Você está em:

[Artigo] Quem é Este que está chegando? – Neuza Silveira, Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte

Nesse tempo de Advento nos colocamos à espera Daquele que vem, Aquele que chega trazendo consigo a esperança de um novo tempo, novas perspectivas de vida, solidariedade entre as pessoas, renovação. Vem chegando de mansinho, não como um soberano altivo e indiferente, mas o grande companheiro, que sofre conosco e nos compreende.  É um tempo que nos convida a prepararmos e transformarmos para uma nova caminhada que se inicia com o Natal. Esta festa nos confirma a fé no mistério da encarnação.

Natal não é apenas uma festa de aniversário, mas faz parte de um grande acontecimento da salvação. É uma verdadeira festa da Redenção, em íntima relação com a Páscoa. Natal é um encontro! E caminhamos para encontrá-lo com o coração, com a vida; encontra-lo vivo, como ele é. É encontra-lo com fé. É um encontro com o Senhor e, ao mesmo tempo, um “ser encontrado” pelo Senhor.

Assim, celebramos o aniversário do amigo que vem nos revelar o grande amor do seu Deus, aquele que vem para restabelecer a dignidade do pobre, do que chora, do que sofre e do que é perseguido. Aquele que vem encontrar-se conosco e também deseja ser encontrado por nós.

O Deus de Jesus, aquele ao qual se chama de Abbá, é um Deus como pai-mãe que só por amor nos traz à existência e, junto conosco, atua em nossa história. Um Deus que, por sua Plenitude, não tem carências, mas que é inteiramente dom, que consiste em ser ágape (1Jo 4,4.8.16) e, cuja ação não é nunca egoísta, mas de pura generosidade para com o outro. Um Deus que se interessa por nós, tudo em nós: corpo e espírito, indivíduo e sociedade, cosmo e história, ou seja, um Deus que pensa em nós e se preocupa com tudo que possa ser bom e positivo para todas as pessoas e para o mundo.

O Deus de Jesus é aquele que cria por amor e que quer o bem de toda a humanidade. Embora exista o mal no meio dessa humanidade, ele existe por ser inevitável, tanto física como moralmente, nas condições de um mundo finito, e de uma liberdade finita.

Jesus, ao nos revelar o seu Deus, nos convoca a lutar contra o mal do mundo. Chama-nos a nos fazermos colaboradores de Deus na luta contra o mal que se apresenta como frustração da obra de seu amor por nós.

Acolher e viver esse amor que nos é dado por Deus acontece quando o buscamos na vida de Jesus, o verdadeiro Filho de Deus. É Nele que encontramos o verdadeiro sentido da fé cristã.

O Homem Jesus de Nazaré

O Cristo da fé e da glória é o mesmo Jesus de Nazaré, ou seja, o Jesus da história. Esta história é o fundamental de tudo. O homem Jesus, no sentido humano da Palavra, é o ponto de partida para a busca de compreensão da fé cristã. É a partir dele que chegamos ao mistério da nossa fé trinitária. É dele que provém a religião que chamamos de Cristianismo e que se tornou uma religião mundial que declara ser Jesus a figura que, pessoalmente, revela Deus.

Mas o conhecimento sobre Jesus somente o encontramos a partir do movimento que o próprio Jesus despertou no primeiro século da nossa era, movimento esse vivenciado pelas primeiras comunidades e partilhado conosco através de suas experiências de caminhadas. São os Evangelhos, a Boa Notícia sobre a vida de Jesus de Nazaré, ou seja: quem foi Jesus, o que ele falou e fez. Todas as suas experiências são relatadas na linguagem da fé, mas se referindo a uma realidade concreta e histórica.

O que as primeiras comunidades falam sobre Jesus?

Falar sobre Jesus na linguagem da fé é explicitar o que este Jesus realmente histórico significou para os seus seguidores. Trata-se de uma informação de fatos presentes, mas já interpretados na linguagem da fé. Ao falar sobre Jesus elas afirmam que ele morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras (1Cor 15,3). Dizem: morto, porém ressuscitado (Rm 8,34; 1Cor 15,3-4). São experiências de vida nova atribuídas ao Espírito. Uma nova vida da comunidade, presente e colocada em relação a Jesus de Nazaré.

Esse é o convite que a Igreja, Sacramento de Cristo, continua fazendo até a hoje: que possamos, a cada ano, ao celebrarmos o nascimento do Cristo, renovar nossas vidas nos constituindo “nova comunidade em Cristo”; comunidades vivas de fiéis, conscientes de ser o novo Povo de Deus, primícias da assembleia de todo o Israel e de toda humanidade; comunidades que caminham à Luz do Espírito do Ressuscitado.