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[Artigo] A liturgia e a vida espiritual – Padre Márcio Pimentel, Secretariado Arquidiocesano de Liturgia de Belo Horizonte

A espiritualidade e a Liturgia

A vida cristã é, por assim dizer, nutrida pela Liturgia: “O nosso pão seja Cristo; a fé nos seja a bebida; o Santo Espírito bebamos nas fontes puras da vida

Dando continuidade à primeira parte deste artigo, publicada na edição anterior do Jornal Opinião e Notícias digital , vale destacarmos um aspecto relevante na Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium (SC). Trata-se da importância que esse documento atribui às celebrações na elaboração de uma maneira de ser, conforme a nova condição do ser humano no mundo a partir do Batismo e da Crisma:

O Sagrado Concílio propõe-se a fomentar a vida cristã entre os fiéis […]. Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia. A Liturgia […] contribui em sumo grau para que os fiéis exprimam na vida e manifestem aos outros o mistério de Cristo e a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultâneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos. (SC 1)

Já em sua introdução, a SC expressa a compreensão que é nas celebrações da Igreja que os fiéis haurem o verdadeiro espírito cristão. Por ela podem associar-se a Cristo e, bebendo de seu Espírito, manter-se dentro daquela relação parental com o Pai e o Filho, oferecida pela regeneração batismal. A vida cristã é, por assim dizer, nutrida pela Liturgia: “O nosso pão seja Cristo; a fé nos seja a bebida; o Santo Espírito bebamos nas fontes puras da vida.” (LH)

Jesus Castellano em sua obra “Liturgia e Vida Espiritual” (Paulinas: 2008, p. 33) afirma que
o modo habitual […] como o mistério da salvação nos é revelado ou comunicado é pela palavra e pelo sacramento da igreja em suas diversas expressões; daí o nexo indissolúvel entre liturgia e vida espiritual cristã.
E ainda:
A liturgia é colocada no contexto normal da vida cristã como ponto de inserção concreto nessa história da salvação, contínua celebração do mistério de Cristo e do Espírito, caminho que acompanha a experiência do mistério cristão, desde o Batismo até o último momento da passagem pascal da morte. […]

A finalidade da vida espiritual é a realização da resposta existencial ao dom de Deus realizada em uma conformação à imagem e aos sentimentos de Cristo, segundo a própria vocação particular da Igreja. (CASTELLANO, p. 34;53)
Não há vida cristã – leia-se, vida espiritual – sem Liturgia. A celebração do Mistério Pascal de Cristo não é um acréscimo à experiência de fé e muito menos algo sobre o que podemos prescindir. A celebração é cume e fonte da vida nova em Cristo. Integra nosso processo de santificação, de modo que nosso querer e nosso agir esteja em consonância com a vontade de Deus. (cf. Oração do Dia do XI DTC)

Como a Liturgia ‘compõe’ a vida espiritual
É sabido que, no livro do Gênesis, a criação é narrada poeticamente como consequência do ‘falar’ de Deus. Ele diz e as coisas passam a existir, canta o salmista (cf. Sl 104). A criação perpetua-se no contínuo agir de Deus, que chama a existência – ex nihilo. Tudo passa a existir à medida que é chamado a existência.

O primeiro capítulo do Gênesis faz desfilar diante de Deus a obra da criação, na medida em que Deus convoca para que venha à luz. É sua Palavra que tudo cria. É ela que chama e comunica a vida. No hebraico, emprega-se o verbo BaRa. Esta palavra indica o início das coisas, seu start. Em certa medida, pode-se associar a ela a ideia de ‘novidade’. Quando a Sagrada Escritura foi traduzida do hebraico para o grego – a chamada versão ‘dos Setenta (LXX) ou Septuaginta – o verbo acolhido foi poieo. Poderia aqui significar ‘ação criativa’ Ele está na raiz da palavra ‘poesia’. Deus, então, é apresentado no Gênesis como ‘poeta’, pois é por sua Palavra que traz à existência uma obra original, saída do nada.

Pois bem, na Liturgia quem age é a Palavra e o Espírito de Deus, como na criação narrada poeticamente no livro do Gênesis. Esta Palavra não é pura oralidade divina, mas refere-se agora a uma pessoa também em sua gestualidade humana: Jesus de Nazaré. Nas celebrações da Igreja, é esta a Palavra da qual se faz memória. Também a podemos chamar de ‘Evangelho’, pois é Notícia Boa, Palavra Nova que regenera, rejuvenesce, torna novo aquele que a escuta. A Liturgia é – toda ela – acontecimento da Palavra de Deus. Por ela, Deus em seu Filho continua a nos ‘compor’, como Poeta. Somos um texto de Deus. Fomos e continuamos a ser ‘tecidos’ por ele. Ele fia a trama da nossa existência (cf. Sl 139), mas o faz agora com as fibras da carne de Jesus, seu Filho. E assim é criada em nós uma nova existência.

Crispino Valenziano, filósofo e teólogo dedicado à Liturgia em sua perspectiva artística, afirma que uma das características primordiais da Liturgia é ser poiética, quer dizer, ação criativa em que se dá a biologia espiritual: A Palavra equivale a ação criadora (poiesis) de Deus e também do ser humano. (VALENZIANO. Bologna, 1999, p.178) Por essa razão, cada vez que o Evangelho é proclamado na Igreja, traçamos em nosso corpo o sinal de nossa redenção – a cruz – como gesto batismal. Ele nos recorda que é pelo ecoar da Boa Nova de Jesus que nos marca carne (= existência no mundo) que fomos tornados novas criaturas, animadas pelo Espírito dEle (ruah), que se funde ao nosso e nos fornece a identidade de filhos e filhas de Deus (psique). Assim, a Liturgia compõe nossa espiritualidade.

 

 

 

 

 


Padre Márcio Pimentel, presbítero da Arquidiocese
de Belo Horizonte, membro do Secretariado
Arquidiocesano de Liturgia, doutorando em Liturgia
Pastoral pelo Instituto de Liturgia Pastoral da
Abadia de Santa Justina em Pádova-Itália