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A oração de Jesus nos conduz a ser comunidade de Fé

Carregamos um cansaço muito grande em nosso interior ferido, pelas fórmulas e receitas mal elaboradas, no que toca a uma resposta à vida de fé e à oração que irrompe na vida comunitária. Jesus ensinou seus discípulos a rezarem  e, assim,  fortalecer suas vidas na comunidade de fé.

 Hoje muito se fala da oração do Senhor Jesus, mas, muitas vezes,  sem uma base de vivencia com Ele. Muito do que já foi dito no passado sobre a oração do Senhor, pode nos acomodar. Podemos ser tentados a criar a falsa impressão de que a força da oração é assunto privado, individual e quase secreto, tão pessoal e tão profundamente oculto em nossa vida interior, que não se pode falar sobre ele nem o compartilhar.

 

“O contrário da fé não é a duvida, mas os medos que nos fazem mergulhar em nossas inseguranças.”

Mas, por ser tão pessoal e nascer no centro de nossa vida, é que a oração deve ser partilhada com os outros. Exatamente porque ela é a expressão mais valiosa do humano, de onde o homem é chamado a dar um salto para Deus, é que precisamos criar uma força de apoio e proteção da comunidade para que ela não pare de crescer e florescer. Podemos, com certeza, afirmar a oração como a vocação mais alta da vida cristã. Vocação que precisa de atenção e perseverança.  Não se pode permitir que ela permaneça como questão privada, fechada em si mesma. Podemos afirmar que é exatamente aí, que começa o grito amoroso e profético.

A oração exige espera paciente, não deve nunca se tornar expressão privada e individualista da emoção do coração. A oração de coração não centra na emoção, pois pode soar uma falsa experiência de Deus e muito mais individualista e privada. A oração que brota da experiência amorosa de Deus e do coração deve alicerçar o coração como centro da confiança amorosa. Não no fechamento em si mesmo, ou lugar privado inconcebível.

A oração de Jesus precisa permanecer incrustada na vida da comunidade da qual fazemos parte, como testemunho do nosso modo de viver a mística e a profecia do amor. Como o absoluto da nossa forma de viver, esperar e crer. A oração deve nos posicionar no nosso modo de vida, enquanto espera alegre e otimista. Tudo pautado pela graça e por amor a Deus. Podemos afirmar que é uma tarefa sobre-humana, de super-homem.

Não podemos compreender a vida na solidão, mas na perspectiva de Maria de Nazaré, que testemunhou a vida como “soletude”, soledade, sole-te. Deus se tornou tudo em todos para Ela que viveu a vida numa profunda presença, até mesmo na dor mais profunda. Podemos dizer: não é preciso que esperemos a sós. Na experiência da vida da comunidade de fé podemos encontrar o clima e o apoio para sustentar e aprofundar nossa oração. E, assim, tornar-nos capazes de ver além de nossos desejos imediatos, até desordenados, e muito estreitos.

A vida de oração na comunidade de fé oferece os limites protetores dentro dos quais podemos ouvir nossos anseios e desejos mais profundos, não para imergir em uma pseudo-introspecção, mas para irromper em nós o desejo de encontrar o Deus de Jesus Cristo, para o qual a vida orante nos aponta. Na vida de oração dentro da comunidade de fé, podemos ouvir nossos sentimentos de solidão, nosso desejo de receber um abraço, nossas necessidades afetivas, nossa vontade de receber simpatia, compaixão ou apenas uma palavra positiva. Podemos também perceber a nossa busca de compreensão, de amizade e de companhia.

Nesse horizonte, afirmamos nossa vida, fortalecemos a busca da oração na comunidade de fé. Podemos, desta forma, concluir que a oração de Jesus nos faz ouvir todos esses desejos e nos faz encontrar a coragem de enfrentamento espiritual, diante dos nossos medos. Não para evitá-los ou mascará-los, mas para confrontá-los, para descobrir a presença de Deus entre eles. Saber que o contrário da fé não é a duvida, mas os medos que nos fazem mergulhar em nossas inseguranças ou falsas seguranças que vamos construindo pela vida afora.

 

“A esperança não nos decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo”

Na oração confiante, que centra no coração e irrompe na vida comunitária, podemos afirmar-nos na espera e também na compreensão de que no centro da nossa espera encontra-se a primeira intimidade com Deus, o primeiro amor. De que Ele veio ao nosso encontro unicamente para fortalecer-nos no verdadeiro Amor. Nesta experiência orante,  podemos estar juntos, com paciência, e deixar que o sofrimento de cada dia converta nossas ilusões no grito orante de um povo contrito, profético e místico.

Afirmamos a vida orante na comunidade de fé como o clima, a fonte de toda oração centrada na mística e na profecia do Amor. O mesmo  princípio foi defendido pelo Papa Francisco, na sua homilia da Sexta Feira Santa: “Como o alpinista que, superando uma passagem perigosa, faz uma parada para retomar o fôlego e admirar a paisagem que se abre à sua frente, assim o apóstolo Paulo, no início do capítulo quinto da Carta aos Romanos, depois de proclamar a justificação pela fé, escreve: “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus graças a nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de quem obtivemos acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência produz a experiência, e a experiência, a esperança. Ora, a esperança não nos decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.”(Rm 5, 1-5)”.



 

 

 

 

 

 

Padre Célio Domingos Xavier
Pároco da Paróquia São Gonçalo