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[Artigo] Ler a Bíblia e trazê-la para os dias de hoje – Neuza Silveira, Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de BH

A Bíblia á a Palavra de Deus que nos ajuda a caminhar na vida. Ao fazer a leitura da Bíblia somos convidados a estar atentos às exigências da realidade que vivemos hoje, pois, ao conhecê-la, percebe-se que ela interpreta a história que se forma a partir da revelação de Deus, seja no Antigo ou no Novo Testamento.

Olhando para o Antigo Testamento, encontramos, entre outras, a bela história do Êxodo que nos fala da ação de Deus para a libertação de seu povo que se encontra em dificuldades. Isaias 43,18-19 nos fala de um novo Êxodo, uma libertação que será ainda mais gloriosa do que a primeira. Diz: “Não fiqueis a lembrar das coisas passadas, não vos preocupeis com acontecimentos antigos. Eis que vou fazer uma coisa nova, ela já vem despontando: Não a percebeis? Com efeito, estabelecerei um caminho no deserto e rios em lugares ermos”. Trata-se de um convite para continuarmos a caminhada, olhando para frente, pois o que Deus pode nos fazer será maior do que os prodígios do passado, a travessia do mar e destruição do exército egípcio. O Antigo Testamento nos fala de um Rei salvador, vindo da estirpe de Davi que é prenunciado por 2Sm 7,12 e Is 11,1, a partir do final dos dias de Davi.

Através da pregação e do anúncio da Palavra, Jesus o faz com a consciência de estar reunindo o povo de Deus no Reino por ele prometido. O Apóstolo Paulo também dá a sua grande contribuição. Em sua carta aos Tessalonicenses vai dizer: “Por isso mesmo, também damos graças a Deus porque, ao receberdes a palavra de Deus que ouvistes de nós, vós a acolhestes não como palavra humana, mas como o que ela é verdadeiramente: palavra de Deus, que age em nós que acreditais” (1Ts 2,13).

Também nós, nos dias de hoje, somos chamados a pregar a palavra de Deus, anuncia-la com eficácia, para que ela chegue ao coração de todos, sabendo nós que é Deus que fala pela boca de seus enviados. Através do anuncio da Palavra, deus possibilita ao ser humano conhecer o seu plano de salvação e lhe comunica a graça. Ao anunciarmos a Boa-Nova aos outros  encontramos no Novo Testamento palavra de vida, de salvação, de graça, de reconciliação, de verdade, de perdão e de purificação. Quando anunciada pela força do Espírito, ela é acolhida por todos os que creem no Evangelho.

Cristãos iniciados na Fé.

A Igreja no Brasil convida todos a prestar atenção ao processo da Iniciação à Vida Cristã, processo esse que torna efetivamente o cristão ligado de forma entranhada à vida do Cristo e assim possa viver nos moldes da vida de Jesus, caminhando com Ele, vivendo como ele e tomando atitudes conforme as exigências da revelação, expressas na própria Bíblia e na fé da Igreja, forma de atender as exigências subjetivas da realidade atual.

Segundo o teólogo Carlos Mesters, a comunicação da revelação divina que existe dentro da Igreja, o chamado “Sensus fidelium” é a porta-voz legítima da vontade de Deus e ocupa o seu ligar ao lado da Bíblia, da Tradição e do Magistério. Assim, atender as exigências da realidade do Povo é escutar a Voz do Povo, para que se possa chegar a descobrir o que Deus tem a dizer. Carlos Mesters diz ainda com muita propriedade que ‘a Palavra de Deus é semente; a sua flor, o sentido, só aparece, quando a Palavra for plantada no chão da vida e lá tiver condições de germinar e produzir seu fruto.

Catequistas, vamos caminhar com a Palavra de Deus colocando-a sempre presente em nossos encontros catequéticos. A Palavra de Deus é o alimento essencial que fortalece e dá vida às vivências experienciais que acontecem nos encontros de catequese e na vida dos catequizandos. Assim como a semente necessita de sol, água, adubo, terra e chuva que acontece no decorrer do ‘tempo’ para crescer, assim também a Palavra de Deus precisa de tempo, tempo da nossa vida, da nossa história, do ambiente que construímos, dos amigos com os quais nos relacionamos, das leituras que fazemos, das viagens para as periferias em busca de experiências, etc., até mesmo dos problemas, das discussões, das críticas, e tantos outros fatores que contribuem para o nosso crescimento. É nessa nossa vida que a Palavra de Deus Cresce e frutifica.

É no nosso caminhar no chão da vida e no cuidado com nossos problemas e exigências que essa vida nos faz que nos possibilitem a deixar-se entranhar na vida do Cristo.

Para colocar a Palavra de Deus na vida é preciso dar vida á Palavra, isto é, interpretá-la na nossa realidade, pois o Povo que recebe e lê a Bíblia é depositário da revelação divina. Muitos ainda não sabem disso, muitos não se colocam como transportadores de comunicação da revelação. É nele, no povo que está depositada a riqueza da revelação e esta revelação vai fluir para a vida dos outros com quem se relacionam através dele. Tudo pode acontecer. E Tudo que acontece no nível da vida onde está a riqueza, acontece no nível da fé.

O povo é rico de sabedoria, só não sabe, nem se tomou consciência, em questão de fé, que essa sabedoria está nele. Daí a importância de ir buscar, formar-se, vivenciar, experimentar, conversar sobre, dialogar, procurar se integrar, sair de si mesmo, abrir o cofre da vida e se deixar revelar, deixar que os outros recolham as contribuições que podem dar enriquecendo o saber do outro e com o outro enriquecer-se.

Conhecer a Palavra de Deus e colocá-la na vida é tarefa do cristão. Para uma boa interpretação da Palavra encontrada na Bíblia, inspiradas pelo Espírito Santo, é preciso que cada um seja guiado pelo mesmo Espírito Santo. Essa Palavra foi confiada à comunidade dos Crentes, à Igreja de Cristo, para alimentar a fé e guiar a vida de caridade. Assim, faz-se necessário que estudiosos da Palavra ajude a Igreja a ser fiel à Palavra inspirada pelo Espírito, reconhecendo os escritos bíblicos como palavra dirigida por Deus ao seu povo que nunca deixou de medita-las e de descobrir suas inesgotáveis riquezas.

Neuza Silveira de Souza. Coordenadora do Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte.