Bíblia nos apresenta grandes profetas que podem nos inspirar hoje.

Aproximando-se do tempo de Jesus, não podemos deixar de falar de Maria, uma jovem Judia que se tornou mãe de Jesus, o filho de Deus. Conhecemos sua bela história. Humildemente sempre fez a vontade de Deus. Quando noiva de José, um anjo apareceu e disse a ela que ficaria grávida e daria a Luz o Filho de Deus, o Messias esperado por todos. Depois do nascimento de Jesus e depois dos vários conflitos pelos quais passaram, se estabilizaram na cidade de Nazaré, lugar onde Jesus cresceu e foi educado pelos dois. Acompanhou Jesus na sua caminhada missionário e com ele, também sofreu todas as agruras pelos quais Jesus passou e foi com ele até a cruz.

Depois da morte de Jesus, Maria caminhou com os apóstolos e com as comunidades cristãs nascentes, permanecendo sempre fiel a Deus.

O lugar da mulher na vida das comunidades fundadas por Paulo.

Na cultura daquele tempo as mulheres não podiam participar da vida pública. Sua função era no recinto interior da casa, na vida da família. Lá ela coordenava. Assim, na Igreja, ela só poderia ter lugar se a Igreja funcionasse no interior das casas.

As comunidades fundadas por Paulo se reuniam nas casas do povo e eram chamadas de Igrejas Domésticas. Em quase todas as Igrejas mencionadas nas cartas de Paulo, aparece o nome de uma mulher, em cuja casa a comunidade se reúnem: Na casa do casal Priscila e Áquila, tanto em Roma (Rm 16,5), como em Corinto (1 Cor 16,19); Na casa de Filêmon e Ápia (Fm 2); Na casa de Lídia em Filipos (At 16,15);  Na casa de Ninfa em Laodicéia, que chegou a receber uma carta de Paulo (Cl 4,15); Na casa de Filólogo e Julia, Nereu e sua irmã e de Olimpas (Rm 16,15).

A presença das mulheres foi fundamental na caminhada de Paulo e na fundação das várias comunidades daquele tempo. Hoje, lendo as Escrituras, parece que há controvérsias, segundo algumas palavras de Paulo.

Alguns textos como 1Cor 11, 2-16, quando cita ser a mulher criada para o homem, que é a cabeça da mulher. Não podemos tirar do seu contexto pois Paulo falava no sentido de colocar ordem na Assembleia, de acordo com a tradição judaica.

Em 1Cor 14, 34-35 diz Paulo:” estejam caladas as mulheres nas assembleias, pois não lhe é permitido tomar a palavra. Deve ficar submissa. Se ela quiser saber alguma coisa, deve perguntá-la ao marido em casa”. Essas palavras que nos parecem insolentes, nos tempos atuais, naquele momento Paulo chamava a atenção para que elas fizessem silêncio na Assembleia. Caso não estivessem entendendo, elas poderiam conversar com seus maridos, em casa, pois, naquele momento, se encontravam num culto celebrativo. Outra questão interessante que podemos aprender com Paulo é que ele, ao dizer para que as mulheres suportassem seus maridos, ele estava pedindo para que elas fossem suportes, ou seja, dessem suporte a eles, caminhassem lado a lado, ajudando-os.

Assim, compreendendo um pouco a Palavra nas escrituras, podemos ver com outro olhar e perceber como a presença e a participação da mulher foram e continua sendo fundamentais na vida das comunidades, da Igreja e da sociedade.

Paulo soube ser duro e flexível na defesa dos valores da vida e do Evangelho, mas a dureza da luta não apagou nele a capacidade de ser um amigo carinhoso e acolhedor, delicado e atencioso. Não perdeu a ternura!

Que também nós, em nosso caminhar junto à nossa comunidade, não percamos a ternura. Saibamos valorizar nossos talentos e se fazer presente e ativas na vida da comunidade.

 

Neuza Silveira de Souza

Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte