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A Luz da chama e o Arco da promessa

 
 Chama por chama, a cada domingo, se ilumina a coroa do Advento, nas igrejas e no coração da gente. A forma circular, coberta de cipreste, as quatro velas harmoniosamente dispostas no aro, com alguns enfeites a gosto das comunidades, escondem e compõem um sinal litúrgico que encanta, marca e traz à tona o que há de especial nesse tempo de preparação para o Natal. “Não são discursos, nem frases ou palavras” (Sl 18,4): reina linguagem de outra ordem, um código que alcança o coração, onde a mensagem de luz faz tremer as trevas mais escuras, as realidades mais escondidas, a dores mais lancinantes…

 

O verdadeiro sinal da Aliança é Jesus que, assumindo  nossa condição humana, restaurou a
relação entre Deus
e os homens.
Em Jesus, Deus
“se arqueou” sobre
a humanidade,
trazendo luz

No hemisfério Norte, quando chega o frio e a neve, a única árvore que resiste ao rigor do inverno é o cipreste. Continua verde, mesmo no frio extremo que a tudo faz fenecer. Assim como a chama, também essa árvore aponta para o alto e desponta, mesmo quando é frio, orientado para o sol, que sobre as nuvens há de vir e reinar. É a esperança cristã que, mesmo em épocas difíceis, não esmorece, mantém-se de pé! O cipreste espera pela primavera e nós esperamos o Cristo, o nosso Sol. Esperamos com as nossas lâmpadas acesas, mantendo a chama e atravessando a noite escura e fria ao encontro do Amado. “O noivo vem chegando! Ide ao seu encontro!”, nos convoca a Igreja, despertando-nos do sono e do cansaço de um ano que finda.

 

É preciso recomeçar: Advento, novo tempo, novo ano, novas buscas. É o tempo da espera que se mexe, inquietação alegre e jovial, da esposa que, previdente e desperta, nutre sua lâmpada com o azeite do Espírito e da Palavra, acorrendo ao encontro do seu Senhor. “Onde o puseram? Eu irei buscá-lo!” (Jo 20,15).

 

A forma circular da coroa nos recorda o caráter cíclico do tempo, da vida e de tudo o que foi criado. Mas recorda também a eternidade, o verdadeiro Círculo, Aquele que não tem começo e nem fim, é Deus. Ele se revestiu da folhagem da nossa existência, o fruto da terra… O humano se encontra com o divino: é Jesus que, ao nascer, realiza o verdadeiro encontro entre Deus e os homens.

 

Pouco importa a cor da cera; mais importam as chamas que domingo a domingo se acendem, pois são elas que iluminam! Então, com alegria, acendamos nossas luzes! Brilhemos como filhos da luz e do dia, não sejamos como filhos das trevas. Reflitamos o “Sol Oriente que nos vem visitar”. Assentemos nossas vidas no Aro divino que se recobriu de humano, que repousou em palhas e, a cada celebração, rumemos para Belém. O novo Arco da promessa foi estabelecido como pacto inquebrantável, devolvendo as feições e as cores da humanidade embotadas pela fuligem cinzenta da maldade.

 

Mas é preciso luz, para descortinar a gradação multicolor que liga céu e terra. Acendamos nossas velas para ver o Cristo que as Escrituras nos anunciam: “Este é o sinal da aliança estabelecida entre mim e toda carne sobre a terra” (Gn 9,17). O verdadeiro sinal da Aliança é Jesus que, assumindo a nossa condição humana, restaurou a relação entre Deus e os homens. Em Jesus, Deus “se arqueou” sobre a humanidade, trazendo luz para as nossas vidas. A resistência humana que sobrevive às adversidades da história conta agora com Aquele que ao seu povo se associou. 

 

Pe Danilo César Lima
Liturgista