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[Artigo] Sonhar a realidade com o Papa Francisco (I) – Dom Geovane Luís, bispo auxiliar da Arquidiocese de BH

Ao abrir o seu coração de Pastor, o Papa Francisco nos revela seus sonhos para a Igreja na Amazônia.

Os quatro sonhos do Papa – Social, Cultural, Ecológico e Eclesial – estão enraizados na realidade da vida, e por isso dizem respeito à Igreja presente no mundo inteiro.

Com o desejo de motivar a leitura da Exortação Pós-Sinodal ‘Querida Amazônia’ na sua íntegra, segue a primeira parte do resumo da Carta Magna sobre a evangelização na Amazônia, escrita pelo Papa e dirigida a todos os homens e mulheres que desejam cuidar da nossa Casa Comum.

A Igreja realizou o Sínodo para a Amazônia no período de 6 a 27 de outubro de 2019. Esse evento foi um percurso de diálogo e discernimento para a Comunidade Eclesial.

Além do Documento “Amazônia: Novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral” – que recolhe a contribuição dos participantes do Sínodo -, o Papa Francisco partilhou na Exortação Pós-Sinodal os sentimentos que brotaram do seu coração. Nela o Pontífice expressa sua solicitude para com os povos amazônicos – especialmente os últimos e mais pobres – e seu desejo de promover uma ecologia integral. Deste modo, o Papa Francisco revelou os seus sonhos relativos ao grande bioma que abraça nove nações: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa.

Esses sonhos são pedras miliares que poderão nortear a vida da Igreja presente no mundo inteiro.

O primeiro deles tem tonalidade social. Diz o Papa: “Sonho com uma Amazônia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida”.

O Papa Francisco convoca a Igreja para que erga sua voz profética e se empenhe em prol dos mais pobres.

Há, na sua compreensão, um duplo clamor que precisa ser ouvido: o clamor da terra e dos pobres. Por isso, não é justo preocupar-se com o bioma e ignorar os povos amazônicos que vivem naquela realidade desafiante.

O desmatamento e a indústria minerária têm provocado um constante movimento migratório dos indígenas; as operações econômicas injustas e criminosas danificam a Amazônia e não respeitam o direito dos povos nativos ao território e sua demarcação; a corrupção degrada as instituições e coloca em descrédito a política e as organizações sociais.

Além disso, existe a falsa ideologia de que a amazônia é um ‘enorme vazio a ser preenchido, uma riqueza em estado bruto que se deve aprimorar, uma vastidão selvagem que precisa ser domada’.

Neste cenário complexo existem sinais de vida e esperança. Vale ressaltar o senso comunitário dos povos nativos – entre eles não há espaço para o individualismo – e a ação corajosa dos missionários ao lado dos pobres.

O que fazer diante desta realidade tão complexa? Quais atitudes devemos assumir? O Papa nos indica o caminho:

– Indignar-se e pedir perdão aos povos amazônicos.

– Não habituar-se ao mal, nem permitir que nossa consciência social seja anestesiada.

– Construir redes de solidariedade e desenvolvimento em vista da globalização, sem marginalização.

– Promover o diálogo social entre os diferentes povos nativos na busca da comunhão e da luta conjunta pela vida. Neste diálogo os últimos devem ser os principais interlocutores.

– Escutar e reconhecer o ‘outro’ e apreciá-lo como ‘outro’, pois na Amazônia existem culturas portadoras duma mensagem ainda não escutada.

Deste sonho nasce outro não menos necessário e importante: o sonho cultural. Dele falaremos noutra ocasião. Fique atento.

Dom Geovane Luís da Silva
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte