Você está em:

A espiritualidade do Dízimo (2)

Por onde passa a espiritualidade do dízimo?

A opção pelo dízimo caminha na trilha da generosidade e seus derivados, tais como: beleza, bondade, liberdade, munificência, grandeza de alma etc. Dizimar é um gesto de doação; é uma subida da alma até Deus para contemplar a sua criação que necessita do resgate da beleza, da abertura do coração, da partilha de um gesto generoso. Contribuir com o dízimo é um incentivo à generosidade; é a mão estendida do novo ser renovado na solidariedade! Diz o dicionário: “Generosidade é a virtude que a pessoa tem quando acrescenta algo ao próximo”.

 

Generosidade se aplica também quando a pessoa que dá algo a alguém tem o suficiente para dividir. Não se limita apenas em bens materiais. Generosos são tanto as pessoas que se sentem bem em dividir um tesouro com mais pessoas porque isso as fará bem, tanto quanto aquela pessoa que dividirá um tempo agradável para outros sem a necessidade de receber algo em troca.

As considerações espirituais de Santo Agostinho são coloridas por comparações e exemplos que remetem a essa realidade cotidiana. Por exemplo, após exortar ao desprendimento em relação aos bens materiais e criticar contundentemente os avarentos, Agostinho propõe a generosidade, valendo-se da comparação mais familiar a seus ouvintes: ‘Que havemos de fazer pois, com as nossas riquezas? ‘Sede ricos em boas obras, dadivosos, generosos’ (1Tm 6,18) … Deus não quer que percas as tuas riquezas, mas te aconselha a mudá-las de lugar. Que vossa caridade me entenda: suponhamos que não sejas bom conhecedor do trigo e que entrasse em tua casa um amigo perito na conservação desse cereal e visse que o armazenas no chão úmido e te desse um conselho: ‘Irmão, estás a perder o que com grande esforço colheste, pois se o deixas em lugar úmido, em poucos dias estará podre’ ‘Que devo fazer, irmão’? ‘Sobe-o para o andar de cima’. Tu que ouves um amigo que sugere a elevação do trigo, não ouves a Cristo que te aconselha a elevares teu tesouro da terra para o céu não já para conservar o que guardas, mas para sublimar: guardavas terra e receberás céu; guardavas o extinguível, receberás imortalidade’ (En. 48,1,9).

Educar o coração para a doação

 

O dízimo somente faz sentido para aquele que aprende a educar seu coração para a generosidade conseqüente

No mundo marcado pelo capitalismo selvagem, pelo massacrante egoísmo alguém deve fazer a diferença. Em tempo de tanta penúria, sofrimento, injustiça alguém deve dar o primeiro passo com o intuito de ser distinto. Doação é o ato de dar um bem próprio a outra pessoa, geralmente alguém necessitado, ou a uma instituição. O coração, no entanto, deve estar atento e educado para isso. O dízimo somente faz sentido para aquele que aprende a educar seu coração para a generosidade consequente. A espiritualidade passa por esse difícil caminho de ascensão. Paulo lembra: “Cada um dê conforme decidir em seu coração” (2 Cor 9,7a) e acrescenta: “Sem pena e constrangimento, porque Deus ama quem dá com alegria” (v. 7b).

A partilha e a solidariedade em favor dos mais pobres não se manifestavam só na própria comunidade, mas eram sinal de unidade entre as diversas comunidades. A solidariedade com o dízimo é sinal de um sadio intercambio material e não somente uma questão periférica da fé. A espiritualidade do dízimo é um sinal de obediência à Palavra de Deus, presente em seu Evangelho. “Tal serviço será para eles uma prova; e eles agradecerão a Deus pela obediência que vocês professam ao Evangelho de Cristo e pela generosidade com que vocês repartem os bens com eles e com todos” (2 Cor 9, 13).


Conclusão

Tivemos pouco espaço para falar sobre a espiritualidade do dizimo. Talvez algum dia, aprofundaremos a matéria. Existem tantas opções de sugestões para falar sobre essa maravilhosa experiência de Deus na vida cristã. Resumidamente podemos concluir com alguns acenos. Uma pergunta: o que é e o que significa ser dizimista? Ser dizimista é:

– estar aberto ao infinito. Deus nos dá tudo que temos e possuímos;

– colaborar na expansão do Reino de Deus. O dízimo nos faz crescer em direção ao céu e à terra em perfeita harmonia;

– agradecer a Deus sua bondade. Oportunidade única nessa vida de concidadãos do céu. Eternamente agradecidos pelo dom da vida;

– expressar a fé. Oportunidade de crescer em função dos irmãos. A solidariedade nasce da partilha entre os irmãos. Um gesto que dá sentido à vida;

– devolver a Deus o que é de Sua propriedade (Lv 27, 30). Por toda bondade reconhecida eu me disponho todo mês fazer fielmente a minha parte. Somos um povo consagrado ao Senhor e reconhecemos isso como filhos obedientes;

– ter consciência eclesial. Sou convidado a contribuir na expansão do Reino de Deus. O Reino é como uma semente lançada ao solo do coração generoso. Sempre dará frutos.

A realidade de nosso povo nos interpela (DA, 12ss. ‘Fazer da Igreja a casa e a escola de comunhão: eis o grande desafio que nos espera (nº. 54)) e – amar a Deus e ao próximo. Síntese de toda a bondade humana e reconhecimento da imensa generosidade do Pai que nos deu seu Filho como Salvador.

 

Pe. Jerônimo Gasques
Autor do Livro As Sete Chaves do Dízimo
Pároco da Paróquia São José-Presidente Prudente (SP)