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[Artigo] A Liturgia Comparada como método de estudo (1) – Padre Márcio Pimentel, Paróquia São Sebastião e São Vicente

A nostalgia é uma daquelas tentações que sempre rondam a comunidade cristã: “tentação bastante antiga”, segundo Massimo Faggioli, teólogo e historiador da Igreja. O estudioso afirma que essa tentação pode levar ao que ele denomina “estado de negação”, de modo que sejamos iludidos sobre um possível retorno ao passado. Mas, como dissera outrora o Papa Francisco, voltar ao passado não é possível. Em matéria litúrgica, seria inclusive um insulto contra o Espírito Santo, que dotou a Igreja de formas novas e necessárias para fazer memória do evento Pascal de Cristo. Ao passado não se pode retornar, mas é possível considerá-lo como fonte.

Nesse sentido é que se compreende o conjunto dos procedimentos eclesiais que visaram recuperar a jovialidade da experiência evangélica na Igreja pós-conciliar. Dentre esses empenhos, a reforma litúrgica rebrilha, sobretudo, por seu caráter de ‘retorno às fontes’ bíblicas, litúrgicas e patrísticas. É necessário conhecer esse processo longa e responsavelmente preparado por quase um século, e que resultou na reforma dos ritos. Na verdade, é preciso conhecer mais a fundo os vários processos de reforma e transformação pelos quais a Liturgia passou, desde o cenáculo, para valorar de maneira significativa aquilo que o Concílio Vaticano II nos proporcionou.

O marco da Liturgia Comparada

Construir a ‘história da Liturgia’ é tarefa, sobretudo, para especialistas – muito embora devamos todos estudar e beber de suas descobertas e nos formar aproveitando seus empenhos e pesquisas. Dentre vários especialistas do estudo da historiografia litúrgica, temos Anton Baumstark que nos brindou, na década de 50 do século passado, com seu método de estudo da Liturgia chamado “Liturgia Comparada”.

No primeiro capítulo de sua publicação, Baumstark afirma que:

“Na liturgia se escuta como bate o coração da igreja. Na oração que se eleva até o trono de Deus, na plenitude da graça sacramental que desce sobre a comunidade dos fiéis, se capta a poderosa respiração do corpo místico de Cristo […] Estas pulsações, pois, jamais darão lugar ao rigor cadavérico que se apresenta entumecido por uma definitiva imobilidade. Se este intercâmbio de orações e de graças, ‘sustança’ da vida litúrgica, deve ser invariável com o passar de todos os séculos e idêntico em todos os ritos, as formas mesmas que a liturgia toma, se encontram, por sua natureza, submetidas a uma constante evolução”.

O magistério eclesial concorda com esta intuição de Baumstark. No primeiro número da Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia (SC), encontraremos a seguinte afirmação:

“O sagrado Concílio propõe-se fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar todos ao seio da Igreja. Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia”.

Padre Márcio Pimentel
Especialista em Liturgia pela PUC-SP e mestrando em Teologia na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia