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A Laudato Si e a declaração final da COP 21

 

A  segunda metade deste ano está marcada por três importantes encontros da ONU: a III Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento (Addis Abeba, Etiópia – 13 a 16 de Julho); a Cúpula das Nações Unidas para a Agenda de Desenvolvimento a partir de 2015 (Nova Iorque – 25 a 27 de Setembro) e a COP-21 da Convenção sobre Mudanças Climáticas, que se celebrará em Paris (30 de Novembro a 11 de Dezembro) com o objetivo de assinar um novo acordo sobre o clima. Fora da Conferência de Alto Nível no Vaticano “As pessoas e o Planeta em primeiro lugar: o imperativo de mudar de rumo” (Roma, Augustinianum, 2 a 3 de Julho), organizada pelo Pontifício Conselho da Justiça e da Paz e a CIDSE, rede internacional de ONGs católicas para o desenvolvimento.

 

Sem dúvida, a Encíclica “Laudato Si” terá uma enorme influência na COP-21, mas a sua importância, amplitude e profundidade vão muito além do seu contexto no tempo, tendo provocado um impacto planetário sem precedentes na análise das relações entre o ser humano e a natureza.

Edgar Morin considera a “Laudato Si” como “o Ato Número 1 para uma nova civilização”. Vandana Shiva ao sublinhar que a Encíclica se fundamenta explicitamente numa visão denominada “ecologia integral”, isto é, na ligação inseparável da ecologia com a sociedade e com a economia, lembra o parágrafo 49 da Encíclica que diz: “hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da Terra como o clamor dos pobres”. E Vandana sentencia: “isto para mim é a democracia na Terra”.

Respondendo a sua formação inicial de químico, por tanto estudioso da composição, estrutura e propriedades da matéria, Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, teve a ideia de escrever uma encíclica ecológica durante a visita que o Papa fez ao Brasil, em 2013; foi então que Francisco decidiu levar adiante o processo da “Laudato Si”. Nessa ocasião solicitou ao bispo prelado do Xingu, Dom Erwin Krawtler, que fizesse parte do seleto grupo de redatores do documento pontifício.

Os primeiros rascunhos da Encíclica foram elaborados na Pontifícia Universidade Católica Argentina (UCA) e eles transitaram durante alguns meses entre Roma e Buenos Aires. O decano da UCA, Monsenhor Víctor Manuel Fernández, numa entrevista ao jornal Clarín de Buenos Aires disse: “Eu ouvi do próprio Papa que, após o primeiro rascunho, houve um vendaval de contribuições e propostas de pessoas de todo o mundo: cientistas, ativistas, filósofos, empresários, políticos. Ele me confidenciou que, sem contar as sugestões menores ou as cartas mais simples, houve mais de 200 colaborações de muito valor, e que isso permitiu elaborar um texto que dialoga muito com os conceitos mais diversos. Eu mesmo reuni pesquisadores e docentes, da minha Universidade, de diferentes disciplinas, e fizemos uma contribuição”.

“Quando os seres humanos comprometem a integridade da Terra e contribuem para a mudança climática, desnudando-a das suas florestas naturais ou destruindo as suas áreas úmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar… tudo isso é pecado”
(Papa Francisco)

A redação final estendeu-se ao longo de um ano e, para isso, o Papa solicitou a contribuição de um significativo número de cientistas, filósofos e teólogos, como o geneticista Werner Arber, Presidente da Pontifícia Academia das Ciências; o climatologista e membro do IPCC, Hans Joachim Schellnhuber; o economista Partha Dasgupta, cujas pesquisas sobre a medição do bem-estar humano ajudaram a compreender quais são as condições necessárias para o desenvolvimento sustentável; a Secretária-Executiva da Convenção sobre Mudanças Climáticas, Christiana Figueres, entre outros.

O documento pontifício contou com a participação ativa do Cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson, atual Presidente do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, os teólogos argentinos Carlos María Galli e Víctor Manuel Fernández, além de Dom Erwin Krawtler. Todos eles regidos pela batuta do bispo salesiano Mario Toso, que na época era o Secretário do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, o Conselho encarregado de formatar a “Laudato Si”. Mas, a redação final foi feita pessoalmente pelo Papa Francisco.

Segundo alguns vaticanistas, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon, quando esteve no Vaticano, em Abril último, por ocasião da sua apresentação no seminário “Proteger a Terra, enobrecer a humanidade. As dimensões morais das mudanças climáticas e do desenvolvimento sustentável”, organizado pela Pontifícia Academia das Ciências Sociais, solicitou ao Papa Francisco que fizesse o lançamento do documento na segunda metade de Junho para ter um efeito em cadeia, antes do discurso que pronunciará o Sumo Pontífice na Assembleia das Nações Unidas, no próximo dia 25 de Setembro.

O Vaticano, ao longo do magistério dos três últimos Papas, aprofundou o entendimento de que a Terra estava chegando a um ponto sem volta na exploração dos seus recursos e que o aquecimento global, além de ter uma parte de origem antrópica, é uma realidade que deve ser enfrentada. Apesar dos poderosos interesses que financiam o negacionismo, o Papa Francisco, tomando emprestadas as palavras de um bispo da igreja ortodoxa, diz no parágrafo 8: “O Patriarca Bartolomeu tem-se referido particularmente à necessidade de cada um se arrepender do próprio modo de maltratar o Planeta, porque todos, na medida em que causamos pequenos danos ecológicos, somos chamados a reconhecer a nossa contribuição – pequena ou grande – para a desfiguração e destruição do ambiente”.

E o químico e Papa Francisco conclui: “quando os seres humanos comprometem a integridade da Terra e contribuem para a mudança climática, desnudando-a das suas florestas naturais ou destruindo as suas áreas úmidas; quando os seres humanos contaminam as águas, o solo, o ar… tudo isso é pecado”.

Sem dúvida, a sua inspiração mais radical foi explicitamente a obra do geopaleontólogo e padre jesuíta Teilhard de Chardin que reconciliou a ciência com a teologia e abriu o caminho para quase chegar ao panteísmo. Como Teilhard, Francisco assume o evolucionismo não só pelas evidências geológicas e fósseis da evolução do Planeta e da espécie humana, mas porque acredita que um dia o pensamento humano estará integrado numa única rede inteligente que dará lugar à noosfera, a inteligência recobrindo toda a biosfera terrestre. Isto é, o ponto ômega da COP-21.

Adital