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A reconciliação com o Senhor e a Eucaristia

Na última ceia, quando tomando o cálice nas mãos, Jesus disse: “Bebei todos, pois isto é o meu sangue, o sangue da Aliança, que é derramado por muitos para remissão dos pecados” . As palavras de Jesus, repetidas em cada Eucaristia que celebramos, estão cheias de reminiscências bíblicas , dentre as quais as palavras de Jeremias, que vale a pena transcrever:


Eis que idas virão – oráculo de Iahweh – em que concluirei com a casa de Israel (e com a casa de Judá) uma aliança nova. Não como a aliança que concluí com seus pais, no dia em que os tomei pela mão para fazê-los sair da terra do Egito – minha aliança que eles próprios romperam, embora eu fosse o seu Senhor, oráculo de Iahweh! Porque esta é a aliança que concluirei com a casa de Israel depois desses dias, oráculo de Iahweh. Porei minha lei no fundo de seu ser e a escreverei em seu coração. Então serei seu Deus e eles serão meu povo. Eles não terão mais que instruir seu próximo ou seu irmão, dizendo: “Conhecei a Iahweh!” Porque todos me conhecerão, dos menores aos maiores – oráculo de Iahweh – porque perdoarei sua culpa e não me lembrarei mais de seu pecado.

 

Mesmo participando da missa, faz bem aguçar a consciência a respeito desses pequenos pecados cometidos, aprofundando o espírito de contrição, o desejo de mudança

O sentido sacrificial das palavras de Jesus na ceia, como memorial da sua entrega na cruz, remetidos igualmente à relação de Aliança, realizam as profecias da antiga economia, cancelando as infidelidades do povo (pecados) e reconciliando a humanidade com Deus. É inequívoco, segundo as Escrituras, que a participação na Eucaristia resulte na remissão dos pecados. Os santos padres deduziram o mesmo, não excluído sobre isso que recomendaram sempre a prudência aos pecadores, a distinção entre pecados graves e pecados leves, o necessário espírito de arrependimento e o desejo de emendar-se. Assim ensina o grande Teodoro de Mopsuéstia:

É bom que se afaste dos mistérios aquele que se sente réu de muitos e grandes pecados. O Apóstolo afirma claramente que quem comente tais pecados não obterá o Reino. Quem estiver nessas condições, só deve participar nos mistérios quando não tiver pecados e tiver aceite os preceitos. Quanto ao mais, convém fazer o possível por estar longe daquelas coisas em que os homens costumam cair, muitas delas devido às fraquezas de todos os dias, e a maior parte por debilidade da natureza. Efetivamente, o desejo da virtude e a diligência quotidiana da vida podem diminuir tais pecados, pelo que os que neles caem não se devem privar dos mistérios, mas aproximar-se com maior temor, caindo na conta da grandeza dos mesmos e recebendo-os com muita esperança. Na verdade, por meio destes mistérios podemos obter o perdão dos pecados, se deles nos afastarmos segundo as nossas forças e não nos mostrarmos negligentes quanto aos outros bens. Inclusivamente, conseguiremos ajuda espiritual para ordenarmos melhor a nossa vida. Porque é justo que esses mesmos bens que nos vieram pela morte de Cristo tenham cumprimento pelos símbolos da sua morte. Deste modo, seu titubear, eu diria que, se alguém que tivesse cometido os maiores pecados, mas a partir de certo momento se propusesse afastar-se de toda a má ação e procurasse ser bom, vivendo segundo os preceitos de Cristo, poderia participar dos mistérios, Se, ao proceder deste modo, estiver intimamente persuadido de que receberá a remissão de todos os seus pecados, as suas esperanças não serão de modo nenhum iludidas.

Teodoro de Mopsuéstia ensina que a participação nos “mistérios”, entenda-se Eucaristia, supõe uma atitude criteriosa: os que tem muitos e grandes pecados devem abster-se e submeter-se aos “preceitos”, isto é, ao sacramento da Penitência. Mas fala-nos igualmente dos pecados de todos os dias, isto é, os pecados leves, que por fraqueza humana se cometem. Quando acompanhados de um desejo da virtude e esforço pessoal (diligência quotidiana), eles não só diminuem sua gravidade, mas não nos impedem da participação na ceia do Senhor. Ao contrário, devemos nos aproximar dela com a confiança, recebendo reforço para evitar cometer pecados. O Concílio de Trento afirmou a mesma doutrina dos santos padres:

 

Maior que o pecado é a graça e a misericórdia do Senhor. Deus nos ama e a Eucaristia é prova desse amor infinito que nos atrai, restaura e revigora

Portanto, nosso Salvador, ao deixar este mundo para ir ao Pai, instituiu este sacramento, no qual derramou as riquezas de seu amor divino para com os homens, “deixando o memorial de suas maravilhas (Sl 111,4), e ordenou-nos que, ao recebê-lo, celebrássemos “sua memória” (1Cor 11,24) e proclamássemos sua morte, até que ele mesmo venha julgar o mundo (cf. 1Cor 11,26). Ele quis que se recebesse este sacramento como alimento espiritual das almas (Mt 26,26), com o qual se alimentam e fortalecem (can. 5) os que vivem pela vida daquele que disse: “Quem me come viverá por mim” (Jo 6,58) e também como antídoto pelo qual somos libertados das culpas quotidianas e preservados dos pecados mortais .
  

O Papa Paulo VI, recordando os vários aspectos da Eucaristia, também nos ensina:
Convém recordar primeiramente aquilo que é, por assim dizer, a síntese e o ponto mais sublime desta doutrina: que no Mistério Eucarístico é representado de modo admirável o Sacrifício da Cruz, consumado uma vez para sempre no Calvário; e que nele se relembra perenemente a sua eficácia salutar na remissão dos pecados que todos os dias cometemos .
 

Algumas conclusões:

A Eucaristia perdoa os pecados, pois é ação memorial do sacrifício de Cristo que do alto da cruz nos alcançou a remissão dos pecados e nos reconciliou com Deus.

 

Os pecados graves, ou o acúmulo de pecados devem contar com a assistência do sacramento da Penitência, do qual não estamos dispensados apenas por participar da missa.

 

Faz bem nos confessar ocasionalmente, ainda que não tenhamos cometido pecados graves.

Por pecados leves (os chamados pecados veniais) entendemos aqueles do dia a dia, que se cometem por descuido e fraqueza, mas não comportam a gravidade dos pecados mortais. Exemplo: irritação desnecessária causada por acúmulo de trabalho ou pressões do dia-a-dia.

Mesmo participando da missa, faz bem aguçar a consciência a respeito desses pequenos pecados cometidos, aprofundando o espírito de contrição, o desejo de mudança e o reconhecimento sincero de ter cometido tais pecados.

Maior que o pecado é a graça e a misericórdia do Senhor. Deus nos ama e a Eucaristia é prova desse amor infinito que nos atrai, restaura e revigora.

Pastoralmente seria bom perder o medo de esclarecer aos fiéis determinados aspectos relativos à nossa fé, celebrada nos sacramentos. Nosso povo entende e acolhe os ensinamentos dos padres e da Igreja, quando bem orientados, quando não subestimados em sua capacidade de compreensão.

 
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1Cf. Mt 26,28.
2Cf. Is 27,9; Rm 11,27; Hb 9,28.
3Jr 31,31-34.
4TEODORO DE MOPSUÉSTIA. Comentário à Primeira Carta aos Coríntios. In: Antologia Litúrgica: textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2003, p. 669.
5CONCÍLIO DE TRENTO. Decreto sobre o sacramento da Eucaristia. In. Denzinger, H. – Hünermann, P. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Loyola, 2007, p. 421.
6PAULO VI. Mysterium Fidei, Carta Encíclica sobre o culto da Sagrada Eucaristia. São Paulo: Paulinas, 1965, p. 15.