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[Artigo] O Ofício Divino: quando a Palavra de Deus reza em nós (1)- Padre Márcio Pimentel, Paróquia São Sebastião e São Vicente

O Concílio Vaticano II compreende que o Ofício Divino é consequência daquele movimento encarnatório pelo qual Cristo “ao assumir a natureza humana, trouxe a este exílio da terra aquele hino que se canta por toda a eternidade na celeste mansão” (SC 83). Na Sagrada Escritura como também na tradição da Igreja, falar em “hino” ou “cântico” é dizer do fruto da expiração ou seja, da ação do Espírito de Cristo em nós. Cantar, portanto, equivale à manifestação da vida do Verbo de Deus na corporeidade de seus seguidores e seguidoras.

A Constituição Apostólica Laudis Canticum (LC) com a qual Paulo VI promulga o Ofício Divino renovado conforme os critérios do Concílio Vaticano II afirma que pela Liturgia das Horas, o culto divino repercute e alcança “todas as horas da vida humana”. O elemento característico do Ofício Divino, portanto, é o tempo. Melhor dizendo, o ingresso Verbo na história humana, no “agora” do mundo, de modo que se torne o “hoje” de Deus. Esta é a base para tratar o Ofício Divino como “santificação do dia” (LC 2), e reconhecer o tempo como “verdadeiro tecido da oração ritual horária”1

Quando rezamos o Ofício Divino haurimos a vida de Cristo que é princípio de toda santificação aderindo a ela, prolongando-a (cf. LC 8). Evidentemente, esta “vida” não é algo abstrato, mas é a vida humana de Jesus como sacramento, isto é, sinal revelador e realizador da presença de Deus conforme podemos reconhecer nas narrativas evangélicas. A oração das Horas põe este mistério em andamento, de modo que o “ato ritual” define nossa humanidade segundo a carne do Verbo. Este dado é muito importante porque assenta-se na mais legítima antropologia bíblica: nossa origem é a Palavra de Deus. Somos imagem e semelhança da única Imagem de Deus que é o Verbo encarnado, conforme ensinam os padres da Igreja.

O Ofício Divino ao nos associar a Cristo faz-nos semelhantes a ele. Isso se dá pela repetição de sua maneira de rezar. A Instrução Geral à Liturgia das Horas (IGMR) é muito clara a este respeito:

Ele se dignou deixar-nos também exemplos de oração. Os evangelhos muitas vezes o apresentam orando: quando o Pai revela sua missão, antes de chamar os apóstolos, ao bendizer a Deus na multiplicação dos pães, ao se transfigurar no monte (…). Sua atividade cotidiana está muito ligada à oração. Mais ainda, como que brotava dela, retirando-se ao deserto e ao monte para orar, levantando-se muito cedo ou permanecendo até a quarta vigília e passando a noite em oração a Deus (IGLH 4).

 

 

 

 

 

 

 

Jesus “construiu” ou “elaborou” sua humanidade a partir desta relação intima, pessoal e familiar com Deus a quem chamava “Abba”. A Liturgia das Horas não será outra coisa que a continuação desta oração de Cristo (cf. IGLH 6). O decurso do tempo se tornará uma fonte para que a pessoa se humanize radicando sua existência na Palavra de Deus que é Cristo Jesus e seexperimente mergulhada na salvação que Ele oferece na entrega de sua vida. “O ‘rezar’, significa santificar o tempo a partir da santificação de si mesmo (do eu!)”2.

Esta santificação do “eu pessoal”, isto é, do “ser humano ofertando-se relação a outro ser humano” se dá à medida em que se mergulha no amor que o Pai faz transbordar em Cristo, estendendo a nós a filiação divina pois “o amor de Deus é o que torna possível a realização de Deus”3. Estamos falando aqui da atuação do Espírito Santo no orante, o mesmo Espírito que agia em Jesus (cf. Lc 10,21). O “Espírito do Filho, infunde em nós o ‘espírito de adoção filial, no qual clamamos Abba, Pai” (IGLH 8). A oração das Horas nos faz respirar em Cristo, ou seja, existir nele. Isso se dá concretamente quando os seguidores e seguidoras de Jesus andam conforme o ritmo da Palavra de Deus. Esta é a raiz de toda santificação:

Os participantes da Liturgia das Horas hão de haurir, sem dúvida, copiosíssima santificação por meio da salutar Palavra de Deus, que tanta importância tem nela. As leituras são tiradas da Sagrada Escritura, as palavras de Deus transmitidas nos são cantadas em sua presença, e por sua inspiração e impulso, elevam-se outras preces, orações e hinos (IGLH 14).

 

 

 

 

 

 


1 ZIZIC, Ivica. Homo orans. La preghiera rigtuale nell’umanità dell’uomo. In: GARCÍA, Eduardo López-Tello, PARENTI, Stefano, TYMISTER, Markus. Carmina Laudis. Risposta nel tempo all’eterno. La liturgia dele Ore tra storia, teologia e celebrazione. Roma: Aracne, 2016, p. 327. (Ecclesia Orans).

2 ZIZIC, Homo orans, p. 330.

3 SHAPIRO, Rami M. Escutando Jesus para ouvir a Deus. In: BRUTEAU, Beatrice (org.). Jesus segundo o judaísmo. Rabinos e estudiosos dialogam em nova perspectiva a respeito de um antigo irmão. São Paulo: Paulus, 2011, p. 225.

 

 

 

 

 

 

Padre Márcio Pimentel
Teólogo e Liturgista
Paróquia São Sebastião e São Vicente