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[Artigo] O sentido da Páscoa em nossa vida cristã – Neuza Silveira, Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de BH

Percorrendo as avenidas da nossa vida, nos tornamos mais evoluídos, espiritualmente, e a partir das experiências realizadas, podemos vivenciar a cada tempo, de forma diferente, a ressurreição de Cristo. E quem nos possibilita tudo isso é Deus. Quem é ele?

Olhemos ao nosso redor. O céu está inteiro na palma da mão de Deus e toda terra está contida no côncavo de sua mão (Is 40,12). A palma e o côncavo da mão simbolizam o poder de sua divindade que se revela. Deus existe e está dentro e fora de todas as coisas. Deus as transcendem e as penetram. Permanece no interior e no exterior de tudo. Nada se pode ocultar daquele que é infinito. Assim diz o Sl 139, 7-10:

Para onde irei longe do teu Espírito, ou fugirei de tua face?
Se subo aos céus, lá estás, se desço aos infernos, ali te encontro.
Se tomasse as asas da aurora para habitar nas extremidades do mar,
Também ali me alcançará tua mão, e a tua direita me segurará.

Não se deve então pensar que o Senhor de toda a beleza criada seja necessariamente a beleza de toda a beleza? Deus é a beleza absoluta porque é a existência pessoal absoluta. Ele dá aos seres os seus limites, mas chama-os a uma comunhão sem confusão. Ele é essa beleza. Essa beleza que move todos os seres e os conserva dando-lhes o amoroso desejo de sua própria beleza.

Assim também é a Ressurreição. Assim o mundo está vivendo a beleza da ressurreição, um modo de ser de Deus, o ressuscitado. E fazendo experiências diferentes. Todos chamados à comunhão, sem confusão. Todos chamados a viver o amor, e Deus é amor. É êxtase de amor fora de se próprio, para fazer as criaturas participarem da sua vida.

Após a experiência vivida nessa grande Semana Santa que culminou com o nosso encontro com o ressuscitado, a nossa tarefa cristã é sair e ir anunciar a Páscoa. Mas sair como: Ah! Existem várias saídas. Se hoje não podemos sair para as ruas, para as visitações, podemos sair de nós mesmos, expor nosso interior, encontra meios de caminhar por entre as redes virtuais. Por esses caminhos podemos também encontrar pessoas, ouvi-la, escutar as belezas que são faladas, e até mesmo cantadas. E também podemos cantar as nossas belezas. De tempos em tempos somos chamados a fazer uma avaliação e revisão da nossa vida, das nossas atividades. Esse é o tempo propício. Vamos partir desse novo período pascoal que nos convocam para fazer uma nova experiência pascal.

Vamos começar recordando o sentido da Páscoa para os cristãos. O Papa Francisco nos lembra da antiga fórmula utilizada pelos apóstolos e pelos primeiros cristãos: “Verdadeiramente, o Senhor ressuscitou”. Participar desse acontecimento é o maior privilégio, experimentar o dia que o Senhor fez para nós, dia de graça que destruiu a morte e deu vida ao primogênito dos mortos. Que bela notícia! Aquele que por nós se tornou como nós, para fazer de nós seus irmãos, conduz a sua própria humanidade para o Pai a fim de levar consigo todos os da sua raça.

Eis para nós um novo nascimento. Um nascimento que não é obra «nem do desejo do homem, nem do desejo da carne, mas de Deus» (Jo, 1,13). É um outro nascimento tal como uma nova vida, uma outra maneira de ser, uma transformação da nossa própria natureza. Um nascer para receber o Reino da vida.

Jesus nos fez novo. A nós homens, mulheres, jovens e crianças, ele veio propor a anunciar ao mundo a alegria de que a morte não tem a última palavra. Essa é a boa notícia! “Nós ressuscitaremos com Ele!”. Da ressurreição nasce a fé, nasce o cristianismo como um caminho de fé que parte de um acontecimento, testemunhado pelos primeiros discípulos de Jesus. É o apóstolo Paulo que vai nos ajudar nessa reflexão. Ele nos faz um resumo desse acontecimento: Jesus morreu pelos nossos pecados, foi sepultado, e no terceiro dia ressuscitou e apareceu a Pedro e aos Doze (cf. 1Cor 15, 3-5).

Este é o fato: morreu, foi sepultado, ressuscitou e apareceu. Isto é, Jesus está vivo! Este é o núcleo da mensagem cristã. Aceitar que Cristo morreu e morreu crucificado não é um ato de fé, é um fato histórico. Em vez disso, acreditar que ressuscitou sim.

Nosso encontro com o Ressuscitado

A nossa fé nasce na manhã de Páscoa e continua se fortalecendo a cada celebração pascal que participamos. Assim como aquelas pessoas do primeiro tempo entraram em contato com o ressuscitado, assim também nós, na fé, continuamos nos encontrando com o Senhor Ressuscitado.

A cada dia somos chamados a ir até o sepulcro de Cristo, ver a grande pedra caída e pensar que Deus está realizando por mim, por todos nós, um futuro inesperado. A ressurreição de Jesus, a cada ano nos chama à tomada de consciência de que agora somos nós que temos de levar adiante a revelação do amor de Deus e seu projeto de vida em Jesus de Nazaré. Que possamos viver do fruto da Páscoa que é a fraternidade.

Relendo as escrituras vamos sempre encontrar luzes para retomar, com coração ardente, a mesma prática que seus discípulos haviam experimentado durante a convivência com seu mestre (Lc 24,25-27).

A partir da memória do que Jesus realizara, vamos continuar vivendo novas relações de partilhas, de solidariedade. Vale aqui dizer que fazer memória não é só lembrar-se do que aconteceu com Jesus, mas é se fazer presente, colocar em ação o que ele fez. Assim, ao partir o pão, perceber sua presença, já não é mais possível falar de morte, mas de vida. Ser cristão significa não partir da morte, mas do amor de Deus por nós, que derrotou a nossa grande inimiga. Deus é maior que qualquer coisa. E Jesus ainda está aqui, continua a estar vivo entre nós, está aqui conosco: vivo e ressuscitado.

O Papa Francisco afirmou que as palavras do Credo niceno-constantinopolitano, “espero a ressurreição dos mortos / e a vida do mundo que há de vir” e “creio na ressurreição da carne e na vida eterna”, refletem a esperança cristã no futuro glorioso, de uma salvação eterna. Estas palavras, essa esperança na eternidade, na ressurreição, são “o núcleo essencial da fé cristã, ligado diretamente à fé de Jesus Cristo morto e ressuscitado”.

Para nós cristãos, continuar anunciando sua ressurreição e glorificação e a esperança na eternidade nos levam a atualizar a prática libertadora de Jesus, seja ela em relação às doenças, à opressão religiosa, cultural e de gênero. O que fazemos é renovar a nossa vida conformando-a à vida do Cristo ressuscitado.

Neuza Silveira de Souza
Coordenadora do Secretariado Arquidiocesano
Bíblico-Catequético de Belo Horizonte