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Ainda que caminhe por um vale escuro (2)

Ao lado dos ateus

Em lugar de santos “arcaicos”, os místicos são os mais modernos entre os santos. O mundo de hoje conhece uma nova categoria de pessoas: os ateus de boa fé, aqueles que vivem dolorosamente a situação do silêncio de Deus, que não crêem em Deus mas não se vangloriam disso; experimentam mais a angústia existencial e a falta de sentido de tudo; vivem também eles, a seu modo, em uma noite escura do espírito. Albert Camus lhes chamava «os santos sem Deus». Os místicos existem, sobretudo para eles; são seus companheiros de viagem e de mesa. Como Jesus, eles «estão sentados à mesa dos pecadores e comeram com eles» (Cf. Lc 15, 2).

Isto explica a paixão com a qual certos ateus, uma vez convertidos, lançaram-se sobre os escritos dos místicos: Claudel, Bernanos, os dois Maritain, L. Bloy, o escritor J. -K. Huysmans e muitos outros sobre os escritos de Ângela de Foligno; T. S. Eliot sobre os de Giuliana de Norwich. Ali encontravam a mesma paisagem que haviam deixado mas desta vez iluminada pelo sol. Este ano se celebra o 50º aniversário da primeira representação de «Esperando Godot», o drama mais representativo do teatro do absurdo, mas poucos sabem que seu autor, Samuel Beckett, em seu tempo livre lia São João da Cruz.

A palavra «ateu» pode ter um sentido ativo e um sentido passivo. Pode indicar aquele que rejeita Deus, mas também aquele que –pelo menos assim lhes parece– é rejeitado por Deus. No primeiro caso, trata-se de um ateísmo de culpa (quando não é de boa fé), no segundo de um ateísmo de pena, ou de expiação. Neste último sentido podemos dizer que os místicos, na noite do espírito, são os a-teus, os sem Deus. Madre Teresa tem palavras que ninguém havia suspeitado nela:

«Dizem que a pena eterna que sofrem as almas no inferno é a perda de Deus… Em minha alma eu experimento precisamente esta terrível pena da perda, de Deus que não me quer, de Deus que não é Deus, de Deus que na realidade não existe. Jesus, te rogo, perdoa minha blasfêmia» (16).
Mas se dá conta da natureza distinta, de solidariedade e de expiação, deste «ateísmo» seu:
«Quero viver neste mundo tão longe de Deus e que deu as costas à luz de Jesus, para ajudar as pessoas, carregando com algo de seu sofrimento» (17).

Os místicos chegaram a um passo do mundo onde vivem os sem Deus; experimentaram a vertigem de precipitar-se para baixo. Escreve Madre Teresa a seu pai espiritual:
«Estive a ponto de dizer “não”… Sinto-me como se algo, um dia ou outro, tivesse de romper em mim». «Rogue por mim, para que eu não rejeite Deus nesta hora. Não quero fazê-lo, mas temo que possa fazê-lo» (18).

Por isto os místicos são os evangelizadores ideais no mundo pós-moderno, onde se vive «etsi Deus non daretur», como se Deus não existisse. Recordam aos ateus honestos que não estão «longe do reino de Deus»; que lhes bastaria dar um salto para encontrar-se ao lado dos místicos, passando do nada ao tudo. Tinha razão Karl Rahner ao dizer: «O cristianismo do futuro, ou é místico ou não será». Padre Pio e Madre Teresa são a resposta a este sinal dos tempos. Não devemos «desperdiçar» os santos reduzindo-os a dispensadores de graças ou de bons exemplos.

5. Nossa pequena noite

Os místicos têm contudo algo a dizer aos crentes, e não só aos ateus. Não são uma exceção, ou uma categoria à parte de cristãos. Mostram mais, como de forma ampliada, o que deveria ser a plena expansão da vida de graça. Uma coisa aprendemos especialmente da noite escura dos místicos, e em particular da de Madre Teresa; como comportar-nos em tempo de aridez, quando a oração se converte em luta, fatiga, um golpe da cabeça contra um «muro de lamentação».

Não é necessário insistir na oração de Madre Teresa em todos aqueles anos passados na escuridão; a imagem dela em oração é a que todos temos ainda ante os olhos. Uma série de belíssimas orações se encontra entre a herança mais preciosa que ela deixou a suas filhas e à Igreja. De Jesus, o evangelista Lucas diz que, «sumido em agonia, insistia mais em sua oração», factus in agonia prolixius orabat (Lc 22, 44). É o que se observa também na vida destas almas.

A aridez na oração, quando não é fruto de dissipação ou de pactos com a carne, mas permissão de Deus, é a forma atenuada e comum que a noite escura advém na maioria das pessoas que tendem à santidade. Nesta situação é importante não se render e começar a omitir a oração para entregar-se ao trabalho, visto que se consegue bem pouco estando em oração. Quando Deus não está, é importante ao menos que seu lugar permaneça vazio e que não seja ocupado por algum ídolo, especialmente o que chamamos ativismo.

Para impedir que isto ocorra é bom interromper cada momento o trabalho para elevar ao menos um pensamento a Deus, ou para sacrificar-lhe simplesmente um pouco de tempo. Em tempo de aridez há que descobrir um tipo de oração especial que a beata Ângela de Foligno definia como a oração forçada e que diz ter praticado ela mesma: «É bom e muito agradável a Deus que tu ores com o fervor da graça divina, que veles e te fatigues ao realizar toda ação boa; mas é mais agradável e aceitável ao Senhor se, faltando a graça, não diminuas tuas orações, tuas vigílias, tuas boas obras. Atue sem a graça da mesma maneira como o fazias quando a possuías… tu fazes tua parte, filho meu, e Deus fará a sua. A oração forçada, violenta, é muito agradável a Deus» (19).

Esta é uma oração que se pode fazer mais com o corpo que com a mente. Existe uma secreta aliança entre a vontade e o corpo e há de usá-la: a razão. Com freqüência, quando nossa vontade não pode ordenar à mente que tenha ou não certos pensamentos, pode ordenar ao corpo: os joelhos que se dobram, as mãos que se juntam, os lábios que se abrem e pronunciam algumas palavras, por exemplo, «Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo».

Um místico oriental, Isaac o Sírio, dizia: «Quanto teu coração está morto e já não temos a mínima oração nem súplica alguma, quando Ele vier, que nos encontre prostrados com o rosto em terra perpetuamente». Madre Teresa conheceu também esta oração «forçada».
«Não posso dizer-lhe o mal que senti outro dia; houve um momento no qual por pouco rejeitei aceitar. Então tomei decididamente o Rosário e o rezei lentamente e com calma, sem meditar nem pensar em nada» (20).

Simplesmente permanecer com o corpo na igreja, ou no lugar eleito para a oração, simplesmente estar em oração, é então o único modo que fica para continuar sendo perseverantes na oração. Deus sabe que poderíamos ir e fazer centenas de coisas mais úteis e que nos agradariam mais, mas permanecemos ali, consumimos em branco o tempo a Ele destinado por nosso horário ou por nosso propósito.

A um discípulo que se lamentava continuamente de não poder orar por causa das distrações, um ancião monge, ao que se havia dirigido, lhe respondeu; «que teu pensamento vá onde queira, mas que teu corpo não saia da cela!» (21). É um conselho que também nos serve, quando nos encontramos em situação de distrações crônicas que já não estão em nossas mãos poder controlar: que nosso pensamento vá aonde queira, mas que nosso corpo permaneça em oração!

Em tempo de aridez, devemos recordar a dulcíssima palavra do Apóstolo: «O Espírito vem em ajuda de nossa fraqueza…» (Rm 8, 26 s). Ele, sem que o notemos, enche nossas palavras e nossos gemidos de desejo de Deus, de humildade, de amor. O Paráclito se converte, então, na força de nossa oração «Fraca», na luz de nossa oração apagada; em uma palavra, na alma de nossa oração. Verdadeiramente, como diz a Seqüência, Ele «rega o que é árido», rigat quod est aridum.

Tudo isto sucede por fé. Basta que eu diga: «Padre, tu me presenteaste o Espírito de Jesus; formando, por isso, “um só Espírito” com Ele, eu rezo este salmo, celebro esta Santa Missa, ou estou simplesmente em silêncio, aqui, em tua presença. Quero dar-te a glória e a alegria que te daria Jesus, se fosse Ele quem te orasse ainda desde a terra». Com esta certeza, concluímos nossa reflexão orando: «Espírito Santo, Tu que intercedes no coração dos crentes com gemidos inefáveis, chama o coração de tantos de nossos contemporâneos que vivem sem Deus e sem esperança neste mundo. Ilumina a mente daqueles que neste momento estão delineando a fisionomia de nosso continente; faz-lhes compreender que Cristo não é uma ameaça para ninguém, mas irmão de todos. Que aos pobres, aos pequenos, aos perseguidos e aos excluídos da Europa de amanhã não lhes seja tirado, com culpado silêncio, a garantia que até agora mais lhes defendeu do arbítrio dos grandes e da dureza da vida; o nome do primeiro deles, Jesus de Nazaré!»

Frei  Raniero Cantalamessa, ofmcap
Pregador da Casa Pontifícia

(1) Leyenda Perusina, 72 (Fontes Franciscanas, n. 1626)
(2) Admonições, VI (FF, n. 155).
(3) Pe. Joseph Neuner, S.J., On Mother Teresa’s Charism, “Review for Religious”, Set-Out 2001, vol. 60, vol. 60, n. 5 (Adiante abreviado: JN) (Os documentos citados nesta pregação colocou amavelmente à disposição a Postulação geral da Causa de Madre Teresa).
(4) “There is so much contradiction in my soul, such deep longing for God, so deep that it is painful, a suffering continual – yet not wanted by God, repulsed, empty, no faith, no love, no zeal… Heaven means nothing to me, it looks an empty Place” (JN)
(5) Juan Taulero, Homilia 40 (ed. G. Hofman, Johannes Tauler, Predigten, Friburgo em Br. 1961, p. 305).
(6) Cf. Pe. A. Huart, S.J., Mother Teresa: Joy in the Night, “Review for Religious”, Set-Out 2001. Vol. 60, n. 5 (Adiante abreviado AH).
(7) “Today my soul is filled with love, with joy untold, with an unbroken union of love” (JN)
(8) “I have begun to love my darkness for I believe now that it is a part, a very small part, of Jesus’ darkness and pain on earth” (JN).
(9) “The whole time smiling – Sisters and people pass such remarks – they think my faith, trust, and love are filling my very being… Could they but know – and how my cheerfulness is the cloak by which I cover the emptiness and misery” (AH).
(10) Apophtegmata Patrum, Poemen 37 (PG 65, 332).
(11) G. Varangalakudy, A sister for Gandhi, “The Tablett”, 11 outubro 2003, p. 12
(12) S. Gregorio Magno, Maralia in Job I,3,40 (PL 75, 619).
(13) NMI, 27
(14) “If my pain and suffering, my darkness and separation give you a drop of consolation, my own Jesus, do with me as you wish…Imprint on my soul and life the suffering of your heart… I want to satiate your thirst every single drop of blood that you can find in me… Please do not take the trouble to return soon. I am ready do wait for you for all eternity” (JN).
(15) Cf. S. Caterina da Genova, Trattato del Purgatorio, 4 (ed. Cassiano Carpaneto da Langasco, Sommersa nella fontana dell’amore. Santa Catarina Fieschi Adorno, vol. 2, Le opere, p. 96; cf. também vol. 1. La vita, pp. 49 s.
(16)”They say people in hell suffer eternal pain because of the loss of God… In my soul I feel just this terrible pain of loss, of God not wanting me, of God not being God, of God not reallly existing. Jesus, please forgive the blasphemy” (JN).
(17)”I wish to live in this world which is so far from God, which has turned so much from the light of Jesus, to help them – to take upon myself something of their suffering” (JN).
(18)”I have been on the verge of saying – No… I feel as if something will break in me one day”. “Pray for me that I may not refuse God in this hour – I don’t want to do it, but I am afraid I may do it” (AH).).
(19) Il libro della Beata Angela da Foligno, ed. Quaracchi, Grottaferrata, 1985, p. 576 s.
(20)”The other day I can’t tell you how bad I felt – there was a moment when I nearly refused to accept – deliberately I took the Rosary and very slowly without even meditating – I said it slowly and calmly” (AH).
(21) Apophtegmi dei padri, del manuscrito Coislin 126, n. 205 (ed. F. Nau, en “Revue de l’Orient Chrétien” 13, 1908, p. 279.