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A missão de reconstruir a Igreja

 

 

Assis, cidade italiana medieval na região da Úmbria, registrada pelo belíssimo filme de Franco Zeffirelli, Irmão Sol e Irmã Lua, aflora à minha imaginação. O jovem Francisco de coração naturalmente bom e generoso, mas dado aos prazeres do mundo, ouviu a voz do Senhor na igrejinha de São Damião.

O crucifixo pintado em estilo bizantino lá está até os dias de hoje. O Senhor lhe dizia: “Francisco, reconstrua a minha Igreja”. Esta voz tinha sido antecedida por vários sinais que Deus já estava emitindo ao jovem Francisco como a sua aproximação terna dos leprosos refugiados em guetos fora da cidade.

 

 

Francisco pensa que sua missão era reconstruir a capela semi-destruída de Santa Maria dos Anjos e vende produtos do comércio do seu pai a preços populares e entrega ao padre o dinheiro para a reconstrução da capela. Esta capela hoje está abrigada no interior da grande basílica de Santa Maria dos Anjos na planície de Assis (foto ao lado). Mas a reconstrução que o Senhor queria não era da igreja de pedras, mas a reconstrução da sua Igreja viva. Naquele tempo, como hoje em especial, a Igreja precisava e precisa de uma reconstrução, uma profunda renovação espiritual que a conduz à sua fidelidade primeira e original.

Este é o recado que o Senhor está nos mandando de forma clara com a eleição do Papa Francisco. O retorno às fontes primeiras da nossa fé, como nos pediu o Concílio Vaticano II. Para este caminho de retorno precisamos nos despojar, como o Poverello de Assis, de muitos acréscimos que nos tornam menos livres para um itinerário evangélico do seguimento de Jesus.

 

amar profundamente                 o Senhor que se entregou                  por nós e nos convida fazer o mesmo aos demais, por causa dele, mesmo nas perseguições e incompreensões. Esta será e é            a Igreja que Cristo quer ver reconstruída.

A imensa novidade do novo Pontífice não é o fato de ser o primeiro latino-americano, o primeiro jesuíta. Mas a escolha do nome é sugestiva, sim. O fato de um Papa ser europeu, americano, asiático ou africano não faz muita diferença. A Igreja não é uma organização onde a preocupação geopolítica seja uma prioridade. Também não se espera novidade em termos fundamentais de doutrina ou moral. A Igreja não é composta de rupturas radicais. A novidade é o retorno às origens como pretendia o Francisco do século XII. Nós somos os discípulos de Cristo e o seguimos no seu caminho difícil e, ao  mesmo tempo, muito simples.

Quem percorreu o caminho de Santiago de Compostela sabe que deve abandonar todo o supérfluo que carrega se quiser chegar até ao final de seu itinerário. Precisa levar o essencial. Se o pontificado de Francisco ensinar a Igreja e o mundo a se desvencilharem de tanto supérfluo que fomos acumulando, para tornar nossa vida mais leve e mais suave, será uma grande obra. Uma obra querida pela providência divina. Esta é a grande revolução, a grande novidade a ser empreendida pelo novo Papa.

Vivermos simplesmente na frugalidade da nossa vida cristã, no amor aos demais, em especial, os pequenos. Adequar as estruturas eclesiásticas ao seu propósito fundamental, eliminando o desnecessário. E, acima de tudo, amar profundamente o Senhor que se entregou por nós e nos convida fazer o mesmo aos demais, por causa dele, mesmo nas perseguições e incompreensões. Esta será e é a Igreja que Cristo quer ver reconstruída: “Francisco, reconstrua a minha Igreja”.

Pe.José Cândido
  padre da Arquidiocese de Belo Horizonte
professor de Teologia da PUC Minas