Você está em:

 

Ícone de André Rublev: a Santíssima Trindade

A amizade possui fundamento transcendente. Deus é, em si mesmo, amizade, porque nele há três pessoas distintas que vivem em perfeita comunhão. Desde toda a eternidade, Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Os três subsistem numa eterna relação de amor-amizade. 

Segundo Santo Agostinho, em Deus há o Amante, o amado e o amor. Deus-Pai é o amante. Jesus-Filho, o amado. O amor é o Espírito Santo, comunhão de amor entre o Pai e o Filho. O Espírito faz do Pai e do Filho amigos eternos, inseparáveis. Deus comunica aos homens o seu mistério de maneira trinitária.

No Antigo Testamento, Deus faz uma promessa a Abraão e uma aliança com todo o povo que libertou do Egito por meio de Moisés. Ele constitui um povo com o qual estabelece verdadeira aliança de amizade e se torna o Deus de Israel.

No Novo Testamento, através da vida de Jesus, a autocomunicação do mistério de Deus chega à sua plenitude. Só por meio de Jesus sabemos que Deus é eterna amizade: Pai, Filho e Espírito Santo. Deus-Pai quer ser amigo dos homens, mas tal amizade se realiza na encarnação, morte e ressurreição do Filho. O Pai nos entrega o Filho. O Filho se entrega ao Pai por nós e se entrega a nós. Tal entrega acontece no Espírito Santo, Espírito que nos é entregue pelo Pai e pelo Filho. O Pai e o Filho se entregam a nós no Espírito. O Espírito não é propriamente o amigo dos homens, mas causa imediata da amizade dos homens com Cristo. O Espírito nos faz amigos de Jesus. Ele não é, portanto, a própria amizade.  Estando em comunhão com Cristo por graça do Espírito, nos tornamos filhos e amigos do Pai.

 

A amizade toca o fundamento do cristianismo. O cristão, por ser amigo de Jesus, torna-se amigo de todos. O próprio Jesus deixa-lhe esta missão

Jesus, durante a sua existência histórica, mostra-se verdadeiramente amigo de todos. Anuncia a Boa Nova do Reino, cujo epicentro se encontra na amizade fraterna. Ele quis que os homens se tornassem amigos de Deus-Pai e amigos uns dos outros. Aproximou-se dos marginalizados, dos sem amigos. A ninguém exclui do seu círculo de amigos. Prostitutas e cobradores de impostos entram nesse círculo e se convertem, seduzidos pela beleza das palavras de Jesus, pela ternura de sua misericórdia.

Jesus compreende sua missão como amizade. “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi do meu Pai” (Jo 15,15). Ele assume a condição humana para se tornar o grande amigo dos homens. Seus discípulos não são servos, mas amigos. E Jesus não abandona os seus amigos: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós” (Jo 15,4). 

A amizade toca o fundamento do cristianismo. O cristão, por ser amigo de Jesus, torna-se amigo de todos. O próprio Jesus deixa-lhe esta missão. “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá sua vida por seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando”. (Jo 15,12-14). O mandamento do amor não se traduz numa solidariedade fria e indiferente. Vive-se o amor num verdadeiro clima de amizade, o que exige real envolvimento com os dramas e angústias dos que nos cercam.

 

Quando chegamos a ser amigos, nossa atitude reflete o amor-amizade de Deus em nós

Quando chegamos a ser amigos, nossa atitude reflete o amor-amizade de Deus em nós. Toda amizade sincera que há no mundo, mesmo fora dos muros do cristianismo, é vestígio da presença real de Deus-amigo na história. A vida dos santos atrai não tanto por seus feitos grandiosos, mas por sua amizade-solidariedade com os outros, especialmente com os abandonados. Os santos são grandes amigos de Deus e dos homens.

A amizade cristã se mostra universal e nos abre a todos. Mas o que dizer daqueles que se tornam nossos amigos de uma maneira especial? Há os que se tornam amigos íntimos, pessoas com as quais compartilhamos nossos sentimentos e angústias mais profundos. Pessoas a quem revelamos nossos segredos. Que dizer dessas amizades? O próprio Jesus, amigo de todos, parece ter se aproximado mais de alguns. João tornou-se conhecido como o discípulo amado. “Jesus ficou perturbado em seu espírito e declarou abertamente: ‘Em verdade, em verdade vos digo, um de vós há de me trair!’ Os discípulos olhavam uns para os outros, sem saber de quem falava. Um dos discípulos, a quem Jesus amava, estava à mesa reclinado ao peito de Jesus” (Jo 13,21-23).  Este “a quem Jesus amava” designa certa proximidade de Jesus com João.

 

A aflição emerge como prova da amizade. O verdadeiro amigo não abandona na dificuldade

João relata, ainda, a especial amizade que Jesus nutria por Maria, Marta e Lázaro, os irmãos de Betânia. Quando Lázaro veio a falecer, suas irmãs mandaram um recado para Jesus. “Senhor, aquele que amas está enfermo” (Jo 11,3). O evangelista constata: “Jesus amava Marta, Maria, sua irmã, e Lázaro” (Jo 11,5). Jesus se emociona ao se encontrar com suas amigas: “Jesus ficou intensamente comovido em espírito. E sob o impulso de profunda emoção” (Jo 11,33). E antes de ressuscitar Lázaro, “Jesus pôs-se a chorar” (Jo 11,34). O episódio revela que Jesus, amigo de todos, tornou-se amigo de alguns de um jeito especial. Jesus possuía uma psicologia humana e os afetos mais nobres, era capaz de construir relações profundas.

Em nossa existência cristã, ainda que chamados a cultivar uma amizade com todos, temos amigos especiais. Pessoas mais próximas, que nos acolhem em qualquer situação. Eles sabem nos ouvir em profundidade, sem preconceitos ou julgamentos moralizantes. Suas palavras nos iluminam. Buscam sempre o nosso bem. É uma grande graça encontrar pessoas assim. Seu amor nos sustenta e encoraja. A sabedoria popular cunhou um ditado para expressar este tipo de amizade. “Se conhece o amigo certo nas horas incertas”.  Reza ainda o ditado latino: “Amicus vitae medicamentum est” (O amigo é o remédio da vida). E canta Roberto Carlos: “Não preciso nem dizer, tudo isto que eu lhe digo, mas é muito bom saber, que você é meu amigo”.

 

Um amigo fiel é um remédio de vida e imortalidade, quem teme o Senhor, achará este amigo” (Eclo 6,14-16)

A sabedoria popular encontra eco na Sagrada Escritura, que oferece critérios para o discernimento da verdadeira amizade. Diz o Eclesiástico: “Dá-te bem com muitos, mas escolhe para conselheiro um entre mil. Se adquirires um amigo, adquire-o na provação, não confies nele tão depressa, pois há amigo em certas horas que o deixará de ser no dia da aflição” (Eclo 6,6-8). A aflição emerge como prova da amizade. O verdadeiro amigo não abandona na dificuldade. Já o amigo fiel revela-se um tesouro inestimável, superior ao ouro e à prata. “Um amigo fiel é uma poderosa proteção, quem o achou, descobriu um tesouro. Nada é comparável a um amigo fiel, o ouro e a prata não merecem ser postos em paralelo com a sinceridade de sua fé. Um amigo fiel é um remédio de vida e imortalidade, quem teme o Senhor, achará este amigo” (Eclo 6,14-16).


 

 

 

 

 

 

 

Pe. Paulo Sérgio Carrara, CSSR
 Professor na Faje e no Ista