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Celebrar a alegria própria do tempo pascal é mesmo um kairós na vida das comunidades cristãs. A primeira coisa que me vem à mente é um cântico da minha infância: “A páscoa não é só hoje, a páscoa é todo dia. Se eu levar o Cristo em minha vida, tudo será um eterno aleluia.”  De fato, creio que essa seja a experiência da vida humana, uma vez que vivemos na finitude. O início da vida não é nossa escolha, nem o fim. Origem e destino a Deus pertencem. Por isso, nossa vida se dá no intervalo, e viver no intervalo é recomeçar a cada dia. É acordar e renascer todo dia. É viver “para o dia de hoje tão somente”, como dizia Santa Teresinha do Menino Jesus. Nessa perspectiva, a Páscoa é também todo dia.
 
É pela ternura infinita de Deus que nós podemos fazer a travessia,  superar o viver noss paradoxos, podemos ressurgir com Jesus a cada dia, de tal modo que cada instante vivido não seja um instante morrido que não volta mais, mas antes seja, sobretudo, um instante ressuscitado
Em segundo lugar, a Páscoa nos enche de verdadeira alegria. As alegrias do mundo, embora tenham sua autonomia, fazem parte da vida no intervalo, na finitude. Por isso mesmo, elas são para o dia vivido e deixam sempre um misto de realização e vazio, quando não de dor. E aí as pessoas dizem que “tudo que é bom dura pouco”, “o melhor da festa é esperar por ela”, “a vida é muito curta”, enfim. Mas o espírito pascal realiza nossa utopia: a vitória sobre a morte, a vitória sobre o intervalo e a finitude. Em Jesus a eternidade entrou no tempo, pelo amor. E o seguidor de Jesus é aquele que ama: “O que vos mando é que vos ameis uns aos outros” (João 15,17), para que todos nos reconheçam como seus discípulos. Desse modo, Ele nos diz: “Disse-vos essas coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa” (João 15,11). Somente em Jesus o mistério da vida no intervalo se resolve.
 
Em terceiro lugar, estamos vivendo o Ano da Misericórdia e o Papa Francisco proclama que “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai” (Misericordiae Vultus, nº 1). A alegria que brota na ressurreição revela a misericórdia do Pai que vem ao nosso encontro ajudando-nos a superar a vida no tempo. Recorda-nos Papa Francisco que a misericórdia “é fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro […] Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (Misericordiae Vultus, nº 2). Assim, é pela ternura infinita de Deus que nós podemos fazer a travessia, podemos superar o viver nossos paradoxos, podemos ressurgir com Jesus a cada dia, de tal modo que cada instante vivido não seja um instante morrido que não volta mais, mas antes seja, sobretudo, um instante ressuscitado. 
 
Por fim, a Páscoa representa o dia que o Senhor fez para nós, por isso alegremos e nele exultemos, pois “Eterna é a sua misericórdia” (Sl 136).  “O fato de repetir continuamente ‘eterna é a sua misericórdia’, como faz o Salmo, parece querer romper o círculo do espaço e do tempo para inserir tudo no mistério eterno do amor. É como se se quisesse dizer que o homem, não só na história, mas também pela eternidade, estará sempre sob o olhar misericordioso do Pai” (Misericordiae Vultus, nº 7).  A Páscoa não é só hoje! Com Jesus, numa vida de amor, tudo pode ser um eterno aleluia. Feliz Páscoa a todos!
 
Padre Márcio Paiva
Professor da PUC Minas
Apresentador, na TV Horizonte, do programa Conexões: espiritualidade e cotidiano