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[Artigo] Palavra de Deus: gérmen da comunicação e luz para o caminho – Neuza Silveira, Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte

Os textos bíblicos são comunitários. Nascem de uma comunidade e a ajuda a continuar na caminhada. Tanto judeus como cristãos ouvem a palavra bíblica como “Palavra de Deus”. Como ela é a história de um povo em busca de Deus, nela Deus fala e se expressa, pois o próprio Deus, em seu amor, quer se revelar ao povo. Nesse diálogo entre Deus e o homem se encontra a verdade da Bíblia, verdade que serve para a nossa salvação. Nesse sentido, a Bíblia é porta-voz do projeto de Deus.

Nessa relação, onde Deus se comunica com o povo, e este o descobre nos acontecimentos da vida, faz chegar até nós esse livro que nos fala da Aliança e o plano de salvação de Deus para com a humanidade.

A preocupação dos que escreveram não foi contar uma história, mas recuperar a memória, a identidade. Seus escritos trazem uma grande riqueza de experiências que contribuem para manter viva a fé no Deus que propõe justiça, fraternidade, amor e fidelidade.

Ao ler a Bíblia, não se deve preocupar com a busca de uma história verdadeira, mas a verdade da história, da minha história, de todas as histórias. A história é o veículo, o lugar do conhecimento de Deus. Este Deus que, no seu dinamismo, impulsiona os homens e o mundo ao seu destino verdadeiro. Este Deus que nos impele para a realização, para a aceitação, para a doação. Este Deus que sempre está a falar conosco. E nós, seres humanos, somos chamados a responder, por ações e atitudes a este apelo de Deus.

A nossa resposta a Deus também acontece de várias formas: Em nossas atitudes pessoais e comunitárias, nossas atividades colocadas ao serviço da vida, e nossos trabalhos missionários em prol do anúncio da Palavra de Deus. São atividades exigentes, requer muita coragem e responsabilidade, tanto para a vida em comunidade, quanto para fazer ressoar no coração das pessoas a Boa Noticia que é a vida de Jesus, vida que transforma e contribui para transformar outras vidas. Esta notícia ainda diz que Deus construiu sua tenda no meio de nós para melhor se comunicar conosco e nos ajudar.

A Bíblia nos ajuda percorrer o caminho

A Bíblia descreve a intervenção de Deus no tempo da história por meio de Palavras e ações. Trata-se de palavras humanas, compreensíveis aos humanos. Não há palavra de Deus que não passe por uma mediação humana. É para que o homem possa compreendê-la. Mas são utilizados em códigos de linguagem que vão indicando as palavras que são atribuídas a Deus. Por exemplo, o código das teofanias, ou seja, da manifestação de Deus. A teofania exprime e interpreta, no seu código de linguagem, uma experiência de encontro com Deus e da escuta de sua palavra. Nela há trovões e trovoada, o murmúrio de um vento doce, uma nuvem que cobre o lugar ou um santuário, um estremecimento da natureza, a presença de anjos, a aparição de Deus sob a forma de uma voz.

Na experiência da caminhada do povo de Deus, revelada nas escrituras, o povo percebeu a manifestação de Deus de modo diverso, de formas e em lugares específicos.

Vejamos a presença de Deus manifesta através de alguns relatos bíblicos:
• Gn 3,8 – Eles ouviram os passos de Deus que passeava no Jardim.
• Gn 12, 1-3 – O Senhor disse a Abrão […] Deus chamou Abrão e lhe prometeu uma posteridade. Depois troca o seu nome para Abraão (Gn 17,5) e o abençoa.
• Gn 16, 7-13 – O anjo do Senhor conversa com Agar – Lhe disse: volta para a tua senhora e sê-lhe submissa […] Eu multiplicarei grandemente a tua descendência.
• Gn 18, 1-3 – O Senhor lhe apareceu no Carvalho de Mambré….Tendo levantado os olhos, eis que viu três homens de pé, perto dele; logo que os viu, correu ao seu encontro e se prostrou por terra. E disse: Meu Senhor, eu te peço, […]. (na bíblia só se prostra por terra diante de Deus).
• Gn 28, 10-22 – O sonho de Jacó – Jacó sonha com uma escada ligando o Céu com a terra. Os anjos de Deus subindo e descendo por ela. “Eis que o Senhor estava de pé diante dele e lhe disse” (linguagem antropomórfica). […] “Eu estou contigo e te guardarei em todo lugar aonde fores…não te abandonarei… Jacó acordou do seu sonho e disse “Na verdade, Deus está neste lugar e eu não sabia!”
• Em Ex 3, 1-15 – Deus se manifesta a Moisés na sarça,
• Ex 11, 21-22 – Deus sempre presente na coluna de nuvem e de fogo. A Teofania mais importante do AT é a do Sinai, quando Moisés recebe as Tábuas da Lei.

O Novo Testamento tem também as suas teofanias.

Os anjos dos céus anunciam o nascimento glorioso de Jesus. A voz de Deus ouve-se no momento do batismo de Jesus. Esta voz faz-se ouvir na transfiguração, com o sinal da nuvem.

Os textos da Ressurreição – Todos eles tratam da mesma realidade: da experiência que a comunidade cristã faz da ressurreição de Jesus e de sua presença viva no meio dela. É o sinal da sua vitória sobre a morte e a confirmação por Deus da autenticidade da missão de Jesus.
• Mt 28, 2.5 – Mateus diz que o Anjo do Senhor desceu do céu, removeu a pedra do sepulcro e falou às mulheres.
• Jo 20,11 – João diz que Maria (de Magdala) viu dois anjos vestidos de branco no lugar onde fora depositado o corpo de Jesus.
• Mc 16,5 – Marcos não fala “Anjo”, diz que as mulheres viram um jovem vestido com uma túnica branca
• Lc 24,4 – Lucas diz que dois homens se postaram diante das mulheres com vestes fulgurantes
• At 1,10 – No momento da ascensão de Jesus.
• At 8,26-40 – O encontro de Felipe com o eunuco da rainha Candace da Etiópia.
• At 12, 7-11 – O mesmo Anjo livra Pedro da Prisão de Herodes
Estes sinais e manifestações vivas de Jesus após a crucifixão, transmitidas por testemunhas, nos ajudam a compreender o sentido deste único acontecimento. Com Jesus estamos diante de uma teofania que dura a vida toda de homem: “Quem me vê, vê o Pai (Jo 14,9). É a revelação de Deus no Humano. A revelação não pode exprimir-se senão em termos humanos. Escutar a Palavra de Jesus e seguir a sua conduta nos faz reconhecer o agir e o falar de Deus em si mesmo.

O catequista precisa se espelhar em Jesus e utilizar-se da sua pedagogia divina, principalmente da pedagogia da Encarnação, em que se faz presente o diálogo salvífico entre Deus e a pessoa. Ao anunciar o Evangelho, cuidar para que seja profundamente relacionado com a vida, usando sinais, símbolos e gestos capazes de entrelaçar fatos e palavras, ensinamento e experiência.

Neuza Silveira de Souza – Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético Belo Horizonte