Você está em:

[Artigo] A importância da pesquisa histórica no Memorial da Arquidiocese de BH- Flávia Costa Reis (Historiadora)

O Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte, inaugurado no ano de 2010, tem buscado, ao longo de sua existência, a proteção dos bens culturais da Igreja Católica, no âmbito dos 28 municípios que compõe a Arquidiocese. Desde o ano de 2016, integra o Vicariato Episcopal para a Ação Missionária nas Paróquias Histórico-Barrocas – VEAM, tendo o Bispo auxiliar Dom Vicente de Paula Ferreira, C.Ss.R, como Bispo referencial, e o Padre Wellington Santos, Vigário Episcopal. Sua atuação se dá por meio de vários projetos, que são levados adiante por uma equipe multidisciplinar, formada por arquitetos, museólogos, historiadores e arquivistas, além das parcerias firmadas com restauradores, engenheiros, geógrafos etc.

Será explicitado aqui, em especial, a função exercida pelo historiador, trabalho em que se busca perpassar por vários campos de estudo, com um objetivo em comum: o conhecimento mais aprofundado dos bens culturais que se pretende proteger. Entra-se, assim, na importância da pesquisa para que se alcance esse conhecimento. Essa pesquisa, notadamente a executada para o Inventário do Patrimônio Cultural, se mostra importantíssima para a catalogação dos bens inventariados, das igrejas e capelas da Arquidiocese, primeiro passo para sua proteção.

Após levantamentos criteriosos em campo, realizados com metodologia aprimorada ao longo dos anos, as peças inventariadas são, então, estudadas em seus aspectos histórico, iconográfico e estilístico, além de serem feitas as análises técnicas e de estado de conservação. Todas elas são executadas tanto nos bens imóveis, os edifícios das igrejas e capelas pertencentes à Arquidiocese, quanto nas peças classificadas bens integrados – retábulos, pias batismais, balaustradas, etc. –, ou bens móveis, como peças de imaginária, cálices, castiçais e demais objetos litúrgicos ou paramentos.
Em se tratando da pesquisa histórica, esta é executada com mais pormenoridade quando se trata dos edifícios – igrejas e capelas –, entretanto ela também é realizada quando se trata até dos menores bens móveis. Apesar da dificuldade em se encontrar documentos com dados sobre sua aquisição ou fabricação, busca-se quaisquer informações a eles relacionadas em livros de Tombo, de receitas e despesas, notas e escritos avulsos, enfim, toda documentação encontrada, que seja referente à igreja em estudo.

A pesquisa é, assim, executada por todos os meios que temos à disposição no momento dos levantamentos, seja em arquivos eclesiásticos arquidiocesanos e paroquiais – de Belo Horizonte, Mariana ou mesmo Rio de Janeiro (caso haja possibilidade) –, Arquivo Público Mineiro, Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte, Arquivos do Iphan e Iepha/MG, entre outros, além daqueles com conteúdo disponibilizado online, como Arquivo Nacional da Torre do Tombo e a documentação do Arquivo Histórico Ultramarino, digitalizada no Projeto Resgate da Biblioteca Nacional.

Dá-se, a título de exemplo, a documentação importantíssima que nos foi enviada pelo Arquivo Central do Iphan, no Rio de Janeiro, referente à Igreja de São Francisco de Assis, de Sabará, quando do período de execução do seu livro de inventário. Nela, pode-se ver listagens executadas por volta do ano de 1900, em que contavam todos os bens existentes na igreja à época, muitos deles, felizmente, ainda presentes.

Outro exemplo importante a mencionar, é sobre as pesquisas efetuadas à ocasião do inventário da Capela de Santana, em Arraial Velho, Sabará, quando se conseguiu descobrir, no livro de Batismo da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Raposos, paróquia a qual a capela pertencia à época, o primeiro registro de batizado efetuado, quando ainda era apenas um altar portátil e, logo em seguida, o primeiro batizado realizado na nova edificação. Tal registro, importantíssimo, nos remete a quando a capela estava em construção e começou a ser utilizada para culto religioso, em meados do século XVIII, tempos faustosos da mineração.

Registro de batismo de 1757 na Capela de Santana do Arraial Velho – Livro de Batismos da paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Raposos/MG (1736-1760)
Fonte: Acervo Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte

Sendo assim, todas as informações encontradas tornam-se importantes para um completo e satisfatório preenchimento das fichas catalográficas. Espera-se que o estudo efetuado pelo Inventário do Patrimônio Cultural, do Memorial da Arquidiocese de Belo Horizonte, seja uma abertura para outras pesquisas, em que a produção do conhecimento acadêmico se alie à preservação do patrimônio, sempre considerando a devoção das comunidades, cuja fé é o impulso inicial para a criação de tantas peças importantes para a história da arte mineira.