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Acúmulo e liberdade cristã

A sabedoria do Evangelho e da mensagem cristã, nos convida a uma liberdade que qualifique o nosso tempo e esforços, orientando-os para Deus como o fez Cristo, o novo Adão, que não viveu para si mesmo, mas se doou aos outros

Pe Danilo César *

O evangelho do domingo que passou nos propôs uma seria reflexão a respeito da nossa relação com os bens materiais, da cobiça e do acúmulo. “Quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?”, pergunta Jesus ao homem que lhe interpela sobre a divisão da herança com seu irmão. O mestre se coloca acima dessas questões, emitindo, na sequência, um contundente alerta: “Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens.” Na sequência, conta uma parábola de um homem que cogita construir celeiros maiores para acumular os seus bens, gabando-se então de poder viver seguro, amparado por sua riqueza acumulada. Não é dito que tenha construído os tais celeiros, mas ainda assim, Deus o declara louco, pois teria de devolver a vida, seu bem mais precioso, e os bens acumulados permaneceriam para quem? A conclusão é lapidar: “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus”.

Vaidade das vaidades!

O sábio pregador do livro do Eclesiastes, intitulado por um termo que não deve ser considerado como nome pessoal, “Coélet”, faz sua advertência de modo mais irônico: “tudo é vaidade”, despertando-nos para a sabedoria diante da vida e dos acontecimentos. Diante da fugacidade do tempo, a sabedoria é o caminho que propõe o escritor sagrado: o resultado (sucesso) das lutas e preocupações pode ser desfrutado por outro “que em nada colaborou”. Assim, diante do tempo que tudo devora, desqualificando os resultados, o próprio trabalho e desgaste, propõe subliminarmente, no modo de empreender a vida, um caminho mais sábio para se trilhar. O salmo 89, lembrando a voracidade do tempo, recorda a condição mortal e “adâmica” do ser humano (filhos de Adão) a ele submetida. Propõe um caminho de sabedoria, fazendo com que o ser humano se oriente para Deus que, ao contrário do homem, é o único que submete o tempo.

Orientar a vida para Cristo

Paulo aos Colossenses, fala aos cristãos como já participantes da vida nova em Cristo: “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto”. Paulo tem em mente a incorporação realizada pelo Batismo. Como membros do corpo de Cristo, os cristãos vivem já das realidades do alto, de junto de Deus “onde está Cristo, sentado à direita de Deus”. Por isso, os cristãos, como cidadãos do alto, devem aspirar “às coisas celestes e não às coisas terrestres”. Vale dizer, Paulo aponta uma condição que supera a situação de submissão temporal experimentada pela condição humana e adâmica. O Cristão, está com Cristo junto de Deus, tal como o velho Adão, outrora no paraíso, ainda sem ter cometido o pecado da desobediência. Contudo, ainda vivendo neste mundo, deve cuidar do seu vínculo com Cristo, fazendo morrer aquilo que pertence à terra. A lista de cinco vícios, que inclui e termina com a cobiça, é considerada por Paulo como idolatria. Em outros termos, idolatria é tudo aquilo que diminui a liberdade dos filhos de Deus, pessoal e alheia. Livres para Deus, o cristão “se renova segundo a imagem do seu Criador”.

Cristo, novo Adão

De maneira propositiva, Jesus Cristo foi aquele que viveu a mais perfeita liberdade. Sua encarnação, lida em chave quenótica (esvaziamento,  cf. Fl 2,6-8), faz-nos reconhecer que ele não fez caso da sua condição de ser igual a Deus – ao contrário de Adão que tentado pela serpente quis se fazer igual a Deus. Diante das tentações no deserto, ele se mantém fiel a Deus e rejeita as ofertas do diabo de usurpar, acumular e trair (cf. Lc 4,1-13). Esquiva-se quando insinuam em fazê-lo rei (cf. Jo 6,14-15), mas toma resolutamente o caminho da cruz (cf. Lc 9,51). Inclina-se para lavar os pés dos discípulos, como faziam os escravos (cf. Jo 13,4-5) e exorta os seus discípulos a não procurarem postos elevados (cf. Mt 20,25-28), primeiros lugares nos banquetes (cf. Lc 14,7-11), mas a servirem como ele mesmo fez (cf. Jo 13,12-15).

Liberdade, não para si mesmo

Conta-se que dois monges se aproximaram das margens de um rio e encontraram uma mulher que não sabia nadar e tinha dificuldades de atravessar para o outro lado. Um deles ponderou: “não podemos ajudá-la, pois ao tocar essa mulher, comprometeríamos o nosso voto de castidade”. O outro, porém, não deu ouvidos. Ofereceu os ombros à mulher e atravessou com ela o rio. Depois de despedi-la teve, contudo, que aguentar as reprimendas do irmão preocupado com o voto de castidade. Chegando ao mosteiro, o irmão incomodado com a ação do outro, procurou o abade para relatar aquilo que ele considerara uma infração. O abade nada respondia… Insistindo, disse: “Mestre, venho lhe dizer que o nosso irmão infringiu o nosso voto de castidade e o senhor nada responde?” O abade então respondeu: “Largue, você essa mulher!”

A liberdade frente ao tempo e às posses requer uma sabedoria que lhe reconheça as suas muitas facetas. Nossos apegos e acúmulos são muitos e apresentam-se de diversas maneiras, muitas de maneiras sutis e enganadoras, revestidas e aparentadas de bondade e certezas infalíveis. A sabedoria do evangelho e da mensagem cristã, nos convida a uma liberdade que qualifique o nosso tempo e esforços, orientando-os para Deus como o fez Cristo, o novo Adão, que não viveu para si mesmo, mas se doou aos outros. Neste sentido, o contrário do acúmulo denunciado pelo evangelho é a partilha. A falsa segurança tem por oposto a confiança em Deus, sabendo cultivar a serenidade diante das inseguranças da vida, que como tudo, são passageiras. Deus não nos desampara, como não desamparou o seu Filho amado. Jesus, confiou em Deus que lhe exaltou como resposta à sua obediência e humilhação (cf. Fl 2,8-9). Livres para Deus e para os irmãos, saberemos nos despojar daquilo que nos pesa nas costas e o que realmente importa na travessia da vida.
 

* Padre Danilo é mestre em Liturgia e Pároco da Paróquia Santana