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[Artigo] Narrativas de Iniciação Cristã nas experiências das primeiras comunidades – Neuza Silveira, Catequista

Batizar significa identificar-se com a causa de Jesus. É preciso crer, pois o batismo sem fé (pessoal, quando é o próprio adulto que procura a Igreja e pede o batismo, ou dos pais, no caso do batismo da criança) é um banho de água inexpressivo. Da mesma forma, a fé sem o batismo é uma fé sem expressão.

A fé e o batismo estão intimamente ligados, são dons de Deus aceitos por aquele que crê. Ao ser batizado a pessoa constitui-se membro da comunidade cristã, pois o cristão não se faz sozinho, isolado, mas juntos na vivência com a comunidade e nas trocas de experiências.

Em alguns textos do livro de Atos dos Apóstolos encontramos algumas narrativas que nos ajuda a descobrir um possível esquema de iniciação. Podemos observar as narrações sobre três personagens bíblicos que tem como objetivo descrever o acesso à fé e à conversão: temos o texto sobre o etíope eunuco (um pagão não romano), Saulo (um Judeu) e Cornélio (um pagão romano).

Lê-se em At 8,26-40 o batismo do etíope eunuco que representa o pagão estéril. Retornando de uma viagem feita a Jerusalém, sentado em sua carruagem, lia as escrituras, (o texto bíblico faz referencia á leitura das profecias de Isaias) e percebia não entender bem o que se lia. Quem é o eunuco? O texto diz ser um estrangeiro, ministro das finanças da Rainha. Um homem, portanto, culto, simpatizante da religião judaica, embora não circuncidado, pode-se dizer, um ‘temente a Deus’, talvez um prosélito, aberto à fé que se esforça em conhecer as Escrituras. Talvez, em Jerusalém, tenha conseguido um pergaminho copiado com o texto de Isaias. Vai lendo em voz alta, como era costume, até que se inventou a leitura mental.

Felipe aparece no caminho do eunuco. Podemos imaginar um missionário itinerante que sai em busca de novas pessoas para evangelizar. Ele é um missionário entre os samaritanos, em oposição a Simão, um mago que fazia comércio com o religioso, apesar de estar batizado. Por uma ordem superior, Felipe, neste dia, escolheu uma estrada pouco movimentada, que une a capital com a cidade costeira de gaza (cerca de 100 Km) e ali vê o eunuco que passa em sua carruagem. Felipe reconhece de ouvido o texto lido pelo eunuco, que lia em voz alta, e se aproxima da carruagem. Pode-se dizer que aqui começa o processo de iniciação em suas várias etapas.

1º Passo – o eunuco pede para ser guiado, orientado sobre o que está lendo – Etapa pré-catecumenal. O estrangeiro compreende o sentido material do texto escrito, apresentado como um paradoxo inaudito, mas não sabe identificar o personagem de quem se fala. Neste caso, identifica-lo é compreender o texto, a personagem é tão surpreendente que, com o que aprendeu com os doutores judeus ao participar do culto, não consegue ‘entender o que lê’. Ao pedir a Felipe para explicar, este verbo na língua grega quer dizer, guiar, encaminhar. O eunuco sentia falta de algo mais. Via que não bastava somente fazer a peregrinação até ao templo de Jerusalém. Felipe lhe anuncia a Boa-Nova de Jesus, ou seja, oferece ao eunuco um encontro de catequese, falando sobre a páscoa de Jesus, sua morte e ressurreição. Dá a ele o querígma, chave de compreensão das Escrituras.

2º Passo – Felipe o catequiza sobre o Reino, o dom do Espírito e o batismo, O eunuco continua seu caminho, mas ao descobrir uma fonte pelo caminho, pede para ser batizado. Pergunta-se a si mesmo: o que me impede de ser batizado? O fato de ser estrangeiro? Ser eunuco? Morar em uma casa real? Na pergunta estão subentendidas as dúvidas e incertezas das primeiras comunidades sobre quem poderia ser batizado. O texto, em Lucas, nos diz que o gesto de Felipe é coisa de Deus, do seu Espírito. Esta é a etapa do aprofundamento, a catequese de iniciação central. Assim também são nossos gestos e ações catequéticas: coisas de Deus.

3º Passo – Felipe e o eunuco submergem na água para significar que o batismo é ruptura com o passado e entrada numa nova vida. É a hora da celebração sacramental. Experimentar e viver o mistério mistagógico.

Logo depois de batizado, o eunuco percebe a ausência de Felipe que, em seguida desaparece, como desapareceu Cristo na ceia com os discípulos de Emaús, para manifestar que o Senhor está presente nos sinais sacramentais. O eunuco segue o ‘caminho’ cristão com alegria, e o evangelizador, Felipe, continua seu trabalho de evangelizar, levar a Boa-Nova do Espírito a outras pessoas.

Como sugestão, leia as outras passagens nos textos sobre a conversão e batismo do Judeu Saulo e do centurião Cornélio descobrindo nas leituras os passos da Iniciação Cristã. Destas compreensões dos Evangelhos brota a catequese de estilo catecumenal na Igreja do século III e chega ao auge no século IV, quando do reconhecimento do cristianismo como religião oficial do Império.

Percebe-se que a Igreja que evangeliza naquele tempo é uma Igreja aberta a todos, aos pagãos, com os quais se manifesta o universalismo da primeira comunidade cristã. Desde o tempo de Jesus e de seu Batismo por João, está o princípio de um rito de iniciação cristã, gesto de incorporação ao povo da nova aliança e símbolo do perdão de Deus.

Hoje, Pós Vaticano Segundo, a Igreja nos convida, ou nos convoca para retornar a esse tempo fértil da Igreja e buscar elementos que nos possibilite a trabalhar nossas catequeses inspirada nesse modelo catecumenal.

Neuza Silveira de Souza

Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte.