Você está em:

Toda a nossa vida tem sido uma longa busca da felicidade, ser feliz. Em qualquer parte, a toda hora, por todos os lugares do mundo, estamos sempre procurando seu rastro ou sua presença.

 

Afinal, que é a Felicidade? Coisa que todos desejam e ninguém alcança? Ilusão do porvir que jamais chega? O ópio com que se suaviza a realidade dramática da existência humana? A alienação utópica do real? A decepção que dela sofremos não é um desmentido a todos os nossos planos e projetos, a todos os nossos propósitos?

 

Não existe caminho para a felicidade. A Felicidade é o caminho. Os fins estão nos meios, como a árvore está na semente

Há no coração do ser humano um clamor, um gemido profundo e incessante pela felicidade. É como que o elã vital, o impulso mais fundo do seu ser. Na fenda mais radical de sua personalidade faz um anelo de plenitude, uma espreita de felicidade.

 

A felicidade está desenhada nas cavernas profundas do sentido existencial da pessoa humana. É sua vocação radical, tendência irreprimível do ser, desassossego misterioso. Aí, no mais profundo, nas entranhas do espírito, acha-se gravado este projeto originário. Sua origem se oculta nas mãos e na mente do Criador, seu destino é Deus, a felicidade mesma de Deus, sua sorte joga-se na revelação da vontade amorosa, providente e onipresente de Deus e a sumamente débil liberdade e vontade humanas.

 

A felicidade é um transcendental, ultrapassa todo o ser humano em todos os níveis e direções.

 

É argumento para todo homem de toda raça, condição e tempo. É chamado geral e particular.

Felicidade e projeto são correlativos. Porém, não é a felicidade para o projeto, ainda que seja sua motivação radical e decisiva, mas o projeto para a felicidade.

 

Parece no coração do homem que a felicidade diz respeito primeiramente ao cumprimento dos projetos e suas realizações; se cumprirem meus projetos vitais, serei feliz, caso contrário, serei infeliz.

A felicidade é transcendente e imanente aos projetos. É anterior como necessidade vital. Vai além com conquista consumada. É-lhe imamente como totalidade anímica (concernente ou pertencente à alma) e impulsos renovados.

 

O cristão tem o fundamento de seu projeto de vida em Jesus e seu Evangelho. Projeto que se concentra nas Bem-Aventuranças (cfr.  Mt. 5,3-11). A palavra bem-aventurança deriva-se, evidentemente, de ventura, que é também uma excelente palavra, usada em espanhol para designar a felicidade. Na sua origem, era o plural neutro de venturos (vindouro); portanto, as coisas vindouras. Temos aí uma interessante referência ao futuro, que, assim, aparece pela primeira vez no vocabulário da felicidade.

 

O significado de fecundidade ou fertilidade aparecia na palavra felix, e , naturalmente, em felicitas; o significado de cumulado ou repleto, em beatus – do verbo beo , cujo infinitivo é beare; mas a referência ao futuro compete a ventura à liberdade, repetida tantas vezes como, por exemplo, no verso: “Tu mesmo te forjaste tira tua ventura.”

 

O argumento da felicidade está como pano de fundo em todo coração.

Uma personalidade equilibrada e bom projeto de vida contém a engrenagem básica para a felicidade; graças à primeira, o homem se encontra consigo mesmo;graças ao segundo, o homem se realiza através do seu trabalho, de uma vida afetiva satisfeita e de uma correta interpretação da vida mediante a cultura. Eis aí a interpretação da felicidade, com tudo o que ela significa e traz consigo.

 

Um coração feliz em um caráter alegre é um dom precioso não só para aquele que o possui, mas também para aqueles que vivem à sua volta. Somente alcançamos a própria felicidade quando nos ocupamos dos outros

A felicidade é fruto de uma plenitude. Plenitude indica acabamento, conquista, posse de um bem, de uma riqueza. A felicidade brota da auto-realização, na aquisição de valores, na maturação integral da personalidade. Assim sendo, o objetivo da felicidade é a realização de si mesmo. Isto se concretiza de acordo com a minha teoria – tendo encontrado sua própria personalidade, mantendo em funcionamento esse projeto e programa que é a vida.

 

Viver não é apenas estar aí, mas projetar e escolher, a fim de estar bem, a fim de conseguir um bem-estar e, por fim, ser feliz.

O próprio ser deseja-se sempre a Perfeição: deseja-se possuir alto e qualificado grau de liberdade, de paz, de verdade, de justiça, de bondade, de amor e de felicidade.

 

A experiência de todos e de cada ser humano constata o desejo e a procura da felicidade, porém que tipo de felicidade?

A felicidade é uma dimensão em perspectiva que corresponde à realização do nosso projeto pessoal. É daí que devemos partir. E que é o projeto pessoal? É um cálculo que eu faço sobre a minha vida, é aquilo que eu desejo que ela seja, são os planos traçados por mim para que no dia de amanhã eles estejam impregnados de futuro. Todo homem psiquicamente sadio possui um presente dentro do qual o passado já dirigido e dentro do qual quase tudo é futuro. E esse não é outra coisa senão a realização do meu projeto.

 

Portanto, penso que devemos viver com as incertezas do amanhã e na intensidade do hoje. E se não formos melhores que hoje no dia de amanhã, então para que precisaremos do amanhã e que valerá o nosso hoje?

Aí, então, é buscarmos viver o que a Palavra de Deus nos orienta como sábia condutora de nossa vida para a felicidade Eterna, a Bem-Aventurança: “Delicia-te no Senhor, põe teus desejos em Seu coração, espera Nele e Ele te concederá os pedidos, do teu coração.” (Sl 36/37). Em Torvergata, o saudoso Papa João Paulo II disse aos jovens: “Na verdade , quando vocês procuram a felicidade, é Jesus que estão procurando”.

Não existe ninguém que não deseje a felicidade. E a palavra santidade tem um sinônimo: felicidade.

 

Perguntemo-nos, porém, no profundo da nossa alma, se estamos dispostos a um caminho decidido e incondicional rumo à Santidade. Não existe outro caminho que leve à felicidade a não ser o caminho que nos leva a configurarmo-nos à Santidade de Jesus Cristo. Este caminho se realiza buscando a graça de Deus porque só esta pode nos conduzir à santidade.

“Com quanto mais insistência não devemos nós dizer que é atraído para Cristo o homem que se delicia com a verdade, que se delicia com a felicidade, que se delicia com a justiça, que  se delicia com a vida sempiterna, uma vez que Cristo é tudo isso” (Sto. Agostinho, In Joannem, tract, 26).

Coerência e fidelidade são assim dois instrumentos imprescindíveis para alcançar a felicidade.

Na verdade, a experiência de Deus é a felicidade que mais gozo comporta.

 

Um coração feliz em um caráter alegre é um dom precioso não só para aquele que o possui, mas também para aqueles que vivem à sua volta. Somente alcançamos a própria felicidade quando nos ocupamos dos outros.

Tagore afirmou: “Dormia e sonhava que a vida é para ser feliz, mas despertei e vi que a vida era serviço. Então servi e vi que o serviço era felicidade”.

Deus nos criou para a felicidade.

 

A felicidade consiste, pois, em cumprir esse preceito: amar a Deus e nele e por ele a todos os seres criados. A felicidade é, portanto, o prêmio do dever cumprido.

A falta de felicidade significa falta de amor a Deus e ao próximo.

“Tenha a consciência tranqüila,” assegura Tomás Kempis, “e terá sempre felicidade merecida”.

 

O ser humano integrado, refletindo esta harmonia para as coisas, cria um mundo onde todos podem viver em Felicidade.

Não existe caminho para a felicidade. A Felicidade é o caminho.

 “Os fins estão nos meios, como a árvore está na semente.” (Ghandi). 

   
Pe. Emílio Carlos Mancini