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[Artigo] Catequese e Liturgia: uma relação de interação mistagógica – Neusa Silveira de Souza

Na catequese encontramos as verdades fundamentais da fé, necessárias para a caminhada do cristão que vai, desde os seus primeiros passos de vida, construindo também o seu itinerário de fé através da Palavra celebrada com seus gestos e ritos; nela refletindo toda a vida Daquele que dá sentido para a nossa vida. O processo de Iniciação à vida Cristã constrói todo esse itinerário que leva ao encontro pessoal cada vez maior com Jesus Cristo.

No âmbito da Iniciação Cristã, a mistagogia designa a catequese sobre os sacramentos e à profundidade espiritual da “interpretação dos ritos litúrgicos”.

Quando falamos de mistagogia, estamos nos referindo a Celebração Litúrgica que toma sua forma verdadeiramente particular, de uma catequese mistagógica, fazendo-se necessário uma explicação mais profunda aos catequizandos e todos os batizados do sentido, da natureza das ações litúrgicas de que participam: o batismo e a eucaristia. Na mistagogia também são incluídas as explicações sobre todos os demais ritos compreendidos na celebração do batismo, com referência especial à renúncia a Satanás, a profissão de fé e ao dom do Espírito que se associa a unção. O batismo, de fato, compreende várias unções, colocadas tanto antes quanto depois da imersão batismal. Incluem-se também, aqui, como mistagógico, a ordenação sacerdotal e a unção dos enfermos.

Há uma teologia contida nas catequeses mistagógicas, que se faz necessária para explicar sobre os mistérios dos sacramentos. Para com as crianças deve-se cuidar da linguagem apropriada para leva-los a experienciar toda a beleza dos mistérios da fé. Para os adultos que já receberam os sacramentos e não tiveram a oportunidade de fazer essa catequese mistagógica, ou seja, catequese sobre os mistérios da fé cristã, ela se torna apropriada, pois ao fazer a experiência a partir dos seus conteúdos apresentados, eles colocam-se em evidência, sobretudo, o seu caráter poético e expõe-se à plena luz o mistério de salvação que acentua seu fascínio.

Os textos mistagógicos são uma verdadeira e adequada celebração da grandeza e do fascínio do evento de salvação. Por seu caráter de exposição dos acontecimentos da salvação, com a capacidade de exaltar seu valor e torná-los atraentes, todos estes textos são vistos como tributários do gênero literário da mistagogia. Desta maneira, a área de abrangência dos textos mistagógicos amplia-se desmedidamente, tanto naquilo que diz respeito à sua época, englobando também o período neo-testamentário, quanto naquilo que diz respeito aos textos, que não se refiram aos ritos da iniciação cristã. Para os autores teólogos a mistagogia pertence ao campo da espiritualidade e é nesta área que ela obtém seu efeito.

Catequeses Mistagógicas

É a partir dos estudos das catequeses mistagógicas do século IV que os autores contemporâneos, trazendo-as para nossa realidade, puderam vê-las como uma metodologia utilizada para bem compreender os mistérios da fé cristã. Passaram a utilizá-las como um método para interpretar a liturgia da Iniciação cristã, de modo que os vários ritos estejam em relação com os acontecimentos salvíficos descritos na escritura. Trata-se de uma teologia que articulou a Sagrada escritura e a Tradição, fecundando harmoniosamente a transmissão catequética da fé. Em sua dinâmica pedagógica, procura contemplar todas as etapas para o conhecimento e aprofundamento da fé em Jesus Cristo: Leitura e meditação do Evangelho, vida em comunidade, experiência de amor, partilha, participações nas celebrações sacramentais, preparação para o testemunho e a missão.

Nas catequeses iniciáticas, diante das tarefas de evangelização no mundo de hoje, com suas inúmeras interpelações, encontramos nas catequeses mistagógicas inúmeras fontes e sinais que nos animam e nos dizem que as pessoas, enquanto imagem e semelhança de Deus, se abrem à compreensão dos mistérios da fé que levam a uma adesão pessoal e conversão humana e, ainda, possibilita novas experiências que levam ao encontro com o outro, consigo e com o mundo. É uma experiência cristã de Deus que é inseparável das fontes da Revelação Bíblica. Uma experiência do Deus Uno Trino (Trinitária) que revela uma relação de comunhão e alteridade. Uma experiência que convida a um sair de si, como Deus mesmo nos mostrou, enviando seu próprio Filho ao mundo.

A importância da liturgia

A relação entre os ritos e os acontecimentos da salvação, é uma relação real. A celebração litúrgica é salvífica porque a relação que ela tem com os acontecimentos da salvação é real. Assim entendemos porque no cristianismo, os símbolos não são simplesmente um conjunto para exprimir o desejo de aproximar o ser humano do mistério, mas são elementos visíveis de uma realidade total em que Cristo, pela Igreja, comunica Sua presença o que os símbolos significam: o mistério da história.

É o mistério de Deus, que tem sua expressão na Escritura e liturgia, cujo método de conhecimento para ambas as modalidades é a mistagogia, método que ajuda a compreender o que significam os sacramentos para a vida. Esse método mistagógico possui a arte de conduzir os fiéis para dentro do mistério celebrado, revelado através de cada rito, gesto e símbolo.

Conceituar e definir o Rito celebrado não é tarefa fácil. Tanto os ritos quanto os símbolos revelam que não basta um breve estudo para a transmissão oral da fé; é preciso ir além da fala e fazer com que a fé seja experimentada pelos sentidos, celebrada através dos ritos e símbolos.

Nas celebrações litúrgicas, composta de vários ritos, encontram-se muitos símbolos que colocam os fiéis em comunicação com o Mistério da fé: Paixão, morte e Ressurreição de Cristo. O símbolo mais profundo e último da liturgia cristã é o próprio cristo, que se tornou humano, Verbo Encarnado. A liturgia, através dos seus ritos e símbolos, torna-se reveladora de Sua presença em nosso meio.

Nas catequeses atuais somos chamados a nos apropriarmos dos ritos e símbolos próprios da fé do cristianismo para catequizar, evangelizar e comunicar a fé. Mas necessário buscar a competência e capacidade para bem  compreender os mistérios da fé.

 

 

 

 

Neuza Silveira de Souza
Secretariado Arquidiocesano Bíblico-Catequético de Belo Horizonte