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[Artigo] Como conhecer a nós mesmos e nos construirmos como pessoa – Neuza Silveira (Catequista)

A experiência de cada um é incontestável e confirma que não nos conhecemos suficientemente. O desconhecido provoca insegurança.
Segundo os gregos: Conhecer-te a ti mesmo, tinha e continua tendo, um significado muito profundo, pois é uma experiência e um desafio que nos conduz para o caminho da harmonia interior e exterior, sem a qual é impossível falar em felicidade.

A riqueza que existe em nosso interior não se pode medir. Muitas vezes, nem todos conseguem externá-la porque também não a conhecem. Daí a necessidade de sairmos de nós mesmos, sairmos de nossas acomodações e nos abrir ao novo.

O pensar, o refletir, o reencontrar-se é considerado, muitas vezes, uma tarefa improdutiva, uma perda de tempo, diante da maioria das coisas que acontecem no relacionamento social, na vida agitada das grandes cidades, nos conflitos pessoais que não valorizam este movimento de interiorização.

Ouvir o interior é ouvir as minhas intenções. É tentar me colocar diante das várias solicitações a que estou sujeito diariamente. É olhar para frente e descobrir o melhor a fazer.
O ser humano precisa se construir, se cultivar, se reencontrar. O conhecimento da realidade que somos, produz segurança e com ela nasce a confiança.
Mas quem somos nós? Somos seres criados por e Deus e sempre em relação. Eu com Deus, com o outro, com a natureza e como o mundo.

O ser humano é o único que tem consciência de sua finitude, e caminha sempre em preparação de sua vida para o futuro. A vida é uma tarefa e responsabilidade. A vida em primeiro lugar. A vida é esperança, é solidariedade, é amor. O que faz viver é a fé. Sem fé não se vive. A fé oferece-nos a capacidade de escutar o ressoar do Deus vivo na Palavra escrita. Ao mesmo tempo, a fé que almeja compreender melhor a palavra de Deus busca o entendimento da história, da cultura, da literatura, para compreender com mais retidão aquilo em que mais crê e ama.

A pessoa é um mistério que não se pode explicar totalmente. É liberdade, é consciência. Ser pessoa é reconstruir-se continuamente. Nascemos para amar.
O ser humano é chamado a abrir-se no seu relacionamento com os outros. O outro é uma ajuda necessária ao crescimento e à felicidade de cada um.
Acolher sempre o outro que se apresenta é dar oportunidade de abertura, de comunicação do seu “mistério” escondido, pois acolher é fazer no meu íntimo um lugar para o “outro”, esteja ou não de acordo com a minha personalidade.
A realização da pessoa só se dá no ENCONTRO, na resposta adequada ao chamado do Tu e na aceitação. O diálogo se faz necessário para saber se dar e receber na verdade do encontro, na transparência do seu pensar e do seu agir.

Na busca do encontro, buscamos o sagrado. A busca de Deus é inerente e próprio da natureza humana. Nós, humanos, precisamos aprender a sermos humanos e, mais do isso, a criar um mundo humano. Um dos problemas fundamentais que decorre da nossa condição é o de dar sentido à vida.

Dar sentido a partir da consciência de sermos criados à imagem e semelhança de Deus. Seres humanos criados como criaturas humanas, inteligentes e criativas, para zelar e tornar mais fecundas a obra de Deus. Essa consciência manifesta-se no despertar do desejo de cada ser de um construir-se, afirmar-se e engajar-se num processo de construção de um mundo mais justo e fraterno.

Como os autores bíblicos interpretam essa obra de Deus?

Ela é apresentada em 3 etapas: Criação inicial, histórica e escatológica.

Criação inicial, ou criação original afirma-nos que o universo não é eterno, mas tem um começo. Tendo um primeiro momento, a criação não se completa de uma vez, mas encontra-se em processo.
Deus cria com o Espírito, o sobro divino que pairava na superfície das águas (Gn 1, 1-2). A doutrina cristã solidificou, no imaginário popular, a afirmação de que Deus criou tudo “do nada”. É quase como uma afirmação de princípio, frequentemente sem se interrogar sobre a profundidade e as consequências dessa afirmação.

Criação histórica – exprime o processo criacional, mostrando a ação criadora divina no andamento da história mundial. O povo de Israel viu em alguns eventos marcantes de sua história particular, especialmente na experiência de libertação do Êxodo, a manifestação recriadora de Deus. Deus se serve de seu servo Moisés para fazer o seu povo sentir-se renascido.
Assim, também hoje, somos chamados a colaborar, na qualidade de cocriadores de Deus, na obra da criação, que adquire um colorido eminentemente ético, mediante o trabalho perseverante e as ações justas e benfazejas em favor do bem e da harmonia universal.
A criação é um acontecimento que surge da Palavra (cf. Gn 1,3-29).
A Palavra que é comunicação, é uma relação, é um dirigir-se a alguém. Por ser criada pela Palavra, a criação ganha a possibilidade de estar em relação comunicativa com seu Criador.
A Palavra é fonte de respeito à alteridade das criaturas, que hão de se experimentar autônomas e independentes, mas é também convite a responder à palavra, ou seja, a fazer-se “cocriadoras”, companheira na criação.

Criação escatológica – Ela é o sentido último, a explicação última da primeira criação. Também chamada de “Nova criação”, novos céus e nova terra, está vinculada ao anúncio do Reino de Deus feito por Jesus.

Neuza Silveira de Souza
Coordenadora do Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte.