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[Artigo] A importância de conhecer a vida no tempo de Jesus -Neuza Silveira, Secretariado Arquidiocesano Bíblico-catequético de Belo Horizonte

No atual momento de nossa realidade de fé,  precisamos recordar a pedagogia de Jesus e aprender a ensinar como Ele o fazia. A palavra da Igreja deve nascer do amor real às pessoas. Precisamos de palavras verdadeiras, livres da sedução do poder e repletas da força do Espírito Santo. A palavra tem força de criação. Não se pode esquecer que Deus cria o universo e tudo o que nele existe pela palavra. Assim, todo ato humano deve ser revestido da palavra que confirma nossas ações.

O uso consciente da Palavra é que faz de nós, seres humanos, sujeitos de relações. Nesse sentido, uma palavra acolhedora, atenta á realidade da pessoa, à sua individualidade, ao seu modo de vida, produz uma relação de respeito à pessoa e resgate de sua dignidade. Todos nós somos portadores da Luz Divina. Fazê-la brilhar é tarefa de cada um.
O primeiro passo para que essa relação se torne eficaz é se colocar no seguimento dos passos de Jesus e seguir seus ensinamentos. Procurar conhecer um pouco da cultura do seu tempo é uma melhor forma de compreendê-lo. Jesus cresceu na Galileia. Como era a realidade econômica, social e política daquele tempo, naquela região?
Muitos estudiosos do nosso tempo fizeram releituras daquele contexto trazendo para nossa realidade o conhecimento do modo de vida daquele povo.

Para conhecer um pouco sobre a estrutura econômica, política e social do tempo de Jesus, entramos um pouco sobre a forma de governo do Império Romano. Formado de muitas pequenas nações, para manter o domínio colonial, o imperador contava com a ajuda da aristocracia nativa. Estas, colocando-se às suas ordens, recebiam recompensas como grandes doações de terras e altos cargos no governo, em troca dos altos impostos que cobravam da população.

Em relação à economia Imperial antiga, a Palestina era considerada uma ‘sociedade’ bem estruturada e evoluída. A população que trabalhava na lavoura e em ocupações a ela relacionadas representava 90 por cento. A invenção do arado de ponta de ferro possibilitou ao lavrador produzir uma safra maior, além do seu consumo familiar, e esse excedente era destinado para a aristocracia viver. Era uma situação possível graças a um mito de reciprocidade no qual, em troca do trabalho dos camponeses, a aristocracia supostamente dava proteção contra inimigos externos. A classe dominante simplesmente usava o domínio da terra para explorar os camponeses de todas as maneiras possíveis. Quando acontecia alguma melhoria de infraestrutura, estas eram sempre em benefícios da elite.

A aristocracia, graças à politica interna, tinha como intenção enfraquecer por completo os camponeses, para que a classe dominante ficasse com toda a riqueza gerada pela região. O governante e seus subordinados formavam apenas dois por cento da população, mas para supervisionar todo o povo eles empregavam auxiliares para servirem de intermediários entre o poder eles e a classe baixa. Eram os coletores de impostos e pedágio, os educadores, os militares, os artesãos qualificados, os escribas e o clero religioso. Todos esses auxiliares enriqueciam às custas dos trabalhos da população pobre. Os camponeses acabavam sempre endividados, pois eram obrigados a desenvolver plantios de produtos que eram próprios para o mercado. Os gêneros de primeira necessidade tinham que ser comprados para o susto das famílias camponesas. O sistema de distribuição de renda era perverso, embora aos olhos do sistema político e tributário era considerado normal nos impérios antigos e os camponeses eram totalmente impotentes para fazer algo contra.

O sistema religioso obrigava a todos participarem da religião pública do Estado. Os sacerdotes eram considerados os mestres e funcionários oficiais da religião. Para os camponeses, esta era a forma que a nação tinha de agradar aos deuses. Acreditavam que, com suas orações e ritos, os deuses podiam manter as terras férteis para a produção e assim eles teriam sua sobrevivência.

Olhando para essa realidade, ela nos ajuda a compreender várias atitudes de Jesus naquele tempo, pois o povo vivia em uma sociedade burocrática que não se preocupava com o bem-estar do indivíduo e com camponeses que não tinham praticamente nada para repartir com os pobres. Além disso, eles eram impedidos de se envolverem com a comunidade por ser considerados ‘impuros’ perante a lei estabelecida. O entendimento de Jesus, segundo o que ele aprendeu na ‘Sagrada Escritura’ era o oposto desse exclusivismo.

Para Jesus, a compaixão divina era o ensinamento central das Escrituras e considerava impuro só aquilo que ia contra a vontade de Deus. Ele conhecia as leis bíblicas. Compreendia a Torá como lei e instrução para a vida do povo e as interpretava à luz do designo divino para ela. Defendia os preceitos estabelecidos na lei sobre a remissão das dívidas todo sétimo ano, ou ano sabático, e, no ano do jubileu, ou seja, o quinquagésimo ano que, segundo Lv 25,10.13-17.23-28, deveria ocorrer a devolução da terra que uma família perdera, leis que não eram cumpridas pela aristocracia.
Mais uma compreensão dos ensinamentos de Jesus pode-se tirar dessa realidade sobre o cumprimento ou não dos preceitos bíblicos, pois é nesse contexto de acumulo de bens por parte das elites, a não devolução das terras e perdão das dívidas que Jesus disse: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo da agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mc 10, 25-26). Jesus ensina a partilhar, nos chama ao cuidado e à atenção com os mais necessitados e não a praticar o acúmulo de bens que leva à pobreza do outro, à exclusão.

Jesus nos ensina a acolher e estar próximo ao outro. O que Jesus diz por palavras e ações fala a verdade a respeito de Deus e do plano de Deus para nós. Conhecendo os ensinamentos de Jesus estamos a caminhar para realizar a vontade do Pai e promover a presença do Reino no meio de nós.

Neuza Silveira de Souza. Coordenadora do Secretariado Arquidiocesano Bíblico-catequético de belo Horizonte.