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[Artigo]A prática do dízimo e a cidadania – Aristides Luis Madureira – missionário leigo, atua na pastoral do Dízimo

O dízimo não serve apenas para fortalecer o setor econômico das paróquias, ele tem a propriedade de formar cidadãos

Em pleno Ano Eleitoral, envoltos por tantas incertezas, com mais de 40% da população brasileira sem saber em quem votar para ser o próximo governante do país, segundo pesquisas recentes, perguntamo-nos: qual o papel da comunidade cristã neste cenário? Muitos cristãos defendem a ideia de que a Igreja não deve se envolver com a política. Será mesmo?

Envolver-se na política é uma obrigação para um cristão”.  Esta foi a resposta do Papa Francisco, respondendo a um dos nove mil jovens de escolas e movimentos jesuítas presentes em encontro com ele no Vaticano. Disse mais, que não podemos lavar as nossas mãos como fez Pilatos: “Devemos nos envolver na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, pois visa o bem comum” – afirmou o pontífice.

O Papa Francisco não se refere à política partidária ou às práticas politiqueiras que superabundam na sociedade. Ele vai na gênese dessa ciência, cuja razão de existir é a promoção do bem comum que assegure direitos fundamentais a todos e todas, como educação, saúde, moradia, lazer etc. O Papa recorda que bons políticos respondem, através da vida pública, a uma vocação: “Os leigos cristãos devem trabalhar na política. Dir-me-ão: não é fácil. Mas também não o é tornar-se padre. A política é demasiado suja, mas é suja porque os cristãos não se engajaram imbuídos do espírito evangélico. É fácil apontar culpas…  Mas eu, o que faço? Trabalhar para o bem comum é dever de todo cristão”. Palavras ousadas, as do Papa, mais que isso, proféticas.

Mas o que tem haver a comunidade cristã e a prática do Dízimo com isso tudo? Recordo, para iluminar essa resposta, ao que nos exortou São João Paulo II em sua Carta Apostólica, Novo Millennio Ineunte: “Fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão: eis o grande desafio que nos espera no milênio que começa, se quisermos ser fiéis ao desígnio de Deus e corresponder às expectativas mais profundas do mundo. Ele nos ensina que a comunidade cristã é escola de comunhão e fé. Transformamos a sociedade pela maneira com que vivemos nela, e essa, não pode ser diferente do modo que aprendemos a viver na comunidade cristã. Amor, perdão, justiça, equidade, generosidade, solidariedade, fraternidade etc.

A comunidade eclesial se torna eficaz em sua missão educadora quando une discurso e ação. A coerência de vida de Jesus é o alicerce do Evangelho e nossa referência de vida. A incoerência esvazia e torna nula toda crítica e julgamento. Se desejamos uma governança pública justa, é preciso que a vivamos na comunidade eclesial. Se desejamos uma gestão participativa, que contemple todos, inclusive os menos favorecidos, precisamos fazer essa opção na comunidade cristã. A formação da cidadania tem como disciplina principal a vivência comunitária. Como saberão das necessidades da comunidade se não estiverem inseridos nela? Sem uma prestação de contas com informações claras e objetivas, que demonstrem a transparência da gestão como terão acesso à Informação? Se não forem consultados, como poderão contribuir com ideias e práticas? Se não tiverem conhecimento das realizações da comunidade, como desenvolverão o senso de pertença a ela? Vemos assim que a comunidade  eclesial, em seu dia a dia tem a capacidade de formar e informar, acolher e enviar.

Como tornar nossas comunidades eclesiais referência de gestão? Escolas de cidadania? Primeiramente, pelo acolhimento e inserção de todos os que desejarem pertencer à família cristã. A comunidade deve ser casa de Deus, aberta a todos que buscam um verdadeiro encontro com o acontecimento Jesus de Nazaré. A partir deste encontro, a comunidade, por meio de seus membros, deve estar apta a caminhar, ensinar, formar e enviar cada batizado à missão. A verdadeira inclusão permite, que cada qual, segundo suas possibilidades, desenvolva suas aptidões e carismas em prol do bem comum, permite ainda, e sem distinção, que todos socorram as necessidades materiais de suas comunidades. Não importa se com pouco ou muito. Desde que seja uma prática feita de coração, todos têm o direito de participar.

O dízimo, muito mais que uma contribuição para a Igreja, é uma prática que valoriza e dignifica a pessoa e que a faz Igreja. Uma diocese, paróquia ou comunidade quando geridas de modo compartilhado se tornam escola de comunhão e fé. São também escolas de cidadãos conscientes, que lutam pela edificação e manutenção do bem comum. Homens e mulheres capazes de reconhecer e exigir, daqueles que representam ou desejam representar o povo, valores e princípios saudáveis, que expressem de fato uma vocação e não apenas a busca pelo poder ou interesses pessoais. Pessoas que entendam a importância do voto e não se deixem manipular, seja pela mídia, seja pelo preconceito e ou pelo ódio.

O dízimo não serve apenas para amparar e fortalecer o setor econômico de nossas paróquias, ele tem a propriedade de formar cidadãos. Que, em mais alguns anos, estejamos de tal modo preparados que não vivamos mais incertezas, como as que estamos vivendo. Que a vocação política seja despertada no coração de mais fiéis católicos. Que o povo brasileiro encontre seu caminho de unidade e paz.

 

Aristides Luis Madureira – missionário leigo, atuante na implantação da pastoral do Dízimo há mais de 25 anos. Autor de várias obras, dentre elas destacam-se: Partilhando a Vida em Família – Dízimo em 30 Segundos – Pastoral da Partilha, manutenção – Novena do dizimista.