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Nos dois artigos da IGMR, 27-28 , a Igreja apresenta a estrutura geral da celebração do Sacramento da Eucaristia: mesa da Palavra e mesa da Eucaristia, precedidos dos ritos iniciais, para abrir a celebração e seguidos dos ritos finais para concluí-la.  Contudo, o texto diz mais do que aparenta. O povo que se reúne para celebrar é convocado em assembleia. Isso diz algo do próprio ser da Igreja (ekklesia) enquanto reunião dos convocados, escolhidos por Deus, tirados da dispersão para a congregação, a comunhão. Diz também algo de quem convoca: Deus. É de sua iniciativa a celebração da comunidade cristã. A reunião litúrgica não é uma iniciativa humana, mas proposição divina.

 

A mesa da Palavra
remete à mesa da Eucaristia que por sua
vez a supõe
A Eucaristia é celebração da nova e eterna Aliança
Não há celebração da Aliança sem um rito
de leitura
da lei de Deus

Por fim, o texto insinua algo da própria liturgia: sendo iniciativa divina e não humana, o culto tem uma direção katabática (que se inclina, de cima para baixo), enquanto é Deus que nos salva e vem ao nosso encontro. A dimensão anabática (que se eleva, de baixo para cima), depende desse mesmo Deus que na pessoa do Filho nos associa a si. A liturgia cristã é, eminentemente, ação do Cristo que inclui a participação da Igreja. É o Christus Totuus (Cristo inteiro), expressão que se encontra em Agostinho: “A Palavra se fez carne, e habitou entre nós; para que à carne se juntasse a Igreja, e nela se fizesse o Cristo inteiro (Christus Totus), cabeça e membros.” (Comentário à Epístola de S. João 1.2).

Os dois artigos tratam ainda da presença real de Jesus, ressoando o artigo 7 da Constituição litúrgica, Sacrosanctum Concilium: Cristo está presente no seu povo reunido, na Palavra proclamada, nos ministros e nas espécies sagradas, nestas últimas de modo substancial. Contudo, é inegável que o texto sublinha a presença na assembleia, dado o seu teor eclesiológico. De fato, a assembleia reunida é, sinal fundamental da liturgia cristã. É aos fiéis que se destina a instrução da Palavra e o alimento do Corpo e Sangue do Senhor.
 
A unidade das duas mesas são ainda reafirmadas, como um só ato de culto. A mesa da Palavra remete à mesa da Eucaristia que por sua vez a supõe. A Eucaristia é celebração da nova e eterna Aliança. Não há celebração da Aliança sem um rito de leitura da lei de Deus, com a qual nos comprometemos e nem sem um rito sacrifical que sele tal compromisso, o rito eucarístico. De fato, celebrar a eucaristia sem a devida escuta da Palavra de Deus é amputar o sacramento, pois o mesmo Cristo que se dá na mesa da Palavra, é distribuído aos fiéis nos sinais do pão e do vinho. Se se pode falar de unidade das duas mesas, essa unidade é, sem sombra de dúvida, o Cristo Palavra, que se encarna no rito da proclamação e nas espécies consagradas.

Pe Danilo César
Liturgista