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[Artigo] A Liturgia e a música – padre Márcio Pimentel, Paróquia São Sebastião e São Vicente

“Esta música serve para este momento da celebração?” Quando fazemos esta pergunta tão simples, de certa maneira está demonstrado aquele que é o problema central em torno da música chamada “litúrgica”: ser uma composição ‘para’ a celebração da Igreja. Se assim sempre o fosse, a dúvida (na maioria das vezes) não teria lugar.

O que faz uma canção ser ‘litúrgica’ é seu endereçamento direto: foi composta para a Liturgia. Tanto o texto quanto a melodia devem respirar o rito – a ação simbólica – que se realiza. Assim, temos a nota mais importante sobre a ‘Música Litúrgica’: é parte integrante do Liturgia!

A música sacra será, por isso, tanto mais santa quanto mais intimamente unida estiver à ação litúrgica, quer como expressão delicada da oração, quer como fator de comunhão, quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas. A Igreja aprova e aceita no culto divino todas as formas autênticas de arte, desde que dotadas das qualidades requeridas. (Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium,n. 112).

A música litúrgica cristã, no decorrer dos séculos, conheceu várias expressões, conforme a cultura do povo. Este tipo de música atualmente designada pela Igreja como música litúrgica ou música ritual, difere da música religiosa, porque realiza, no cantar, o Mistério de Cristo que se revela no desenrolar dos ritos. Quando a comunidade canta, ela comunga com o acontecimento central da fé: a vida do Senhor Ressuscitado.(Diretório Pastoral Litúrgico-Sacramental, n. 50)

Percebe-se que a fonte da Música Litúrgica é o próprio Rito com o qual fazemos memória do Mistério Pascal de Cristo. É neste sentido que compreendemos a qualidade fundamental deste tipo de arte sonora: ela se identifica com o próprio acontecimento litúrgico.

É possível considerar a melodia que reveste o texto como sua carne. A letra dos textos bíblicos e eucológicos sem a voz humana é morta. Ganha vida quando se torna respiração, pulsação, ritmo; quando é revelado o seu sentido pelo manejo dos intervalos e da métrica, de tal modo que, numa verdadeira simbiose, revela para nós, em nós e entre nós a Palavra de Deus.

Não são os músicos cantores e instrumentistas que revelam a si mesmos. Isso se faz em espetáculos e shows. A música litúrgica revela Cristo cantando em nós, pois a Liturgia é ação de Cristo, antes de ser nossa.

Na Constituição sobre a Sagrada Liturgia se diz que esta música, chamada hoje em dia de Música para a Liturgia, mais do que sacra, é santa. Por que? Giuseppe Liberto numa obra muito breve mas de profundidade singular responde a esta questão:

A santidade da qual fala a Sacrosanctum Concilium é própria de todas as verdadeiras formas de arte, como bem afirma o documento: “A Igreja aprova e admite no culto divino todas as formas de verdadeira arte dotadas da devida qualidade”. E isso não pode ser compreendido senão a partir da realidade do Verbo de Deus encarnado pelo Espírito Santo e celebrado pela Igreja e na Igreja. A identidade da música sacra compreendida como santa está, portanto, na sua ‘sacramentalidade’, na dimensão do visível e do sensível, no qual a habilidade, a técnica, a execução musical se configuram como verdadeira revelação humana do divino Mistério celebrado. Cristo é imagem que se vê, Palavra que se escuta, Pão que se consome no seio da comunidade eclesial.(LIBERTO, Giuseppe. Cantarei l Mistero. Musica Santa per la liturgia.
Firenze: Edizione Feeria, 2004, p. 66-67.)

 

 

 

 

 

 

 

Padre Márcio Pimentel é especialista em Liturgia pela PUC-SP e mestrando
em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (Faje / Capes)
Paróquia São Sebastião e São Vicente