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A Santíssima Trindade e a vida cristã

 

Creio em Deus-Pai, todo poderoso    

A fé cristã não se resume em palavras. Não é uma teoria que aceitamos. A realidade à qual aderimos pela fé se revela, ao mesmo tempo, a verdade mais sublime e a salvação mais plena. Cremos na Triunidade de Deus. Em termos específicos, dizemos que Deus possui uma substância e três pessoas. Ele é Pai, Filho e Espírito Santo. Para nós, a Trindade é fundamento de tudo.

 

Jesus vem do Pai para anunciar o Reino, que é “de Deus”, portanto sua missão consiste em ser o intermediário da realização desse Reino

Como sabemos que Deus é Pai? Jesus Cristo nos revelou a paternidade de Deus. Não fez teorias sobre Deus, mas quando se dirigiu a Ele, o chamou sempre de Pai, seja para agradecer, louvar ou pedir. Deus-Pai se revela o fundamento último da atividade de Jesus e de sua própria identidade. Jesus vem do Pai para anunciar o Reino, que é “de Deus”, portanto sua missão consiste em ser o intermediário da realização desse Reino.

Mas a relação de Jesus com o Pai precede a própria história do mundo e da humanidade. “No princípio existia o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Jesus, desde sempre, está junto de Deus. É eterno, portanto, mas assume a provisoriedade da história humana ao se encarnar para a nossa salvação. Deus-Pai é todo-poderoso, gera Jesus desde toda a eternidade e o gera no mundo para nossa salvação. Gerou Jesus, criou o mundo e a humanidade e, para salvá-la, nela gerou Jesus através de Maria. “Nasceu da Virgem Maria”.
 
Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor

 

Se Deus é Pai, como nos revela Jesus, significa que tem um Filho. Seu Filho é justamente Jesus. Em que sentido ele é o único Filho do Pai? São João dirá sobre Jesus: “Contemplamos sua glória, a glória que recebe do Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade” (Jo 1,14). Jesus é o filho natural de Deus, aquele que o Pai gera desde toda a eternidade. A ele o Pai sempre se doa no amor. Antes de vir ao mundo, o Filho vivia uma eterna relação de amor com o Pai. Nós cremos na preexistência de Jesus enquanto o Verbo que estava junto do Pai.

Na sua encarnação, assume nossa condição humana. Jesus, que era Deus, passa a ser Deus e homem. O Filho de Deus assume a humanidade. Historicamente, o chamamos Jesus Cristo, que quer dizer Salvador consagrado como Messias. Toda sua vida será vivida em comunhão com o Pai. Na cruz se entregará ao Pai por nós. O Pai o ressuscitará por nós. Por que ele é Nosso Senhor? Ele mesmo responde: “Vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou” (Jo 13,13). 

 

Na nossa humanidade, que se torna sua, vai ao Pai por nós para nos introduzir na sua relação com o Pai

Ele é nosso Senhor porque nos salva do pecado e da morte, reconduzindo-nos ao Pai. Na nossa humanidade, que se torna sua, vai ao Pai por nós para nos introduzir na sua relação com o Pai. Quer que, como Ele, chamemos Deus de Pai, Pai-nosso.  Ele nos faz participar de sua filiação eterna, assim nos tornamos filhos adotivos, como diz Paulo. Não num sentido meramente jurídico, mas real. Sua filiação se torna nossa filiação. Somos, de fato, filhos do mesmo Pai de Jesus.

 
Creio no Espírito Santo

 

Nós cremos no Espírito Santo e na sua divindade. Também ele sempre esteve junto do Pai e do Filho. É Espírito do Pai e do Filho enquanto amor que une o Pai e o Filho. O Espírito Santo se faz presente em toda a vida terrena de Jesus, desde o seu nascimento. “O Espírito Santo descerá sobre ti e a força do Altíssimo te cobrirá com sua sombra, por isso o Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus” (Lc 1,25). “Foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria”. O Espírito unge Jesus no batismo para a missão de anunciar o Reino e jamais o abandona. Na cruz, Jesus se entrega ao Pai no Espírito. O Pai o ressuscita no Espírito. Ressuscitado, ele dispõe do Espírito e o envia a seus discípulos: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20, 22).

O Espirito nos mergulha cada vez mais no mistério pascal de Cristo, pois Cristo, no seu mistério pascal, é a nossa salvação

 

O Espírito Santo faz nascer a Igreja, Corpo do Ressuscitado. Todos nós recebemos o Espírito Santo no batismo. O Espirito nos mergulha cada vez mais no mistério pascal de Cristo, pois Cristo, no seu mistério pascal, é a nossa salvação. É no poder do Espírito que o Pai, na Eucaristia, transforma o pão e o vinho no Ressuscitado, para estarmos em comunhão com ele no seu mistério de morte e ressurreição e para, nele, sermos um só corpo, seu próprio corpo, a Igreja. 

 

A Trindade em nossa vida   

 

Paulo afirma que os cristãos são templos de Deus e do Espírito (1 Cor 3,16-17; 6,9; 2 Cor 6,16). O Espírito de Deus habita nos cristãos (Rom 8, 9.11). Paulo afirma a inserção do cristão na própria vida trinitária, a partir de sua inserção em Cristo por meio do Espírito. A vida cristã postula a relação do fiel com as três pessoas divinas.
   
O Pai, o Filho e o Espírito estão nos fiéis, mas são presenças diversas. O Pai é o princípio na Trindade e, como tal, o começo de tudo. Mas é o Espírito que está no início da vida cristã, porque através dele o Pai e o Filho entram em comunhão com o ser humano. O Pai se dá, desde toda a eternidade, entregando-se ao Filho. Na encarnação, o Pai nos entrega o Filho, cuja vida nos é comunicada mediante a efusão do Espírito. O Espírito cria nossa comunhão com Jesus, o Filho. Assim entramos na própria vida de Deus, na Trindade. O Espírito nos torna filhos no Filho, ou seja, nos faz participar da própria vida de Jesus, por isso, com Jesus, podemos chamar Deus de Pai, Abba (Rm 8,15).

A missão do Espírito é configurar o mundo e o cristão a Cristo, o Filho, para que o cristão entre na relação do Filho com o Pai

 

A missão do Espírito é configurar o mundo e o cristão a Cristo, o Filho, para que o cristão entre na relação do Filho com o Pai. Por causa do Espírito, Paulo e Cristo estão unidos: “Cristo vive em mim” (Gl 2,20). Pelo Espírito, Cristo vive em Paulo. O Espírito cria a relação dos fiéis com o Pai e o Filho. É o mediador da relação dos cristãos com o Pai e o Filho. Cristo, por sua vez, é o mediador da comunhão dos homens com a Trindade.

Quem é o cristão? Do ponto de vista da Santíssima Trindade, ele é filho do Pai, porque vive uma comunhão que marca o mais profundo do seu ser com Cristo, Filho de Deus, seu Senhor e irmão. Ele é conduzido pelo Espírito Santo, vive do seu amor que o conduz a Cristo, o Filho, em quem ele se torna filho do mesmo Pai de Jesus. O cristão é filho de Deus-Pai no Filho único de Deus, Jesus, por graça do Espírito.

 

Pe. Paulo Sérgio Carrara, C.Ss.R
                                          Professor de teologia na FAJE e no ISTA, em Belo Horizonte