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…E a Palavra se fez carne
e habitou entre nós, Jo 1, 14

No Mês da Bíblia, gostaria de partilhar com o leitor uma nova direção que a Palavra de Deus tem me feito perceber em diálogo com outro campo que lhe diz respeito, o da antropologia. Se algo que esta área do conhecimento nos ajuda perceber é o fato de que “palavras não são só palavras…”.

Elas podem criar pontes, mas também abismos; edificar, mas também destruir. Com isso percebemos, de modo prático, a constituição psíquica do ser humano, muitas vezes obscurecida pelo corpo físico, palpável e que, especialmente na atualidade, é supervalorizado. A palavra também tem o poder de sustentar tanto quanto enfraquecer o ser humano na lida diária, principalmente com as pessoas que são relevantes para a sua vida.

Quando escutamos um texto bíblico, já fomos moldados e marcados como ser humano no campo da linguagem, isto é, na esteira da palavra na vida cotidiana. Por isso, ao nos dirigirmos a um texto sagrado, se cremos nele, nos sentimos tão em casa, tão estimulados a acolhê-lo e a deixá-lo fazer morada em nós.

Somos humanos e desenvolvemos uma forma de comunicação entre nossos semelhantes a partir das palavras revestidas de nossas necessidades. E nelas encontramos, em dado momento, a Palavra de Deus como semente que tende a ser fecundada, como recorda-nos a parábola do semeador. Todavia, esta palavra-semente, germe de vida, depende do meio e das margens do caminho, enfim, daquilo que é a existência de cada um.

 

A morada do Eterno se deu a partir da bendita Palavra escutada e acolhida por Maria

Da parte de Deus, sabemos que a sua Palavra sempre busca promover o encontro, gerar a vida, produzir frutos. No campo antropológico e psíquico, a palavra ganha forma, mostrando-se com sua força e sua fraqueza. E ai, quem sabe, fica mais fácil dialogarmos com esta palavra bíblico-cristã.

A partir do criador da corrente psicológica chamada constelações familiares, de Bert Hellinger, descobre-se o valor do campo semântico da linguagem e seus signos. O referido autor mostra-nos que as palavras não encerram sentido em si próprias. São ideias, ideais, sentimentos, posturas, verdades, mentiras, pontes e abismos. Elas são poesias e inspirações para as artes. Vale aqui lembrar Rubem Alves: “Palavra e carne, sem separação, sem confusão, e, não obstante, um único corpo”. A palavra é carne quanto toma sua forma. Uma vez encarnada, será sempre um corpo que comunica algo vivo no campo do amor ou da dor.

Às vezes, voando com uma ou outra palavra escutada, fico pensando, por que será que o Criador usou da Palavra para se encarnar no nosso meio? A morada do Eterno se deu a partir da bendita Palavra escutada e acolhida por Maria. A própria narrativa da criação do mundo se deu a partir da palavra proferida com o desejo do Criador: “E Deus disse, faça-se o firmamento… que existam luzeiros no firmamento… E Deus disse: façamos o homem e a mulher à nossa imagem e semelhança…E Deus os abençoou e lhes disse: sejam fecundos…” (Gn 1).

 

 Estou convicto de
que o verbo não
apenas se fez carne, mas creio, com todas
as minhas forças, que
o Verbo continua se fazendo carne em
cada momento.

Nosso Deus, Deus do “faça-se”, continuou a dizer palavras tão bem ditas, que certo dia uma jovem judia as escutou com tamanha fé que “a Palavra se fez Carne”, morada definitiva entre nós. Que mistério e poder contém a palavra para tanta exclusividade merecer diante da criação e principalmente da própria encarnação do Filho de Deus? Haveria outra forma? Prefiro me calar e apenas contemplar o que é da ordem do mistério… Ver o que nasce (encarna) diante de um verdadeiro encontro com a palavra que é, ao mesmo tempo, humanamente divina e divinamente humana.

Não creio que o Verbo se fez carne,  estagnando-se no passado cristão. Estou convicto, creio com todas as minhas forças, que o Verbo continua se fazendo carne em cada momento. Nas relações com o outro, a palavra consegue criar pontes, horizontes, chegando a lugares jamais imaginados ou tocados pelos pés do seu emissor – digo emissor, porque palavras que se encarnam só podem ter como autor o Espírito daquele que continua criando entre nós, Deus.

As palavras que ferem só podem ser compreendidas no plano da fragilidade dos terrenos, o coração humano. Assim, o Verbo de Deus atingiu a sua plenitude de inscrição histórica com a encarnação do Filho, mas continua se revelando na participação de cada um de nós.  Que a Palavra encontre no coração de cada um de nós terreno fértil, generoso, e nele produza muitos frutos.  

 

 

 

 

 

Pe. Marcelo Silva, sss
Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem