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[Artigo] Quando esquecemos a importância da ritualidade – Padre Márcio Pimentel, Secretariado Arquidiocesano de Liturgia

ntes de continuar com nossa reflexão sobre ritual e virtual, gostaria de compartilhar com este breve artigo algumas preocupações. Se não fosse tão absurdo, dava até para argumentar com a Escritura, “esconde-me à sombra de tuas asas” (Sl 17,8) e ainda dar uma “forçadinha” se alguém disser qualquer coisa em contrário: uma vez que os Salmos devem ser lidos cristologicamente, referindo-se a “Jesus sacramentado” que protege o seu povo… e entrar numa aeronave com a custódia para abençoar o povo com a “bênção que vem do alto”. Tudo bem documentado e veiculado por mídias católicas das quais não esperaríamos a divulgação de tais eventos.

Você pode se perguntar se não seria uma bobagem em um momento tão sério, imersos numa crise sanitária quiçá sem precedentes, ocupar-nos de refletir sobre este tipo de coisa. Afinal, tudo aquilo que pode dar esperança e consolo às pessoas vem a calhar neste momento. Mas, deixe-me esclarecer alguns pontos.

Como teólogos da liturgia, temos não só um dever mas sobretudo um ministério por cumprir. Evidentemente, não é o de proteger a “doutrina”, pois essa tarefa cabe a outros, mas de propor cientificamente (dentro dos padrões do saber de cada tempo, com fez Tomás usando Aristóteles, à sua maneira, evidentemente) a fé. Não só os “conteúdos” da fé, mas fé enquanto fenômeno ritual é aquilo com que nos ocupamos. A fé celebrada, ou seja, como ação do povo de Deus dentro do quadro referencial da Revelação e mais especialmente fazendo parte dela. A fé, enquanto evento simbólico-sacramental, assumida como cumen et fons da vida cristã. A fé como liturgia, que não é secundária como alguns ainda teimosamente pretendem e nem acessória como muitos ainda fazem-na parecer.

Curiosa e paradoxalmente, num momento em que a Igreja está (estaria!) confinada dentro das casas não por razões de perseguição religiosa mas de testemunho da caridade, fundamental à experiência de Deus apresentada por um certo hebreu chamado Jesus de Nazaré, resta-lhe somente aquilo ao que parece estar vetada: o ato de culto, a celebração, a liturgia. Não podemos (e não devemos!) sair de nossas casas a não ser por razões de estrita necessidade – e isso significa em alguns casos, dar comida a quem tem fone, ajudar a quem vive sozinho. O “terror” da vida cristã estes dias é, como no princípio, a familiaridade do contato interpessoal. No entanto, isso só aparece, esta graça somente se manifesta quando o rito vem em nosso auxílio como mediação necessária e não acessória à fé. O rito que Jesus deixou, certamente. Mas continua sendo rito. Pode chamar de outro nome, mas é rito. Sim. Neste momento histórico o rito pode nos salvar e o faz de muitos modos.

Como já disse noutro artigo, estou acompanhando todo o drama da pandemia do momento desde o início, dentro de casa há um mês. Vivo na Itália, no norte, mais precisamente, onde a crise começou e de onde se alastra “ladeira abaixo”, em direção ao sul. Assistindo um dia ao telejornal, via e ouvia um rapaz contar que a dor maior que experimentava não era de saber que seu pai estava internado a causa do contágio, mas o fato de não saber se poderia vê-lo de novo. Não só vivo, mesmo que viesse a falecer, não era certo que poderia fazer contato outra vez. Isto o destruía, era notório.

Dei-me conta que o “simbólico” eclodia com força e ditava suas regras. Não era só um vírus que ameaçava a vida daquele homem, mas aquela impossibilidade de comunhão. A grande dor na região lombarda nestes dias não é de perder os pais e avós, mas de não poder sepultá-los, ou seja, estão privados de um rito que provavelmente (leia-se, cientificamente!) esteja na origem daquilo que hoje costumamos chamar “humanidade”. Vou um pouco além. São imprescindíveis as equipes médicas que tratam heroicamente os pacientes, arriscando-se. Mas, para resistir a dias e noites terríveis, precisaram manifestar o que viviam e o fizeram por meio da linguagem simbólica porque só ela – nesta nossa frágil e bela carne – é capaz de mover-nos rumo à vida. Quando ainda era possível caminhar pelas ruas da cidade onde moro, quantos cartazes às portas: “C’e la faremo”, “Andrà tutto bene” com um arco-íris desenhado certamente pelas crianças das casas. Gente das janelas tocando e cantando, aplaudindo os médicos… enfim… linguagem simbólica, ‘célula tronco” do rito.

Não foi por um motivo qualquer que Jesus confiou seu amor-doação aos discípulos na forma de um rito, de uma trama complexa de gestos simbólicos aos quais chamamos sacramentos/sacramentais. Não são coisas, portanto, mas interação e iteração eclesial da gestualidade de Jesus, da sua pessoa, da sua palavra, de sua obra. É a forma mais pura de Tradição (transmissão, comunicação intersubjetiva). A Igreja recebeu do Senhor o encargo não só de prolongar, mas de ser ela mesma mediadora de sua presença o que não se dá sem a dinâmica ritual como ação mais apropriada para tal empresa. Não apenas porque reconhecemos a autoridade de Jesus para “fundar” uma fé deste tipo, mas sobretudo porque – como exemplificamos acima – no rito radica-se a humanidade, o ser pessoa, uma vez que é ele, enquanto linguagem simbólica em ação, o único capaz de gerar verdadeiro e profundo sentido.

Usando aqui os conceitos epistemológicos de base de Giorgio Bonaccorso, a tríade – experiência religiosa / linguagem simbólica / ação ritual – que caracterizam a liturgia não pode ser rompida. Quando um sacramento é retirado de seu contexto de experiência eclesial que se exprime mediante a linguagem simbólica e se realiza através da ação ritual, como dissemos, se corrompe e não pode mais qualificar-se como ação de Cristo. Torna-se outra coisa. Por essas razões, cabe-nos neste tempo averiguar como estamos tratando sejam os ritos sejam os elementos – sinais e símbolos – que tem sentido apenas dentro do horizonte ritual, sem o qual se tornam objetos manipuláveis segundo a ideologia de quem os dispõe para uma finalidade que não aquela a que pertencem por natureza.

O coronavírus prestou-nos o favor de antecipar o espetáculo que em geral se difunde na semana santa, quando ministros leigos e ordenados fazem das celebrações um espetáculo, uma espécie de “barroquice decadente”. Amparados – talvez na maioria dos casos – em boas intenções, não são capazes de manter a tríade epistemológica experiência-expressão-ação, tamponando a realidade. Infelizmente, contrariamente ao que pensam, presta-se um desserviço ao povo de Deus que se vê, mais uma vez, na condição de “assistente” de drama sacro (ou comédia). A solução que já está dada naquela ritualidade relida e transmitida por Jesus a quem chamamos “Nosso Senhor” não nem ao menos cogitada. Preferimos fazer do “nosso jeito” porque rende mais “likes”.

Com estas provocações, sigamos com uma conversa um pouco mais longa sobre o que está de fato acontecendo nesta época, pois reconheço um apelo por conversão muito forte, no que tange ao nosso modo não só de pensar a Igreja, mas de realizá-la. É preciso conversarmos porque a liturgia que o Senhor nos entregou para formar a Igreja como seu corpo, um corpo que ama e se dá, tem sido usada – consciente ou inconscientemente – para fins que não são aqueles que reconhecemos no Evangelho. Precisamos conversar seriamente sobre isso.