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A Liturgia como realização da escatologia: a era messiânica hoje

 

No artigo anterior, dizíamos que as comunidades cristãs das origens compartilhavam da compreensão de estarem mergulhadas nos últimos tempos. A era messiânica havia sido inaugurada em Jesus de Nazaré. O Governo de Deus, seu Reinado, já encontrara lugar determinante na sua vida e deveria, também, ser acolhido por seus discípulos de maneira decisiva. Neste sentido, a escatologia não seria uma palavra para aplicar-se aos “depois” do tempo histórico, mas como alusão a uma dimensão liminar, fronteiriça e transicional desta mesma história. Parafraseando A.G. Rúbio, ao falar da ressurreição, a escatologia se esboça como uma dimensão meta-histórica, que atravessa e vai além da história, dos tempos e lugares. Mais do que “fim” dos tempos, no sentido de cessação, diríamos da finalidade dos tempos, corolário, finalização, acabamento.

Rezar de pé

Tudo na Liturgia faz reverberar a dinâmica escatológica da vida e da fé. Se começarmos pelo Ano Litúrgico e por ele, o seu núcleo, o Domingo, reconheceremos na boca da Comunidade orante o “venha a nós o vosso Reino” da Oração de Jesus. A recitação ou canto do Pai Nosso é um rito, o que significa compreendê-lo como um gesto do Senhor assimiliado e realizado na corporeidade da assembleia. Pensando a partir daí, começemos por considerar a gestualidade prevista: de pé. Esta postura evoca a qualidade e a dignidade sacerdotal do Povo de Deus e sua disposição à oração diante do Pai. É a posição que melhor revela, na perspectiva pascal, a nova condição de homens e mulheres ressuscitados em Cristo. Na perspectiva bíblica e nas liturgias orientais (e mesmo para o ocidente, embora como gesto enfraquecido) evoca a reverência diante do Divino1.  As preces litúrgicas I e IV citam esta postura: circunstantes, literalmente, “de pé ao redor”. Também a Oração Eucarística II fala de “gràtias agèntes quia nos dignos habuisti astàre coram te et tibi ministrar”, que poderia ser vertido por “vos damos graças por nos tornares dignos de estarmos de pé na vossa presença e vos servir.”  

Isidoro de Sevilha, no século VII, correlaciona a postura de pé para a oração com a dinâmica escatológica da vida cristã: “Na verdade, como o próprio Jesus Cristo nosso Senhor e Salvador ressuscitou dos mortos ao terceiro dia, assim também nós esperamos ressuscitar nos últimos tempos. Esta é a razão pela qual no dia do Senhor oramos de pé, posição que é sinal da futura ressurreição; assim faz toda a Igreja que peregrina na sua condição mortal, aguardando o fim deste tempo…”2

Na missa, durante a Oração Eucarística, após a narrativa da instituição, o rito latino inseriu a aclamação memorial. Duas delas tem sabor escatológico em suas conclusões: “Todas as vezes (…) enquanto esperamos vossa vinda”; “Anunciamos, Senhor (…). Vinde, Senhor Jesus!” Prevê-se que ambas sejam recitadas ou cantadas de pé por toda a assembleia celebrante.

Ajoelhar-se?

Aqui, talvez, seja importante considerarmos uma questão: a recomendação de ajoelhar-se. É bom que se entenda que a Instrução Geral do Missal Romano no número 43d, em sua terceira edição, inseriu algo que é, no mínimo, “estranho”3  no que concerne aos gestos e posições do corpo. Trata-se da possibilidade de manter-se ajoelhado do fim do canto do Santo até a Doxologia Final, bem como, novamente, no momento da apresentação do pão e vinho para a comunhão, enquanto se diz: “Eis o Cordeiro de Deus…”, ao qual a assembleia aclama com “Senhor não sou digno”.  A estranheza se caracteriza pelo aspecto anômalo desta postura para estes momentos da oração.

 

Uma vez que o próprio Missal diz textualmente que os gestos e posições do corpo devem refletir o significado das partes da celebração, bem como facilitar a participação do povo neste sentido realizado pelos ritos, como se pode prever que se ajoelhe, por exemplo, durante a execução de uma aclamação? Nenhuma das Instruções anteriores trazia esta recomendação de sabor claramente pré-conciliar, isto é, ligado ao Ordo Missae de Pio V que deu lugar ao Ordo Missae de Paulo VI, norma vigente para o Rito latino. Se dizia, ao contrário, com clareza na primeira e segunda Edição Típica (o que foi retirado na terceira versão da Instrução) que o povo deveria permanecer de pé desde a apresentação das oblatas até o fim da missa, salvo quando se indicasse claramente o contrário. E o contrário foi indicado como um evidente rompimento com a tradição mais antiga da Igreja universal, incluída a patrística.

Note-se que esse “onde houver o costume de se permanecer de joelhos” advém – evidentemente – da prática litúrgica pré-conciliar. Mantê-lo por respeito aos que estão apegados à ritualidade pré-conciliar, parece privar estes cristãos da perspectiva teológica mais antiga e genuína recuperada no Missal de Paulo VI. Uma ritualidade, vale a pena ressaltar, ligada a um Ordo previsto para o uso curial (que se tornou de uso normativo universal em Trento) no qual a preocupação com a participação do povo é irrisória pois, em geral, este não estava presente. Não há sentido algum prever este tipo de gestualidade claramente discordante do próprio sentido dos ritos conforme o uso ordinário para cristãos que não viveram a Liturgia de antes da reforma.

 

1Cf. BERGER, Rupert. Dicionário de Liturgia Pastoral. São Paulo: Loyola, 2010, p. 215.

2Isidoro de Sevilha. Ofícios Eclesiásticos, 24,2. In. Antologia Litúrgica. Textos litúrgicos, patrísticos e canônicos do primeiro milênio. Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2003, p. 1218, n.5512.
3Cf. argumentação de Frei Alberto Beckhäuser, OFM em BECKHÄUSER, Alberto. Novas Mudanças na Missa. Petrópolis, Vozes: 2000, p. 66.

 

Pe. Márcio Pimentel

Liturgista