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[ Artigo] Sermão do Encontro – dom Geovane Luís da Silva, bispo auxiliar da Arquidiocese de BH

Os cinquenta dias que vão do domingo da Ressurreição, celebrado este ano, no dia 1º de abril, ao domingo de Pentecostes, dia 20 de maio, a Igreja vivencia na alegria e no júbilo, como um único dia de festa, mais ainda: como “um grande domingo”, segundo Santo Atanásio.

Esse espaço de alegria é, na realidade, uma grande oitava de domingos, envolvendo sete semanas, e terminando, de novo, com o domingo, a exemplo de cada semana que começa com o Dia do Senhor e vai, de novo, encontrá-lo no oitavo dia.

O Tempo Pascal nasce da Vigília quando se faz a passagem do luto à alegria, do jejum ao banquete, da tristeza à festa, da morte à vida. Tempo de alegria, de ação de graças, de aprofundamento do sentido do mistério cristão e da vida em Cristo. Com esse espírito, convidamos você a refletir, à Luz do Sermão do Encontro, proferido por dom Geovane Luís na cidade de Ouro Preto, sobre a paixão, morte e ressurreição de Cristo, e o que esse tempo de graça representa no dia a dia do cristão.

Leia, na íntegra o Sermão do Encontro

“Em nome de Cristo, nós vos suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus. É agora o momento favorável” (2 Cor 5,20)

Introdução
Caríssimos irmãos e irmãs, o entardecer deste domingo se apresenta a nós como aquele tempo favorável da graça do Senhor para fazermos uma experiência libertadora de reconciliação com nós mesmos, com o próximo e com Deus.

O Domingo de Ramos da Paixão do Senhor ou A Semana Maior, na qual celebramos a Bendita Paixão do Senhor, é a celebração jubilosa da reconciliação de Deus com a humanidade inteira. “Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com Ele pela morte do seu Filho” (Rm 5,10). Ele, qual Pai misericordioso, vem ao nosso encontro nas diversas situações da nossa vida, toma a iniciativa e se apressa para nos abraçar e colocar-nos sob a dinâmica do seu amor compassivo, que agora resplandece de modo fulgurante no rosto desfigurado do seu Filho, Jesus Cristo, o Servo Sofredor.

Fomos criados pelo Pai e colocados neste mundo para vivermos em paz, reconciliados e felizes. Nascemos destinados à reconciliação e não existe outra estrada para quem deseja viver em paz, longe da violência que desfigura todo ser humano, fere profundamente a sua dignidade e ceifa de modo precoce a vida de tantos irmãos e irmãs.

Ao arrastar o lenho da cruz pelas vias estreitas da Cidade Santa de Jerusalém, Jesus Cristo abriu para todos os homens e mulheres a estrada da reconciliação e da paz banhando o universo inteiro com o seu precioso sangue. “Agora, em Jesus Cristo, vós que outrora estáveis longe, vos tornastes próximos pelo sangue de Cristo. Ele, de fato, é a nossa paz: do que era dividido, ele fez uma unidade. Em sua carne ele destruiu o muro de separação que existia entre os povos: a inimizade” (Ef 2, 13-14).

O sangue de Cristo fecundou a terra e banhou as estradas do mundo inteiro fazendo brotar no coração de cada ser humano rebentos vicejantes de amor, de perdão e de paz; e ainda que os cortem, voltam a despontar, porque a ressurreição do Senhor já penetrou a trama oculta desta história; porque Jesus não morreu e nem ressuscitou em vão1 . Nos diz São Gregório Magno que “a terra, de fato, não ocultou o sangue de nosso Redentor, pois qualquer pecador, ao beber o preço de sua redenção, o proclama e louva, e, como pode, o manifesta aos outros. A terra não cobriu também o seu sangue porque a Santa Igreja já anunciou em todas as partes do mundo o mistério de sua redenção”2. Seu sangue, como um rio, continua fecundando a mãe terra quando os atos de violência cometidos pelo ser humano tentam intimidar e silenciar as vozes que clamam por justiça e paz! É assim também que a paixão de Cristo se atualiza na história e na vida dos homens e mulheres deste mundo.

Se queremos promover a cultura da paz e da não violência sigamos os passos de Jesus. Ele, cumprindo a vontade do Pai, criou em si um só homem novo, estabelecendo a paz. Quis reconciliar-nos com Deus por meio da sua cruz; assim Jesus Cristo destruiu em si mesmo a inimizade. No seu corpo, esmagado pelo peso da cruz e dos nossos pecados, ele se opôs claramente a todo ato de violência. Ele veio anunciar a paz a vós que estáveis longe, e a paz aos que estavam próximos. É graças a ele que uns e outros, em um só Espírito, temos acesso junto ao Pai (cf. Ef 2,15-18). Somente Jesus Cristo, nosso Mestre e Senhor, pode conduzir-nos pela mão na estrada exigente da reconciliação com nós mesmos, com próximo e com Deus.

Reconciliar-se consigo mesmo

O encontro ou reconciliação consigo mesmo é a condição para redescobrir o sentido autêntico da nossa vida e missão. Não se trata, pois, de um dobrar-se egoísta sobre si mesmo, mas de um êxodo interior à procura da nossa verdadeira identidade: “Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos” (1 Jo 3,1). Este é o maior tesouro que possuímos: a nossa condição de filhos e filhas de Deus. Quando esquecemos a graça da filiação nos distanciamos do amor do Pai, e nos relacionamos com Ele como se fosse um patrão cruel e intransigente, tornamo-nos escravos de nós mesmos, violentos no relacionamento com o próximo, e assim assumimos a rebeldia do filho pródigo que renega sua condição filial. Quando o ser humano não assume ou esquece sua condição de filho e filha de Deus a violência brota do seu interior como a lava do vulcão, pois é de dentro do coração das pessoas que saem as más intenções: imoralidade sexual, roubos, homicídios, adultérios, ambições desmedidas, perversidades; fraude, devassidão, inveja, calúnia, orgulho e insensatez. A superação da violência passa necessariamente pela conversão do nosso coração.

O esquecimento ou amnésia do nosso status de filhos e filhas de Deus não tem a força de arrancar do mais íntimo de nós aquela marca de pertença ao Pai, pois mesmo quando o renegamos, Deus permanece fiel à sua paternidade que assume feição materna, pela qual somos gerados e amados incondicionalmente, desde sempre e para sempre acolhidos. Podemos livremente renunciar à nossa condição de ‘filhos’, mas não o seu ser Pai, ao qual Deus não poderá renunciar jamais3 , pois é fiel à sua paternidade e mostra-se rico em misericórdia para com o ser humano (Ef 2,4).

Deus é um Pai diferente, pois Ele nos criou, nos colocou no mundo e permaneceu no mais íntimo de nós mesmos. O pai e a mãe unidos pelo amor constituem a família, geram os filhos colocando-os para fora, inserindo-os no mundo e na sociedade; mas Deus que é Pai e nos ama com ternura de Mãe, age de forma totalmente nova, pois ao criar o ser humano, à sua imagem e semelhança, o transforma numa pequena casa onde Ele mesmo habita e permanece. Santo Agostinho expressou esta verdade ao dizer em suas Confissões: “Tarde vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim, e eu, lá fora, a procurar-vos!”4 . Também o Servo de Deus Dom Luciano não se cansava de repetir: “Deus nos gera e fica dentro de nós”! Então como nos ensina São Leão Magno podemos afirmar: “Se somos templos de Deus e se o Espírito de Deus habita em nós, o que qualquer fiel possui no coração é muito maior do que tudo quanto se admira no céu5”.

O encontro consigo mesmo no quarto do nosso coração desvela a verdade sobre nós mesmos: somos filhos e filhas muito amados de Deus. E ser filho de Deus não é questão de dignidade ou mérito, não somos merecedores deste imenso dom. Ser filho, pois, é um dado de fato. Provém da paternidade divina, pela qual somos aquilo que somos6. Somos seus filhos e filhas. Somos da linhagem de Deus (cf. At 17,28-29). Este é o fundamento para a nossa relação pacífica e respeitosa com todas as pessoas. Cada ser humano – homem e mulher – assemelha-se a uma tenda habitada por Deus! De fato, somos uma pequenina tenda, luminosa, cheia de beleza, lugar do encontro com o Deus Vivo. A certeza da presença de Deus no mais íntimo de nós abre os nossos horizontes ao amor universal e sem fronteiras.
Reconciliar-se com o próximo

“Deus, que tem um cuidado paternal para com todos, quis que todos os homens e mulheres formassem uma só família e se tratassem mutuamente com espírito fraterno”7. Por isso a paz que tanto desejamos para nós deve irradiar-se também em nossas relações com o próximo. A certeza de que somos filhos e filhas de Deus fortalece os laços de comunhão entre nós e nos faz ver a criação, o mundo e as pessoas de um modo novo.

Toda a criação se transforma num lugar privilegiado para o encontro com Deus, pois ele se deixa encontrar em suas criaturas e nunca nos abandona. Nós é que nos distanciamos e recusamos o Seu amor. Se porventura nos sentirmos sozinhos, abandonados por Ele e perguntarmos ó Deus onde estás; Ele certamente nos responderá com uma outra pergunta: onde está o teu irmão? Aquela mesma pergunta outrora dirigida a Caim sobre o paradeiro de seu irmão Abel.

O próximo é um espelho vivo que reflete nitidamente a minha imagem de filho de Deus e também a dignidade ferida do meu irmão. Disto nos dá testemunho o Papa Francisco ao dizer: “Cada vez que entro numa prisão para uma celebração ou para uma visita, sempre me vem este pensamento: porque que eles e não eu? Devia estar aqui, merecia estar aqui. A sua queda poderia ser a minha, não me sinto melhor do que aqueles que tenho diante de mim” 8. Portanto ao ver um irmão que sofre devo colocar-me no seu lugar que também me pertence, faz parte da minha condição humana. Não somos melhores do que os outros. Por mais degradante que seja a situação na qual se encontre um irmão nosso, jamais poderemos nos julgar superiores ou melhores: na realidade somos todos iguais, saímos todos do mesmo ventre misericordioso de Deus. Somos seus filhos, somos todos irmãos!

A onda gigante da violência e da intolerância que agita o mar da nossa vida encontra sua raiz no coração do ser humano que se fecha ao mandamento do amor (cf. Jo 15,12) e se distancia do caminho do perdão que Jesus nos indicou ao longo de sua missão e na hora extrema de sua morte. Jesus passou por este mundo fazendo o bem e morreu “ofertando o perdão, reconciliando, abrindo, com suas chagas, o caminho da vitória sobre toda forma de violência”9.

Reconciliar-se com a realidade, o mundo e a natureza

O amor e o respeito pelo semelhante nos conduzem à compreensão de que fazemos parte de um grande projeto de Deus. A criação, nossa Casa Comum, foi colocada nas mãos do ser humano, não para ser explorada e destruída, pois somos cuidadores e não proprietários da obra que saiu das mãos do Criador.

Quando esquecemos nossa condição de filhos e filhas de Deus perdemos também a consciência de que somos um vaso de argila modelado com amor pelas suas mãos. “Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra10” e de que “o nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos”11 . Este esquecimento ativa a violência no coração humano ferido pelo pecado”, levando as pessoas a uma atitude de dominação sobre a criação de Deus. Os sintomas de doença que notamos no solo, na água, no ar e nos seres vivos são sinais evidentes da violência latente no coração do ser humano”12.

“A destruição do ambiente humano é um fato muito grave, porque, por um lado, Deus confiou o mundo ao ser humano e, por outro, a própria vida humana é um dom que deve ser protegido de várias formas de degradação”13. A exploração depredadora da natureza vem gerando grandes problemas para a nossa sociedade, especialmente nesta região rica em minério de ferro. “Acorda, ó homem: toma consciência da dignidade de tua natureza. Recorda-te de teres sido feito à imagem de Deus que, embora corrompida em Adão, foi recriada em Cristo. Portanto, usa de modo justo das criaturas visíveis, como gozas da terra, do mar, do céu, do ar, das fontes, [das flores], dos rios e de tudo quanto neles achas de belo e de admirável. Por tudo dá louvor e glória ao Criador!”14.

O momento presente, marcado por uma deterioração global do ambiente, clama por uma reconciliação do ser humano com a sua Casa Comum, irmã com quem partilhamos a existência, e, ao mesmo tempo mãe que nos acolhe e abraça. “Louvado sejas, meu Senhor, cantava São Francisco de Assis, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”15.

Reconciliar-se com Deus

O encontro verdadeiro consigo mesmo nos revela que somos filhos e filhas de Deus e o encontro com o próximo nos faz ver que somos irmãos e irmãs uns dos outros, somos gerados no coração do Pai. Eis aí a estrada inicial para o retorno à nossa origem. É agora o momento favorável: deixai-vos reconciliar com Deus (cf. 2 Cor 5, 20-6.2), pois “Quem tem a Deus por Pai nunca padece de solidão ”16, mas se descobre irmão do outro e se sente acariciado pela ternura materna de Deus.

O olhar de Deus Pai está sempre voltado para nós. O seu amor não nos perderá de vista jamais, pois “Misericórdia e piedade é o Senhor, ele é amor, é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura” (Sl 144,8-9).

Ele é um Pai que nos ama, não em proporção aos nossos méritos, mas em proporção às nossas fraquezas. Nossa reconciliação com Ele só será possível se assumirmos a nossa condição de pecadores. O verdadeiro mal do pecador não é o seu pecado, mas o seu olhar voltado para si mesmo. Quem olha a si mesmo verá somente a sua própria falência, mas quem olha para Deus descobre sua condição intacta de filho. Quem olha para si mesmo permanecerá sempre caído no chão da vida, lambendo as próprias feridas, mas quem olha para Deus Pai descobrirá que não existem situações das quais não possamos nos reerguer, pois enquanto estivermos vivos será sempre possível recomeçar, se permitirmos que o Pai nos abrace e nos acaricie com as suas duas mãos: o seu Filho, Jesus Cristo e o Espírito Santo. Nós somos fonte de miséria, mas Deus não, Ele é um mar de misericórdia.

O encontro com Jesus Cristo

Jesus Cristo é por excelência uma pessoa não violenta17. Ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa dos nossos crimes; a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura” (Is 52,5). “Ele carregou sobre si nossas culpas em seu corpo, no lenho da cruz. Por suas chagas nós fomos curados” (1Pd 2,21.24).

No seu rosto desfigurado resplandece aquele amor que ao ser “acolhido verdadeiramente, não só preenche o nosso coração, mas deixa cravados em nós as suas marcas, aquelas chagas que nunca mais se fecharão! O amor de Deus deve ser cravado em nosso coração18” para sermos servidores e anunciadores do seu Reino de Paz.

A caminho do Calvário, com a cruz às costas, o Filho de Deus cumpriu fielmente a sua missão. Sua vida inteira foi uma busca incansável da verdade sobre si mesmo e da comunhão com os irmãos e com Deus. A tal ponto que podia afirmar de si mesmo: “todas as vezes que fizestes o bem a um desses meus irmãos pequeninos a mim o fizestes (cf. Mt 25,40), e ainda, “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). Ao contemplá-lo vem à nossa mente o convite que outrora Ele fizera aos seus discípulos: “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24; Mc 8,34). Eis aqui um verdadeiro caminho de reconciliação com nós mesmos, com o próximo e com Deus. Um itinerário pascal.

Seguir, renunciar a si mesmo, tomar a cruz: um convite exigente que o Senhor propõe a cada um de nós para que caminhemos na sua estrada, sigamos seus passos e tornemo-nos seus discípulos. “Ele padeceu por nós, deixou-nos o exemplo a seguir. Sigamos, portanto, seus passos” (1Pd 2,21). A renúncia à qual Ele nos convida se refere àquela parte doente de nós mesmos, que insiste em cultivar a semente do ódio, do rancor e do egoísmo em nosso coração, tornando-nos violentos, intolerantes e incapazes de amar nossos irmãos e irmãs.

Hoje, através da devoção popular, que comemora o encontro de Jesus com sua Mãe momentos antes de sua morte na cruz, contemplamos uma das cenas mais comoventes da história da salvação. Mal refeito de uma dura queda, com o rosto coberto de suor e sangue, Jesus avista, no meio da multidão, a sua Mãe. Os olhares se cruzam. Jesus nada consegue fazer e Maria nem sequer teve tempo de pronunciar uma palavra para encorajar o seu Filho… Os corações se tocam e dá-se naquele momento um verdadeiro encontro. Muitas recordações nascem naquela hora de agonia e dor. Somente sua Mãe, silenciosa, impotente, com lágrimas nos olhos recordava tudo aquilo que havia guardado em seu coração. Ela o conhecia e enquanto mãe sofria a dor da sua condição materna e a dor do seu Filho amado.

Aceitando ser Mãe de Jesus, Maria se torna Mãe de toda a humanidade, Mãe dos amigos e inimigos do seu Filho, pois “Ela tem um coração tão grande quanto o mundo e intercede ante o Senhor da história por todos os povos. Enquanto peregrinamos, Ela cuida que o Evangelho nos penetre intimamente, plasme nossa vida de cada dia e produza em nós frutos de santidade”19.

Pelas ruas de Jerusalém dá-se o reencontro de duas pessoas (mãe e filho) que jamais se separaram, mesmo quando estavam distantes fisicamente. Um reencontro que Deus reservara para o seu Filho, um reencontro que serviria de alento e esperança para Jesus naquela ‘hora’ que ele mesmo chamou de ‘a hora do poder das trevas’. Foi precisamente para esta hora que Jesus Cristo veio ao mundo (Jo 12,27), pois “na consumação de sua vida tornou-se causa de salvação eterna para todos” (Hb 5,9).

A presença de Maria, nos remete ao seu Filho Jesus, e, mais ainda, ao mistério de sua paixão no qual ela participou ativamente. Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado ao ver o seu Filho carregando a pesada cruz na estrada para o calvário, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pela violência humana20.

“Virgem Maria, Mãe de quem não tem mãe, no teu regaço poisa a cabeça a dor universal e dorme, ébria do fim do seu cansaço… E tens na mão, usado e nunca imundo, o pequenino lenço maternal com que enxugas as lágrimas do mundo”]

Aproximai-vos, ó Senhora! Dizer vosso nome, é dizer que a pobreza compra os olhares de Deus21!
Ensinai-nos, hoje, a contemplar o mundo e as pessoas com um olhar sapiente. Levai-nos ao encontro do vosso Filho e fazei-nos tocar suas chagas gloriosas. Ajudai-nos a superar a tentação de sermos cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor.

Aproximai-vos, Jesus, Filho de Davi…Deixai-vos tocar pelas mãos que vos embalaram na gruta fria de Belém quando fostes reclinado na manjedoura e envolvido em faixas. Vossa Mãe é aquela que sabe transformar um curral de animais numa casa de ternura. “Ó Deus dos pobres, ajudai-nos a resgatar os abandonados e esquecidos desta terra que valem tanto aos vossos olhos.22”

Aproximai-vos, ó Mãe! Dizer vosso nome é dizer que nossa carne veste o silêncio do Verbo23!
Vosso Filho quer ser tocado por vós e deseja ardentemente que toquemos a miséria humana, a carne sofredora dos outros para conhecermos a revolução do amor24. Não nos iludamos de poder amar sem sofrer, sem fazermos a doação de nossa vida, sem sacrificarmos nossa própria vontade. Hoje parece que as pessoas têm medo de amar e desejam apenas encontros passageiros e prazerosos, onde não há espaço para a verdadeira doação e compromisso mútuos. Maria não temeu as consequências do amor em sua vida e por isso permaneceu fiel até o fim.

Aproximai-vos, ó Jesus, manso cordeiro que tira o pecado do mundo
Vossa Mãe arrasta consigo uma multidão de homens e mulheres que ainda hoje sofrem a violência, consequência do pecado, que se aninha em nosso coração. “Vossa paixão e morte mostram que o pecado possui consequências violentas, inclusive de morte e eliminação do outro”25.

Aproximai-vos, ó Maria! Dizer vosso nome, é dizer que toda morte pode ser também a Páscoa26!

Impulsionada pelo amor, Maria acompanhou os passos do seu Filho, nunca o perdeu de vista e não o abandonou na hora extrema de sua paixão. Ajudai-nos ó Mãe para que façamos um encontro verdadeiro com o vosso Filho.

Conclusão

Neste mundo nossa vida será uma eterna procura, mas será sempre Ele a nos encontrar: na saúde e na enfermidade, na alegria e na tristeza, nas horas de angústia e desespero. “Agora e em todos os tempos, Ele vem ao nosso encontro, presente em cada pessoa humana, para que o acolhamos na fé e o testemunhemos na caridade, enquanto esperamos a feliz realização de seu Reino27”. E ao nos encontrar Ele não nos pedirá nada em troca, apenas nos dirá: “dou-vos a minha vida, dou-vos o meu amor, eu inteiro. Deus é assim. É esse o nosso Evangelho. É essa a nossa Páscoa”.

“Senhor Jesus, vós que quisestes vir ao nosso encontro e não vos retraístes diante de nenhuma consequência do fato de estar conosco, aceitando até o fim a humilhação extrema28. Ensinai-me a vos procurar e mostrai-vos quando vos procuro; pois não posso procurar-vos se não me ensinais, nem encontrar-vos se não vos mostrais. Que desejando eu vos procure, procurando vos deseje, amando vos encontre e encontrando vos ame29. Amém.

1Cf. Papa Francisco, EG 278.
2GREGÓRIO MAGNO, “Dos comentários sobre o livro de Jó”, in Liturgia das Horas, II, 229.
3Cf. FAUSTI, S., Una Comunità legge il Vangelo di Luca, EDB, Bologna, 2015,557.
4AGOSTINHO, Confissões I,2, Paulus, São Paulo, 1997…
5LEÃO MAGNO, Sermões, Liturgia das Horas III, 166.
6Cf. FAUSTI, S., Una Comunità legge il Vangelo di Luca, EDB, Bologna, 2015, 557.
7GS 24
8FRANCISCO, O nome de Deus é misericórdia, Planeta, São Paulo, 76.
9CF 2018, 177
10FRANCISCO, Laudato Si, 2
11FRANCISCO, Laudato Si, 2.
12FRANCISCO, Laudato Si, 2.
13FRANCISCO, Laudato Si, 5.
14LEÃO MAGNO, Sermões da Natividade do Senhor, in Liturgia das Horas, III, 166.
15Cf. FRANCISCO, Laudato Si,1.
16DOM LUCIANO
17CF 2018,164.
18Dom Luciano
19PUEBLA 289-290
20FRANCISCO, Laudato Si, 241
21CASALDÁLIGA, P., “Dizer, teu nome, Maria”
22FRANCISCO, Laudato Si, 246
23CASALDÁLIGA, P., “Dizer, teu nome, Maria”
24FRANCISCO, Evangelii Gaudium 270
25CF 2018,170
26CASALDÁLIGA, P., “Dizer, teu nome, Maria”
27PAULO VI, Prefácio do Advento I A, in Missal Romano
28Cf. MARTINI, C. M., Narrativas da Paixão, Ave Maria, São Paulo, 1996, 90-91.
29ANSELMO, “Proslogion”, in Liturgia das Horas, I, Paulinas São Paulo, 1995, 153.

 

 

 

+Geovane Luís da Silva
Bispo Auxiliar – Arquidiocese de Belo Horizonte