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A Política além da paixão e da razão

Há quase um ano fomos agraciados com o singelo e profético texto do Papa Francisco sobre a alegria do Evangelho. De fato, as alegrias do mundo, sem transcendência, se esvaem no vazio do sem-sentido. Já aquela que brota da relação amigável com Jesus gera transcendência. Mas a exortação traz alguns princípios muito interessantes para nortear a política, os quais vale ressaltar, pois ainda há uma falsa compreensão de que religião não trata de política. Se por um lado a expressão é verdadeira; por outro, tem que ser explicada.

O primeiro aspecto que ressaltamos é o fato de que a política é uma sublime vocação, “uma das formas mais preciosas da caridade” (Evangelii Gaudium 205). Então falar de política, refletir politicamente é um dever de caridade. Deus caritas est. E quem ama permanece em Deus. Porém, o horizonte que nos inspira não é aquele, desse ou daquele candidato, desse ou daquele partido, desse ou daquele governo. Tudo isso passa. O que instaura uma nova ordem possível é o horizonte do bem, sem o qual todas as ações humanas se perdem no vazio. Assim, a política é entendida como uma forma de caridade porque ela busca o bem comum. Mas num estado democrático, bem comum não é aquilo que se decide democraticamente?
 

Toda vez que o
bem comum
desaparece, surgem escândalos,
disparidade nos julgamentos,
desvios de recursos públicos

Nos últimos meses, assistimos a um turbilhão de jogos políticos cheios de paradoxos, permitam-me chamar assim as últimas eleições. Jogos políticos e interesses econômicos, porque toda vez que desaparece o norte do bem comum, afloram as paixões que tentam se justificar através da razão. Nesse cenário, seja na mídia seja nas discussões entre as pessoas, tudo parecia um jogo de futebol. É justamente aí que entra em cena o marketing político. Profissionais muito abalizados fazem de tudo para desconstruir uma imagem, para passar outra, para gerar interpretações e conquistar o eleitorado. E as técnicas de marketing funcionam: a repetição, frases de efeito, forças não ditas que levam o telespectador a concluir na direção do interessado e muito mais.
 

O espetáculo fica emocionante e muita gente perde a razão. Aqui surge uma grande diferença entre marketing político e anúncio cristão. Enquanto o primeiro busca vencer uma competição, o segundo é desinteressado e comunica o bem comum. O marketing é instrumental e gera divisão – talvez por isso se possa explicar a polarização das últimas eleições; o anúncio lança suas raízes no chão-da-vida compartilhado por todos e gera o encontro cordial e a paz.

Nessa perspectiva, “a conversão cristã exige rever especialmente tudo o que diz respeito à ordem social para a consecução do bem comum” (Evangelii Gaudium 182). Aqui se impõe um comentário sobre a pergunta lançada acima. O Estado Democrático não decide sobre o bem comum. Esse o é por si mesmo e gera ações concretas para todos. Toda vez que o bem comum desaparece, surgem escândalos, disparidade nos julgamentos, desvios de recursos públicos. O resultado, naturalmente, será o prejuízo dos mais fracos e pobres.

 

O bem comum
tem que preceder o
Estado, pois é laço metafísico que
une a todos
numa mesma
Nação

Por isso, o Papa Francisco exorta que “a dignidade de cada pessoa humana e o bem comum são questões que deveriam estrutu¬rar toda a política econômica” (Evangelii Gaudium 203). A dignidade está acima de qualquer preço, de qualquer troca, ela não é intercambiável. E o bem comum deveria ser a força estruturante do Estado e não apenas a argumentação e a votação. O bem comum tem que preceder o Estado, pois é laço metafísico que une a todos numa mesma Nação. O horizonte do bem comum gera o convívio pacífico entre as diferenças, o respeito, a justiça social e a paz. E muito mais: o bem comum nos impulsiona à solidariedade cidadã.

Por fim, chama a atenção outro aspecto que nos leva a superar visões terrenistas, economicistas e reducionistas do ser humano. Trata-se justamente do momento em que somos chamados a refletir sobre a transcendência. Tudo passa, transcendemos espaços e tempos. Somos travessia. Mas não é só isso. Para além dessa transitoriedade, somente “a partir duma abertura à transcendência, poder-se-ia formar uma nova mentalidade política e econômica que ajudaria a superar a dicotomia absoluta entre a economia e o bem comum social” (Evangelii Gaudium 205). O verdadeiro desenvolvimento humano vai além do econômico. Abrir-se à transcendência significa reconhecer a necessária autonomia humana, sem absolutizá-la. Na esfera do ser, nossa vida é dom e é na abertura ao dom de Deus que encontramos a realização mais alta da vida política. Portanto, para além da paixão política e das razões políticas, impõe-se o bem comum.

 

Pe. Márcio Paiva
Professor no mestrado do Departamento de Ciências da Religião
 da PUC Minas, na área de Ética e Religião