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57ª Assembleia da CNBB: Bispos se dedicam ao estudo da conjuntura sociopolítica e eclesial

Os bispos que participam da 57ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Aparecida (SP), acompanharam a exposição de estudos sobre a conjuntura eclesial e social. A doutora em economia Tânia Bacelar de Araújo, professora aposentada da Universidade Federal de Pernambuco, fez exposição sobre a situação econômica do Brasil. Em outra sessão de estudos, os bispos ouviram o arcebispo emérito de Aparecida (SP) e ex-presidente da CNBB, cardeal Raymundo Damasceno Assis, e dom Francisco Biasin, administrador apostólico da diocese de Barra do Pirai-Volta Redonda (RJ) e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso.
Brasil: mudanças recentes e momento presente

A professora Tânia Bacelar fez sua apresentação com o título: “Brasil: mudanças recentes e momento presente”. Inicialmente, ela lembrou que avança a financeirização na economia mundial, isto é, a esfera da produção – que inclui a indústria, a agricultura e o comércio – perde em relação ao movimento de dinheiro que ocorre no mercado de títulos, bolsa de valores e outros. Consolidam-se, disse a professora, “novos paradigmas técnicos impactando na produção, no emprego, no consumo e na organização da sociedade“. Ela diz também que faz uma diferença ao mundo atual a crise ambiental, o avanço de novo modelo energético e o debate sobre o desenvolvimento em ambiente de ampliação de consciência ecológica.

Tânia também citou o “aumento da concentração da renda e desorganização da vida social em vários países (gerando emigração em massa), em paralelo ao avanço das propostas de redução do papel do Estado (força do liberalismo econômico), em meio à crise da democracia representativa e perda de espaço dos valores do humanismo“.

Após falar do processo econômico pelo qual o Brasil passa nas últimas décadas, a doutora encerrou sua conferência lembrando da economia impactada pela crise financeira, a retração da China e a queda mundial dos preços das commodities; limitações ao crescimento pelo consumo das famílias e rápido avanço da recessão, além do problema fiscal agravado pela desaceleração da receita e das medidas que ampliaram renúncias, despesas e divida pública.
Para além da conjuntura, a professora considerou: “Como não existe só crise, o Brasil precisa se reposicionar no ambiente mundial, marcado por mudanças econômicas e sociais importantes e redefinições geopolíticas“. E ainda constatou: “O debate sobre novas alternativas arrefeceu e as visões conservadoras avançam mundialmente“. E finalizou: “O momento brasileiro atual é desafiador: país perde peso econômico no mundo e população está empobrecendo“.

Conjuntura eclesial

O arcebispo emérito de Aparecida (SP) intitulou sua intervenção como análise de conjuntura eclesial de “Um breve olhar”: “Um olhar atento percebe muitas iniciativas na Igreja no Brasil, graças à participação do povo fiel, à atuação ministerial e aos serviços desempenhados pelos leigos e leigas nas nossas comunidades, pelo testemunho dos consagrados e consagradas, pela dedicação dos pastores, particularmente visibilizado pela solidariedade aos mais pobres, inclusive até o martírio“.

“Na atual cultura urbana”, disse dom Damasceno, “a conexão fornecida pela rede mundial, a internet, oferece muitas oportunidades para a comunicação e também para a presença da Igreja. Mas aí se encontra um dos grandes desafios no que se refere à presença da Igreja no mundo de hoje, à forma como ela passa a ser percebida principalmente pelo grande número de pessoas que não participam de sua vida no dia-a-dia. A tecnologia popularizada causa uma certa abolição do tempo e uma relativização do espaço. Na rede, o mundo transformou-se como numa cidade sem contornos nem confins. Há uma diluição das identidades em afirmações ideológicas nas quais predomina não a ‘razão comunicativa’, mas uma comunicação emocional”.

A Igreja, em sua atuação pastoral, sobretudo no novo espaço urbano “precisa levar em conta os efeitos dessa forma de comunicação para o conjunto de sua ação pastoral. Uma pequena amostra das dimensões desse desafio se encontra no debate das redes que atribui à Igreja, ao Papa, ou à CNBB o que nem sequer foi afirmado. Muitas vezes, ao debater o que foi efetivamente afirmado se interpreta de modo equivocado. A título de exemplo podemos citar as notícias controversas nas redes sociais sobre a nova tradução da Bíblia pela CNBB e a tradução do Novo Missal Romano, que foram motivos de críticas. São comuns expressões de agressão e violência gratuitas. A chave de interpretação tende a ser dualista e, em certa medida, maniqueísta“.

Dom Damasceno acrescentou: “Infelizmente, podemos afirmar que as manifestações mais exacerbadas contra a Igreja na rede são promovidas por grupos ou pessoas que fazem parte da Igreja. As vítimas prediletas entre nós são quase sempre a Conferência Episcopal, o Papa Francisco e, mais recentemente, uma pretensa oposição entre o Papa Francisco e o Papa Emérito Bento XVI. Como afirma o Santo Padre na sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano, ‘é necessário reconhecer que se, por um lado, as redes sociais servem para nos conectarmos melhor, fazendo-nos encontrar e ajudar uns aos outros, por outro, prestam-se também a um uso manipulador dos dados pessoais, visando obter vantagens no plano político ou econômico, [eu acrescentaria a busca de prestígio], sem o devido respeito pela pessoa e seus direitos’”.

Ecumenismo

Na mesma sessão de estudos de conjuntura eclesial, falou dom Francisco Biasin. Ele fez sua análise na perspectiva do ecumenismo. “Falar em análise de conjuntura implica falar em ecumenismo, não apenas para tratar das relações ad extra da Igreja, mas para analisar algo que lhe constitutivo, uma nota própria: a unidade“. Dom Biasin fez, no início de sua exposição, uma retomada histórica do movimento ecumênico no Brasil, afirmando que “foi possível realizar um diálogo multilateral pelas organizações ecumênicas; e bilateral pelas comissões específicas. Cada um desses organismos ecumênicos tem sua dinâmica própria, sua pauta específica para o diálogo e um modo de agir, conforme a configuração que lhe é dada pelos seus contextos e sua membresia. Isso significa que o diálogo ecumênico acontece de modo situado, procurando responder às demandas da fé cristã em realidades bem concretas e ao mesmo tempo diversificadas“.

Sobre o presente, dom Biasin propôs questionamentos: “que frutos podem ser colhidos do cultivo da planta ecumênica?” Onde foi possível chegar no caminho percorrido? E respondeu: “Destacamos uma maior fraternidade entre as Igrejas pelo reconhecimento mútuo do batismo e pela afirmação dos valores do diálogo e do respeito mútuo, a prática da cooperação, o aumento da procura pela formação ecumênica, a intensificação da espiritualidade do diálogo“.
Dom Biasin, depois de analisar horizontes sociais, teológicos e espirituais, falou das perspectivas futuras: “não obstante os frutos colhidos, os obstáculos também são perceptíveis. O movimento ecumênico sente uma espécie de cansaço pelo atraso da comunhão tão esperada. Posturas de lideranças eclesiásticas por vezes fragilizam a convicção alicerçada nessa longa caminhada e em muitos ambientes, o espírito do diálogo, respeito mútuo e cooperação cede lugar a atitudes fundamentalistas e exclusivistas, atrasando a recepção dos frutos obtidos pelo exercício do diálogo na estruturas das Igrejas”.

Depois de aprofundar outros desafios, dom Biasin concluiu: “O princípio da caridade é que nos une e nos motiva no trabalho ecumênico: ‘se vos amardes uns aos outros, todos reconhecerão que sois meus discípulos‘(Jo 13,35)”. E afirmou: “para isto trabalhamos. Que o Espírito da Unidade nos oriente e nos sustente na nossa caminhada rumo à unidade do único Corpo de Cristo“.