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A natureza se manifesta em ciclos e isso nos ensina muito. As estações do ano, as fases da lua, os dias e as noites, o envelhecimento… Mas será que estamos prontos para envelhecer? Assim como as folhas caem das árvores a cada vez que a primavera está próxima, nosso corpo também sofre os desgastes dos anos e podemos dizer que isso é bom! É bom porque envelhecer é sinal de vida! Se não envelhecemos é porque já morremos e na vida eterna a idade cronológica e os limites do corpo não existem mais. Além disso, podemos perceber que as folhas que caem dão lugar para as novas que chegam e no caso do nosso envelhecimento as folhas que chegam são sempre diferentes das que caem. Perdemos força física, mas ganhamos resistência psíquica; perdemos viço, mas ganhamos disposições interiores e assim as folhas vão caindo e vão brotando…

A sociedade atual prega uma juventude eterna, uma necessidade de estarmos sempre jovens e belas. Mas o que é beleza? A beleza está nas folhas que caem e nas folhas que nascem, está na discrição da lua minguante que aparece como um sorriso brilhante no céu assim como na exuberância da lua cheia nascendo alaranjada no horizonte. Da mesma forma, existe beleza em cada fase da vida. Contemplamos a fascinação do bebê que nasce, a formosura da criança que aprende tudo, a alegria do adolescente cheio de energia, a beleza marcante da juventude, a graça da maturidade da vida adulta e o encanto da experiência dos idosos. Há beleza em cada etapa de nossa existência! Precisamos mudar nossa mentalidade marcada pelos valores capitalistas onde o envelhecer é visto como algo ruim.
 

As cortinas abrem e fecham, os anos passam, mas o que importa é que as luzes não se apagam Nossas marcas contam parte de nossa história que as palavras não são capazes de transmitir

Tenho 40 anos e já sinto o peso dessa idade: minha audição não é mais a mesma, minha visão já manifestou a necessidade da ajuda de óculos, minhas pernas não aguentam o mesmo pique de outrora… Mas ao mesmo tempo, levo comigo, junto com as cicatrizes visíveis e invisíveis, com rugas aparentes e outros sinais da idade, uma sabedoria que não é possível carregar sem as marcas do tempo, uma capacidade de esperar e de perder que só o amigo tempo trás consigo, uma envergadura para a misericórdia e o perdão que só o passar dos anos traz em si. Sei que essas folhas novas só encontraram lugar em mim porque outras caíram.

Tenho orgulho das marcas do tempo, sejam no corpo ou na alma. Tenho alegria com a minha história, ela é minha! E nessa história, Deus me concedeu o papel principal. Sei que muitas vezes já esqueci o texto, já caí em cena, mas sigo determinada em ocupar meu papel. Sigo determinada em mostrar ao mundo o Diretor perfeito que me dirige, sigo firmemente decidida a amar esse Diretor com todo meu coração, alma e forças através do espetáculo da minha vida. Deus é o diretor desse show que é a vida. A vida é maravilhosa e envelhecer faz parte desse show.

As cortinas abrem e fecham, os anos passam, mas o que importa é que as luzes não se apagam. Nossas marcas contam parte de nossa história que as palavras não são capazes de transmitir, nossa experiência de vida não pode ser substituída por procedimentos estéticos. Não estou dizendo que não devemos nos cuidar ou descuidar da estética. Não mesmo! Quem me conhece sabe que valorizo isso. Cuidar do templo que é o nosso corpo agrada a Deus. Mas estou denunciando a política da eterna juventude buscada a qualquer custo, ofuscando a beleza de cada fase da vida.

Deus seja enaltecido pelo processo natural da vida! Deus seja louvado pelos ciclos da natureza que nos ensinam. Deus seja glorificado pela oportunidade de envelhecer e aprender cada dia mais com a pedagogia da vida!

 

Anajúlia Gabino
Consagrada da Comunidade Árvore da  Vida